O que será que a vidência tem a nos contar?


Texto: Ariel Carvalho, Clara Browne, Lara Matos & Vick Amorim // Arte: Gabriela Amorim

Todo mundo pelo menos uma vez na vida quer saber como vai ser seu futuro. A ficção científica há tempos se pergunta como seria se tivéssemos uma máquina do tempo ou mesmo tenta dar previsões (muitas vezes bastante catastróficas) sobre como vai ser daqui a sei lá quantos anos. Mas muito antes disso, em épocas que hoje muitos consideram remotas, o pessoal já estava se perguntando ai-mds-mas-e-como-vai-ser-daqui-em-diante.

Há quem tenha a teoria de que foi por causa dessa ansiedade que surgiu a arte da vidência. Há quem tenha a teoria de que quem tinha o dom já existia e só depois que veio a possibilidade de tornar isso uma profissão ou algo do tipo. Nós não sabemos quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, mas sabemos um bocado sobre algumas das formas de se ler o futuro.

A ciência diz que isso é bobagem, mas muita gente por aí acredita que, sim, é possível ver o futuro. Na borra de chá, nos astros, nas runas, há quem diga que o futuro está na palma da nossa mão. Se isso é verdade ou não, vai saber. Mas juntamos aqui algumas das formas de se prever o futuro que achamos mais interessantes.

Astrologia

astrologiaAstrologia é o estudo da influência dos céus sob a Terra. Basicamente, isso significa que o astrólogo vai ver tudo o que está acontecendo no céu e tentar entender como as energias daqueles planetas, nas posições em que estão, influenciam as energias das coisas por aqui. Com isso, é possível entender quais energias te influenciam ao ler o mapa astral do momento de seu nascimento (o que anda muito popular atualmente), assim como é possível calcular as progressões dos planetas para entender um pouco mais o que vai acontecer energicamente no futuro.

Um astrólogo (pelo menos aquele que estuda pra valer) nunca vai te dizer “você vai ganhar na loteria” ou “você vai encontrar um amor”. Em vez disso, ele vai olhar a conjuntura dos planetas e dizer que energias estarão de influenciando mais naquela época, o que torna mais propício uma ou outra coisa acontecerem. Junto a isso, ele vai comparar com seu mapa natal, podendo prever o que vai te afetar mais ou menos durante a época escolhida para análise.

Qualquer um pode ler um mapa astral. Basta saber o que significa cada um dos astros, signos e casas e ter acesso às informações de trânsito dos planetas, que hoje já são calculadas por softwares que você pode baixar.

Numerologia

fond de chiffres - numbers backgroundA numerologia, como o nome já diz, interpreta como os números como símbolos que dizem respeito aos acontecimentos. Os numerologistas afirmam que os números possuem uma vibração inerente a eles, que é capaz, tanto de esclarecer a personalidade de uma pessoa, quanto de dizer fatos que podem acontecer no futuro dela.

Para entender melhor como os números influenciam na personalidade de uma pessoa, dois números básicos definem isso: o número do nascimento (que consiste na soma dos algarismos do dia, mês e ano em que a pessoa nasceu) e o número do nome (nesse caso, cada letra do alfabeto tem um número correspondente, então soma-se os números correspondentes às letras do nome completo da pessoa).

Outros números, como o número do ano pessoal, por exemplo, falam um pouco de como será o ano da pessoa analisada e quais são as posturas que ela deve tomar perante os acontecimentos. Para calcular o número do ano pessoal, é preciso somar os algarismos do dia e mês do aniversário da pessoa com o ano vigente.

Borra de café

 

068A cafeomancia, mais conhecida como a leitura da borra de café, consiste basicamente na leitura dos desenhos que se formam pela borra de café deixada na xícara, quando este é preparado à moda árabe. Para realizar esse tipo de leitura é necessário que a xícara usada tenha a borda maior que o fundo, para que as laterais não sejam retas e que a leitura seja facilitada.

Como essa não é uma ciência exata, é preciso usar um pouco de imaginação e ter uma sensibilidade aguçada para perceber quais são os desenhos formados. Ao saber o significado de cada desenho, é possível inferir um pouco do que o futuro lhe aguarda, mas esse não é o único fator que influencia no destino.

A posição em que a borra se encontra na xícara (se ela está mais perto da asa ou mais no fundo da xícara, por exemplo) e o tamanho do desenho formado, também têm os seus significados, e quando associados ao desenho, permitem que a pessoa tenha uma ideia melhor do que está para acontecer.

