O taxista


Fiquei um tempo contemplando seus olhos. Eram azulados: não sei se naturalmente azulados, ou se era catarata, pois havia certa desatenção em sua mirada que me lembrava cegueira. Ora! Que irresponsabilidade entrar dentro de um carro com alguém que não enxerga conduzindo. Tinha que chegar em casa! Havia gente me esperando. Sempre me desesperei com a ideia de esperar alguém que nunca chega. Imagine a tragédia: Moça morre em acidente de carro conduzido por um motorista cego.Cego! Mas quando percebi, já estava dentro dele. Como sou muito dada à devaneios, não é incomum que meu corpo haja por conta própria alguma vezes. Entrei no carro com o motorista cego, sentei no banco de passageiros, e só me dei conta quando a voz dele rompeu bruscamente o silêncio:

-Para onde, moça?

Ai paizinho. Não sei para onde. Deveria ir para casa, mas não quero ir para lá. Quero ir longe, longe! Bem longe, não, não quero ir para casa. Motorista, queria ir para Romênia, você dirige até a Romênia, hein? Sabe, sempre quis ir para lá, gosto do som do idioma e da música, é gosto muito. Deve ser uma beleza, Romênia, você sabe chegar motorista, hein? Sabe? Como saberia, é cego! Não, é melhor pensar que não é, imagine a loucura, meu Deus, andar no táxi com alguém cego dirigindo, não. Tenho que chegar em casa, devo, devo chegar em casa, afinal, me esperam. Como digo para onde vou, se onde vou não é onde quero chegar, preciso ir para casa.

-Motorista, me deixe na R. LyotardLabé.

E ele lá sabe onde é a essa rua? Coitado, não deve enxergar um palmo a frente no nariz. Cego, ceguinho feito minhoca, deve achar que o mundo é um grande tubo de terra.
E como se o motorista ouvisse pensamentos, logo me respondeu:

-Olhe moça, te levo onde quiser, conheço tudinho. Melhor que meu corpo! Já nem distingo na verdade, eu da rua.

Assustei-me confesso, ao ouvir tal voz vinda de um corpo tão retorcido. E ele prosseguiu:

-Moça, conheço  tudinho dessas rua. Muito tempo de casa, poderia andar nelas tudo sem enxergar nadinha (ai, frio na espinha, era cego ou não?), sei de cor cada calçada e travessa. E os falecido tudo, eu conheci. E tanto faz os que nasceram dispois: eles tem tudo as mesma cara dos falecido, nasceram pra substituir. Sabe né moça, todo mundo tem seu lugarzinho, eu, sou de passagem, sou trânsito, mas lembro bem das coisa tudo. Quem roda muito por ai, vê de um tudo, vive de memória. Por isso digo, aonde a fia quiser ir, eu levo. Conheço tudo as rua – postes, árvores, os gato miando. Sei quando mudam de sentido. Tenho tudo gravado ó (e batia na cabeça com pancadas razoavelmente fortes). Meus óio guarda tudo. Tá vendo essas ruga? Cada ruga é a linha de um mapa em mim. De cada lugar que eu passei, pode reparar! Elas cresce, encurta, cruza, faz curva. E os dente que falta é os buraco das rua (e soltou uma estrondosa risada). Ai, é o tempo moça, chega pras cidade, chega pra gente tudo, envelhecemo tudo junto. Mas conheço tudinho, mesmo assim. Não precisaria enxergar nada, farejo os caminho. Eu sei das coisas: se a arte é uma forma de estar no mundo, minha arte é conduzir. Nem pego ônibus, me agarra uma raiva. Mas me diga, onde quer ir mesmo?

A esta altura, já havia me perdido no mapa-ruga, procurando um destino para mim. Baixos os olhos (cegos?) do motorista, procurei pela minha rua. Procurei a Romênia, procurei a puta que pariu. Se sabe das coisas, não teria que me perguntar onde quero ir!

– É moça, conheço mais da rua que da gente.

Pronto. Dois solitários: uma perdida e um cego enfiados no mesmo táxi. E ele não desistia de falar, nunca. Já estávamos perto de casa. Vinha falando de como as coisas eram antes de elas se tornarem o que são. Nem tudo foi como é, há muito tempo costumavam ser diferentes. Eu fiquei diferente. Houve tempos em que quis voltar para casa, ai passou a vontade.Sou passageira, ouviu? Passageira. O velho não para de falar. Aposto que mora no táxi. Nunca dorme, fica pescando almas perdidas para atazanar com seus pensamentos. Sabedoria de bolso. De taxímetro. Falando em taxímetro, nem olhei em quanto já está essa corrida. Os gregos, quando alguém morria, queimavam o corpo do moribundo com duas moedas em cima dos olhos fechados: era para pagar o barqueiro, para quando o morto tivesse que fazer a travessia para a terra dos defuntos. O taxímetro é a cota, e o motorista meu barqueiro. Com a diferença que eu não estou morta, apesar de muitas vezes me assemelhar com um desmaio.

-Motorista, eu não morri!
-Nem eu, moça.

Enfim, algo em comum. Segui quieta os minutos restantes, até chegar em casa. O motorista sabia das coisas. Na verdade, acho que não era cego não, ele me enganou. Velho tonto. Enrolei um pouco para descer do carro, quando ele me disse:

– Moça, quando precisar, eu sei ir para qualquer lugar. Dessas rua do mundo, conheço tudo. Tá tudo gravado na palma da mão.

E foi-se. Senti um breve amargo na boca. Deixou comigo um cartão com seu número, para quando eu decidisse ir para algum lugar. Saiu com o carro bambeando pela rua, como se enxergasse por meio do contato da roda com o asfalto, dirigia no tato. Cegos não deviam ter carteira, deviam?
Antes de entrar em casa, esqueci que não havia perguntado como se chegava na Romênia. Ele devia saber, não duvidaria se fosse romeno, me diria animado “Sou romeno!”, e me levaria para lá com saudade de casa. Casa, era um largado no mundo. Eu tenho casa, e não quero voltar. Mas há o número, posso ligar em breve, agora! Quando decidir para onde quero ir, ligo rápido e vou, não volto. É só eu decidir. Só eu decidir.

(não consegui ligar, ainda)

Compartilhe: