O que podemos aprender com personagens que não fogem


Faz um tempo que uma componente de um grupo de escritores do qual faço parte quis saber a opinião dos outros sobre personagens femininas descritas como “fortes” (que, de acordo com os livros dos quais fazem parte, subvertem conceitos de gênero para vendê-las com esta característica). O fato de elas serem “fortes” significa, na maioria desses livros, que são determinadas e destemidas. Elas ficam e enfrentam o que for.

Para além das protagonistas literárias, o ficar ao invés do correr também é uma marca. Personagens que enfrentam o fazem por muitos motivos, dependendo de seus arcos, passados e conflitos. Aqui, eu listei alguns que preferem não estar no padrão.

 

A vice-almirante Holdo [Star Wars: O último Jedi] tem grande visibilidade dentro de uma equipe bastante qualificada, comandada pela General Leia, não somente por seu cabelo, mas por seu cargo. É verdade que ela é uma personagem ambígua (algo que, na verdade, não tem uma real explicação dentro da trama), por parecer não confiar em ninguém e por agir por conta própria – coisas que lhe renderam a acusação de traidora. Por outro lado, Holdo sabe que abrir o jogo pode ser prejudicial à missão. Assim, ao invés de abandonar seu posto, deixando Poe livre para executar suas ideias, a vice-almirante é firme ao deixar claro que a nave ainda é responsabilidade dela.

 

Alex Danvers [Supergirl] é alguém que não foge, desde o princípio, Além de trabalhar em uma organização bem diferente do usual, onde arrisca sua vida para manter a irmã viva, além de toda a população longe do mal proveniente do universo, a personagem tem um arco que caminha para conflitos pessoais. Às vezes parece que ela está fugindo, ou se esquivando – porque, afinal, o seriado, apesar de falar sobre uma super-heroína, também fala sobre os humanos -, mas ela sabe se posicionar. Alex poderia ter fugido pra valer quando percebeu que estava apaixonada por outra mulher, mas como ela mesma coloca para outro personagem: ninguém melhora fugindo.

 

 

Hellboy sempre me conquistou pelo seu fator anti-herói. Seu aspecto nem um pouco cativante poderia facilmente usado para caracterizá-lo como um todo. Felizmente, por receber a criação muito humana do professor Bruttenholm, “Hellboy” acaba parecendo um apelido muito mal colocado. Seria, talvez, muito fácil para ele aceitar o fato real de que deveria cumprir sua função de demônio, mas o discurso de que é de sua natureza agir como tal é aplacado por ensinamentos sobre cuidado, amor e humanidade. O fato de ele fugir das trevas ao combatê-la o transforma em um herói diferente, exemplificando uma diversidade pouco comum nesse universo.

 

Lionel Higgins [Cara gente branca] poderia ser facilmente aquele personagem nerd-e-introvertido estereotipado em muitas produções audiovisuais, mas, ao mesmo tempo que esse arco funciona bem, também se afasta do clichê. Apesar de a maior vantagem de Lionel estar no seriado seja a visibilidade a homossexuais negros, a ramificação de sua história com o jornalismo foi a que mais me marcou. Em muitas cenas, ele não guardou sua opinião sobre o que gostaria de escrever e sobre suas publicações. É verdade que, muitas vezes, somos coagidos a seguir regras de outras pessoas, mas para mim foi muito importante ver que Lionel, apesar de seu jeito pouco combativo, soube assumir uma posição.

 

Acho que muito já se falou da Mia Dolan [La La Land], especialmente sobre sua escolha de seguir seus sonhos. Foi dito muitas vezes da importância de batalhar pelo que se quer e o que me fez lembrar dessa personagem não foi simplesmente seu sonho de cantar, mas o de ser capaz de saber que suas escolhas têm uma consequência. Talvez, no mundo real, onde há um pensamento generalista de que mulheres desejam o amor romântico acima de tudo, Mia tivesse decidido continuar com o debilitado romance com Sebastian. E é verdade que o público esperava esse desfecho, porque como falar de amor se esse amor não é o esperado? Mas ainda bem que a Mia não escolheu o que esperavam dela.

 

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Sobre Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.