Bola de cristal

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Um dos métodos de vidência que está mais presente no imaginário das pessoas é a leitura da bola de cristal (ou, no seu nome fancy, cristalomancia), afinal, quando você pensa em “previsão do futuro”, a imagem de uma mulher de turbante, saiões coloridos e uma bola de cristal vem quase que automaticamente na sua cabeça.

Diferentemente de outras técnicas de vidência, que são baseadas numa leitura um pouco mais exata (ou melhor, menos subjetiva) das coisas, a bola de cristal depende muito da intuição, por isso, tende a ser uma das técnicas mais desacreditadas.

Entre os fatores que carregam significado na hora da leitura de uma bola de cristal estão as nuvens (sendo que a cor de cada nuvem quer dizer uma coisa); as manchas (que são analisadas de acordo com os seus tamanhos); as imagens que se formam (da mesma forma que na borra de café, cada imagem tem um significado); e o posicionamento desses fatores (que indicam o tempo que levará para que certo acontecimento se realize e o que pode influenciar nesse acontecimento).

Tarô

O Louco, a primeira/última carta, é considerada a carta da inocência, da imprudência

Não existe um consenso se o tarô (ou tarot) é uma forma de vidência. Ele começou sendo apenas um jogo de cartas, de origem incerta, mas creditado aos egípcios. O tarot pode ser utilizado de diversas formas, mas é conhecido por seu uso adivinhatório. Na maior parte das vezes, ele é mais usado como uma forma de se compreender o momento pelo qual se passa do que uma forma de vidência.

O tarô é composto por 78 cartas. Dessas, 22 compõem a Arcana Maior, e 56 são a Arcana Menor. A Arcana Maior é formada por cartas, numeradas de 0 a 21 ou de 1 a 22. A razão para isso é que a primeira carta, O Louco, também pode ser considerada a última carta, dependendo do baralho. Essas cartas dão conta da adivinhação sozinhas, caso não se tenha a Arcana Menor em mãos. 

A Arcana Menor se relaciona com o nosso baralho tradicional, dividida em quatro naipes, e com as mesmas cartas. No entanto, cada naipe e carta têm um significado diferente. Além disso, as cartas da Corte (Rei, Rainha, Cavaleiro e Valete) são escolhidas para representar a pessoa que consulta o tarot (chamada de Querente).

As cartas de tarô podem ser dispostas de diversas formas, porém a forma de cruz é a mais fácil e indicada. O que torna a leitura de tarô única é a posição das cartas na cruz e se elas estão de cabeça para baixo ou não, bem como a sua interação com outras cartas, que estão antes ou depois dela.

Para iniciantes na leitura do tarot, recomenda-se o uso do tarô de Marselha, mas a escolha do baralho que será usado deverá ser intuitiva, por identificação com as imagens desenhadas ou por questões energéticas. Ele deve sempre ser guardado envolvido por seda e em local com a energia do dono do baralho.

Búzios 

Essa modalidade de divinação exige bênção dos orixás e muita compreensão sobre a tarefa, não podendo ser realizada por qualquer pessoa, exceto por um pai ou mãe-de-santo com autorização dos deuses para ler o futuro.

Por isso, apenas a título de curiosidade vão ser expostos os rudimentos da leitura dos búzios, que é feita basicamente pela contagem de quantas conchas jazem abertas (com a parte do orifício da concha para cima) ou fechadas após o jogo*, cada combinação numérica tendo uma mensagem dos deuses para o babalorixá. Por exemplo, num jogo de 16 búzios, se saem 14 fechados e 2 abertos, essa combinação tem uma leitura específica, a depender dos búzios que restaram nessa posição (eles não são iguais, logo abaixo há uma distinção parcial dos búzios).

O jogo usualmente se faz com 16 búzios (ou jogo da nação Ketô, como também é conhecido, número de contas que corresponde a cada orixá/invocação** chamado do oráculo), mas há os que joguem com 17, 21 ou 26, depende muito de jogo para jogo, até porque as devoções e chamamentos dos deuses podem ser muito variadas. Nem todas as entidades invocadas para as leituras são deuses, alguns se assemelhando bastante à figura dos semideuses gregos, como Hércules e Perseu.

Cada concha, ligeiramente diferente uma da outra, tem um nome correspondente a um ou mais deuses, constando abaixo a configuração geral de búzios de um jogo de 16 peças (nação Ketô):

Okaran (Exú): Ponto do Orixá mensageiro que geralmente vai indicar o nível de dificuldade da leitura. Exu ainda hoje é erroneamente interpretado como “demônio” pelos católicos. Na verdade o orixá mensageiro trafega com facilidade por caminhos deste e de outros mundos, captando as mensagens de outros deuses, e como estas podem ser boas ou ruins, surgiu algum temor reverencial em relação a sua invocação que mais tarde foi subvertido pela tradição católica, que tentava sufocar a forte presença de religiões afrobrasileiras no país. Mas Exú apenas carrega as mensagens, não as forja.

