O Reino de Cristal


Chegar à sua casa e sentir o adorável aroma de uma pizza que estava há dois dias em cima do seu projeto de sofá…

Abrir o armário da dispensa na esperança de encontrar qualquer coisa comestível para matar a sua fome, e encontrar somente um pacote aberto de miojo, metade dele consumido e metade por consumir…

Pegar o calendário e entrar em desespero junto com colega de apê depois de perceber que faltam muitos dias pra vocês receberem os ~~~salários~~~ dos seus respectivos subempregos, que só caem a partir do quinto dia útil do próximo mês.

Pois é…

Essa é a vida que eu e Pedrinho escolhemos.

Em pensar que há quatro anos, com os meus dezesseis aninhos eu só pensava em pegar minhas coisas e sair de casa, me tornar independente dos meus pais. Tomar minhas próprias decisões. Chegar em casa na hora que eu quisesse e criar uma rotina que atendesse somente aos meus desejos e não às vontades incompreensíveis dos meus pais.

Mal sabíamos que essa liberdade só teria uma beleza legítima durante os primeiros finais de semana em que voltamos para nosso canto fedendo a cerveja e cigarro à varejo barato. Depois disso percebemos que a vida que pretendíamos levar não seria tão à esbórnia como tínhamos planejado.

A independência pode até ser uma demonstração de força, embora possa ser também a porta para uma solitária responsabilidade adulta.

Ainda mais para alguém, que como eu, saí de casa com o peito cheio de ar, transparecendo orgulho, olhando a expressão séria do meu pai e os olhos marejados da minha mãe, enquanto eu dava a notícia de que estava me mudando. Já o meu colega autônomo ia final de semana sim, final de semana também correndo para a casa dos pais dele comer o arroz e o feijão com gosto de comida caseira da tia Carlota. E é no final de semana que a solidão bate mais forte e eu penso em desistir e voltar para casa com o rabo entre as pernas.

Ter que pensar em tudo o que está relacionado a ter uma casa é algo cansativo e apavorante. E depois que o dono do apartamento nos disse que teríamos quinze dias para juntar nossas coisas e sair daqui, alegando que não estava conseguindo mais suportar os atrasos do aluguel, esse pavor se uniu ao desespero.

Já tinham se passado doze dias depois do aviso e eu ainda não sabia exatamente o que faria para resolver aquela situação, embora a opinião de Pedrinho sobre o assunto já estivesse formada:

   – Tô voltando pra casa semana que vem!!

Era de se esperar, já que o meu amigo mimado nunca levava nada daquilo tão a sério quanto eu. Para ele, era apenas uma colônia de férias, um lugar para ter as suas aventuras até se cansar delas e depois voltar para onde veio.

Para mim, isso aqui foi sempre o início de uma nova vida, um lugar onde eu poderia realizar todos os meus sonhos de garoto e finalmente provar que nesse tempo todo de brigas e restrições paternas, eu estava certo. Eu me emancipara e não voltaria atrás.

É uma sensação de completa fraqueza de espírito saber que você está nas mãos de outra pessoa. E apesar de eu achar que sentia isso quando morava com os meus pais, foi só naquele momento que eu senti que minha vida estava dependendo da boa vontade de alguém. Um homem que eu não estava nem aí para os meus problemas e para as minhas birras. Perto dele, o chato do meu pai era o melhor amigo que alguém poderia ter.

Mas se eu não abaixava a cabeça para o meu pai – um segundo sargento com quase trinta centímetros de altura a mais do que eu -, não seria um senhor com metade do meu tamanho, pequeno e careca, que me colocaria medo.

Resolvi ir ao aparamento ao lado conversar com ele, em uma conversa que eu senti que pela primeira vez seria de homem para homem.

Falei com voz firme, expliquei a situação que estávamos passando e rapidamente entramos num acordo para evitar os atrasos no aluguel. Ele aumentaria o aluguel em cinco por cento do valor e pagaríamos em duas parcelas, sempre de quinze em quinze dias.

Saindo de lá, já entrei pela porta do apartamento pensando em arrumar as  minhas coisas e sair dali, porque enquanto eu apertava a mão do senhorio, lembrei que mesmo com a ajuda do Pedrinho já seria complicado conseguir cumprir o que fora acordado, mas sem ele seria quase impossível.

E o resultado disso tudo é que hoje eu estou escrevendo de uma cama confortável, com o frio do vento gelado do ar-condicionado congelando o quarto, e sentindo cheiro de produto de limpeza saindo do piso.

Ainda teimoso e muito orgulhoso! Fora da casa dos meus pais.

Porque felizmente a tia Carlota deixou que ficasse aqui no quarto de hóspedes até eu conseguir me ajeitar. Seja lá o que isso signifique.

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Sobre David

David é um professor de História que divide a sua vida em estudo, trabalho e diversão, necessariamente nessa ordem (mentira). Curioso e admirador da cultura urbana popular. Como bom carioca, ele gosta de se misturar em todo lugar que vai.