O que nossa tradição de mitos e lendas ensinou


Durante meu intercâmbio na França, no início deste ano, tive duas semanas de férias. Peguei esses dias para jogar uma mochila nas costas – e só isso mesmo, porque uma das companhias aéreas cobraria caso aparecesse com bagagens a mais – e viajar um pouquinho, com um roteiro improvisado e sem nenhuma companhia. Escolhi Bruxelas, Berlin e Amsterdã. Durante os sete dias em Berlin, parar em um Pub para tomar meio litro de cerveja, por vezes sem me contentar com único copo, virou rotina. Conversar com quem se sentasse por perto, uma consequência.

Houve um turco-alemão, por exemplo, muito impressionado com a minha condição: mulher, menos de 25 anos, viajando sozinha. O cara era educado, mas se fosse desbocado provavelmente teria atribuído a mim o título de doida varrida. Ele estava aterrorizado pois, em sua cabecinha oca, viajar em amigos nunca foi uma possibilidade. Juro. Para exemplificar o drama ele citou o fato de ter ido ao cinema sozinho pela primeira vez há pouco mais de um ano.

Impressionada fiquei ao ver um homem tão dependente dos outros. Enquanto ele se indignava pensei em quantas coisas deixaria de conhecer e aproveitar caso tivesse desistido por falta de companhia. Principalmente aquela viagem. Na mesma cidade e no mesmo pub conversei com um chileno. Advinhem o que ele fazia? Mochilão pela Europa. Sozinho.

Não é velho o mito de que europeu tem mente fechada. Longe de mim generalizar – ainda posso dizer que quebrei muitos desses estereótipos enquanto estive fora. Mas sempre tive uma pulga atrás da orelha, em especial depois de conhecer outros latinos e perceber que o modo de pensar era semelhante.

Se repararmos bem, a teoria faz sentido – temos uma cultura muito forte de mitos e lendas. E isso vai desde o mais tradicional, como as lendas do Curupira, Mula-sem-cabeça e tudo mais (dia 31/10, inclusive, é o Dia do Saci), até as clássicas superstições. Por acaso vivemos em um país onde as pessoas pertencem às mais variadas religiões. Sendo você ateu ou escolhendo uma religião específica, o contato com diferentes credos e culturas é inevitável. Isso nos influencia quase por osmose. Claro, superstições existem em todo país, mas a nossa forma de lidar com isso está conectada às lendas tradicionais. Essa relação tão aberta e receptiva molda uma personalidade que tende a agregar.

Não é de se estranhar, então, que sejamos tão receptivos quando um estrangeiro coloca os pés por aqui. Basta uma rápida comparação a partir do cenário de intercâmbios: todo mundo mundo tem dificuldades ao chegar em um país novo porque as pessoas são mais fechadas. Não adianta dizer que com você foi diferente. Claro, amizades são estabelecidas com o tempo, mas é bem difícil surgir uma identificação imediata. Agora me digam: vocês já viram um gringo não ser recebido da melhor forma possível no Brasil? Isso explica a minha revolta toda vez que iniciam aqueles longos discursos sobre como a Europa é incrível em detrimento ao Brasil. Parece existir um gosto misterioso em destruir nosso país de todas as formas possíveis.

Passar uma temporada fora foi essencial para ver o meu país com outros olhos e valorizá-lo de modo decente; e por essas e outras insisto tanto na necessidade de se ater aos aspectos positivos. A lição não é ignorar e/ou fingir que não enxergamos as coisas ruins, mas aprender a gostar do que nos é tão caro.

 

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.