Ejioko (Ogum, Ibeji): Concha do orixá guerreiro e engenhoso, equiparado a São Jorge sincrético com o catolicismo, nos mitos, Ogum tem estreita relação com Exu (que é seu irmão), o orixá mensageiro; já Ibeji é o orixá criança, protetor de todos os pequenos e também dos gêmeos, que têm características mágicas a si atribuídas em muitas culturas africanas, queno catolicismo vemos como São Cosme e Damião. Essa leitura está relacionada a impulsos e acidentes.

Etaogunda (Obaluayiê, Ogun): Conta de Obaluae (sincretizado com São Roque, o Orixá da medicina e das curas) e Ogun*** (orixá de invocação guerreira e temperamento violento, regente de batalhas e enfrentamentos), pode indicar a conjuntura de longas enfermidades

Iorosun (Yemanjá, Oya): conta que representa as forças das águas como caminhos femininos e intuitivos, tanto da Rainha do mar, orixá que mais caiu nas graças dos católicos, quanto de Oyá, invocação de Iansã (sincrética como santa Bárbara, é IANSÃ Santa Bárbara, não Yemanjá como muitas vezes se representa) muito ligada à sensualidade feminina

Oxê (Oxum): Orixá do amor (curiosidade: no show da Rihanna no Rock in Rio de 2015, ela usou uma fantasia que era representação de Oxum), responsável pelos caminhos e mensagens românticas

Obara (Oxossi, Logunedé e Xangô): Essa conta relata necessidade de fazer invenções ou uso de inteligência prática por parte da pessoa. Logunedé tem uma história semelhante à de Perséfone na mitologia grega, passando seis meses do ano caçando com Oxóssi e os outros seis pescando com Oxum; alguns o percebem como uma invocação de Ibeji, em geral, sugere necessidade de adaptação

Odí (Omolu, Oxóssi e Oxalá): Búzio relacionado também à busca de cura e redenção

Egionilo (Oxaguian): invocação jovem de Oxalá, representando a energia primordial de criação do mundo

Ossá (Oyá, Yewa e Yemanjá): búzio diretamente relacionado a invocações femininas ou correspondentes de feminilidade e sensualidade

Ofum (Oxalufan): conta correspondente o orixá da paz e da paciência, que costuma aparecer em situações nas quais só estas virtudes terão poder efetivo

Owarim (Oyá, Ogum e Exu): esta conta é relacionada a questões de família, perdão e conciliação com pessoas queridas em situações difíceis

Egilexebora (Xangô, Oba, Iroko): búzio relacionado com enfrentamentos e dificuldades no casamento, por encerrar os cônjuges Xangô e Obá; Iroko é um orixá de culto raro e antigo possuindo pouquíssimos filhos, que simboliza as coisas perenes e longevas

Egioligibam (Nanã): conta da grande matriarca que todos os orixás, que carrega sabedoria ancestral de questões espirituais profundas

Iká (Ossain e Oxumare): Ossain é o orixá que carrega a força da vida primordial, e que por isso está presente em todos os rituais, sendo, inclusive, muitas orações direcionadas a ele antes do jogo dos búzios; Oxumarê (sincretizado como São Bartolomeu) é o orixá do arco-íris, que liga o céu à terra, indica mudança e surpresas no caminho

Obeogundá (Ogun, Ewá e Obá) : a aparição desse búzio chama a atenção para necessidade de conciliação de naturezas: a intrépida e violenta de Ogun com a virginal e intuitiva de Ewá e Oobá

Alafia: conta de orixalá (todos os orixás, que invocam as demais entidades do panteão ou todas em conjunto, usualmente aberta em leituras mais complexas)

O jogo sobre a peneira (contentor) já foi praticamente abolido dos rituais, sendo mais usual um fio enrolado de contas (condutor), as guias dos orixás, seguido de objetos como uma sineta, copos e água e velas acesas, bem como pequenas oferendas sob uma toalha de pano branco virgem.

