O seu corpo favorito precisa ser o seu


Texto: Odhara Caroline

Eu penso muito sobre sentimentos e uma coisa que concluí dia desses é que descaso e ódio estão na mesma trilha da falta de amor. Pro primeiro se transformar no último, basta um escorregão — ou então um olhar-mais-de-perto.  Talvez seja por isso que eu acho tão triste quando a gente deixa de cuidar do nosso próprio corpo.

 

É difícil ouvir falar de qualquer coisa na linha “cuide-se”, num sentido de cuidar do físico, sem querer revirar os olhos, eu sei. Se eu te falar de um hidratante, por exemplo, o que vai vir na sua cabeça é um comercial sexy sem ser vulgar estrelado por uma mulher magra e branca, espalhando o dito creme em suas pernas perfeitas e sem pelos ou poros ou celulites, que dirá uma cicatriz. Não é nisso que eu quero que você pense. Também não estou falando do cuidado propagandeado pela nova onda do marketing #lacrador, em que usar um ativador de cachos é o suprassumo do empoderamento.

 

Mas quando eu aqui, agora, te peço pra cuidar do seu próprio corpo, eu não quero saber de poder político (?) muito menos de sex-appeal (??). Eu estou falando de cuidar do seu corpo com o carinho que a gente cuida de qualquer coisa que gosta de verdade. Não só porque você tá atolada com ele até o fim dos seus dias e etc, mas porque ele é o seu instrumento de atuação no mundo. Tudo o que faz se dá por meio do seu corpo. Ele é a sua ferramenta.

 

Uma coisa sobre transtornos de ansiedades e outras doenças mentais: elas conseguem te deixar tão exausta. Tão exausta que às vezes usar a cabeça pra qualquer coisa mais complexa do que lavar o cabelo é mortificante. Então, nos dias ruins, quando tá tudo despencando (ou eu sinto como se estivesse, não faz muita diferença), o que eu faço é, justamente, lavar o cabelo. Eu deixo ele quietinho numa touca, empapuçado de creme de tratamento, e coloco uma máscara de argila no rosto. A sua pele fica tão fresquinha, mal dá pra acreditar. Aproveito o tempo de espera e faço as unhas. É tão pequeno, tão superficial. Mas as superfícies também precisam ser cuidadas — ainda mais quando essa superfície é o que te envolve.

 

Você não precisa reservar essas práticas pros dias ruins. Cuidar do seu corpo tem que ser todo dia, e isso se resume em três coisas bem simples: beba água, coma em intervalos regulares, e use roupas suficientes. É importante pra mim sempre ter um tempo durante o dia em que eu sinto que estou vivendo pra mim, e não funcionando como mais uma pecinha no sistema, pingando de sono enquanto tento ler um livro no metrô lotado. Eu passo hidratante no meu corpo, sem me preocupar nadinha com a fragrância de rosas que desperta a minha feminilidade ou qualquer besteira que o valha. Eu faço yoga quando tenho tempo. Passeio com a minha cachorra, de preferência de manhã, pra poder sentir um pouco o sol nos meus ombros. Eu lavo o cabelo na água gelada.

Sabe aquela história de que só a gente pode falar mal da nossa família / dos nossos amigos / do nosso time de futebol? É mais ou menos assim. Eu não ligo se você acha o seu nariz feio. Mas cuida do seu nariz pelo mesmo motivo que você defende a sua família / os seus amigos / o seu time de futebol: ele é seu.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco.
Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).