*algumas religiões de matriz africana invertem esse conceito, considerado o búzio “aberto” aquele com a parte totalmente lisa para cima

**orixás têm invocações diferentes, permanecendo, entretanto, os mesmos. Por exemplo, Aganju é o deus dos vulcões, mas continua sendo Xangô; a pomba-gira, e.g., nada mais é que uma das invocações das formas femininas do orixá-mensageiro, Exu. Na mitologia grega também há esse tipo de aproximação por invocações: Hélio, deus sol, é uma invocação de Apolo, originalmente cultuado tanto por ser deus da beleza como o do sol.

“Diz quantos desastres têm na minha mão?” A quiromancia

A leitura de mãos é aceita por diversas culturas como forma de divinação do futuro, sendo geralmente associada à figura das ciganas. Na leitura de mãos, não apenas as linhas são levadas em conta, como também acúmulos de pele, dobras e tamanho da palma e dos dedos. As possibilidades de combinação de formatos das mãos são inúmeras, por isso essa descrição é apenas parcial. Eu mesma reúno as características de dois tipos principais de mãos, além de ter linhas em conjunções que tornam minha leitura muito particular.

Os formatos de mãos contam bastante para uma leitura. Mãos quadradas com dedos curtos e de formatos retangulares indicam pessoas persistentes e dadas ao esforço no trabalho. Já mãos com dedos longos e de palmas estreitas indicam pessoas sonhadoras e um pouco distantes da realidade. Por sua vez, pessoas com mãos de dedos tortos e longos, com palmas retangulares são muitíssimo curiosas, possuindo como ponto desfavorável muita dificuldade para lidar com pequenas irritações cotidianas. Uma mão intermediária entre o redondo e o retangular, com dedos finos, indica facilidade com trabalhos manuais e muita inteligência para fins práticos. Mãos de dedos e palmas totalmente quadradas indicam pessoas persistentes e constantes, mas muito obstinadas e tendentes a desenvolver obsessões. As possibilidades de combinação de formatos das mãos são inúmeras, por isso essa descrição é apenas parcial.

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Arte: Gabriela Amorim

Ambas as mãos, conhecidas como dominante e secundária, podem ser lidas, havendo diferenças quanto às visões obtidas: a mão dominante (com a qual se escreve e realiza-se boa parte das ações diárias), é conhecida como a mão da ação, responsável pelo modo de atuação das pessoas na vida. A mão secundária, por outro lado, é conhecida por ser a “mão do destino”, encerrando leituras de questões sobre saúde e personalidade intrínsecas à família e ao nascimento.

Nos mapas quiromânticos é dada importância primordial a três linhas principais: a linha da vida, da cabeça e do coração. Na minha descrição, falarei mais sobre elas, porque são as de ocorrência geral na maior parte das pessoas.

Ao contrário do que se possa pensar, a linha da vida prevê a vitalidade e saúde da pessoa analisada, e não seu tempo de vida (a questão relativa a acidentes, fatalidades e doenças também está expressa nessa linha, mas demonstra-se com desvios, sulcos e correntes). Ligações com linhas secundárias, como marte, mercúrio e vênus, respectivamente, expõem maior ou menor a propensões à violência, discussões ou persuasão.

A linha da cabeça, que pode ou não estar unida à linha da vida (quanto não está e inicia-se com nós ou correntes, essa leitura indica propensão a transtornos mentais) está ligada ao modo de expressão da inteligência, se mais pragmática ou criativa (em poucas mãos vi o equilíbrio das duas, que se faz por uma linha da cabeça quase reta), e o alinhamento com linhas secundárias como a de Apolo (dedo anelar) ou Júpiter (indicador), respectivamente indicam a aptidão para a prosperidade por meio do trabalho aliado à boa estrela.

A linha do coração relaciona-se com a afetividade em geral, e não apenas com o amor. Mesmo porque nossas mãos possuem, na parte inferior direita da palma, local específico para as leituras amorosas, bem como a extremidade superior direita de nossa palma costuma ter microlinhas chamadas de “linhas dos amores”. A curvatura da linha, se acentuada para cima, denota dificuldade em expressar sentimentos, enquanto alguém com linha reta é o romantismo em pessoa. A proximidade com a linha da cabeça indica muita racionalidade e constância na vida amorosa.

A linha do destino, que sai geralmente do dedo médio, pode ou não estar presente nas mãos. Estando bem marcada, significa que a pessoa analisada tem o caráter muito forte e geralmente é firme em suas convicções, além de reagir com muita honestidade a todas as questões. No entanto, tende a ser teimosa e pouco adaptável a mudanças. A ausência, quebra ou fraqueza dessa linha indica uma pessoa mais adaptável, mas dependendo a posição em relação à linha do coração, também revela se o indivíduo analisado é ou não uma pessoa confiável.

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