O que é um mundo onde não há quase ninguém?


Texto: Fernanda Menegotto // Arte: Marília Pagotto

Muitos anos atrás, voltando de uma viagem de carro com a minha família, entramos numa cidade pequena e paramos para almoçar num shopping. Lembro desse dia porque, apesar de termos conseguido um lugar para comer mesmo que fosse tarde para os padrões das cidades pequenas, aquele shopping me deu uma estranha sensação de vazio. A maior parte das lojas e dos restaurantes da praça de alimentação tinha deixado de funcionar, mas ainda conservavam as fachadas, os nomes que um dia tiveram.

Anos depois, num dia meio melancólico e cinzento, caí aleatoriamente num artigo sobre o fim da cultura dos shopping centers nos Estados Unidos (que narra mais ou menos a Ascensão e Queda do Shopping Center). Descobri que existe um grupo de pessoas que têm como hobby visitar shoppings abandonados e compartilhar fotografias desses lugares na internet. Foi mais ou menos na mesma época que também descobri o Nara Dreamland, um parque de diversões japonês abandonado há uma década, que fotógrafos amadores e profissionais adoram visitar, trespassando seus muros para fotografar todo aquele vazio.

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Shopping abandonado no estado de Virginia. (Will Fisher, 2011)

Fotografias de lugares abandonados guardam um inusitado fascínio. É estranho e melancólico e meio angustiante observar aqueles lugares, que um dia estiveram tomados por pessoas, agora vazios, definhando aos poucos. A natureza cresce através do concreto e esconde as estruturas das construções, tomando de volta os espaços que um dia nós ocupamos. Não é esquisito pensar que um dia todas as vilas olímpicas abandonadas foram palco de gritos emocionados das torcidas, das lágrimas dos atletas, das mãos levadas ao coração e daquela alegria imensa de cantar o hino do seu país vendo no peito um ouro, uma prata, um bronze?

Como naquele dia em que procurava um lugar para almoçar num shopping center que parecia não ter dado certo, essas fotografias me dão uma estranha sensação de vazio que eu não sei muito bem como explicar. Talvez ela venha de testemunhar a permanência das estruturas que criamos para nós mesmos quando somos criaturas tão inconstantes – um dia frequentamos um parque criado para emular a Disney num país até então distante dela, no outro vemos a chegada da própria Disney e não precisamos mais de lá. Talvez surja quando pensamos que aquele farol em desuso na praia um dia guiou o caminho de dezenas, centenas de barcos que passavam por aquele pedacinho do oceano todos os dias, ou que o posto de gasolina abandonado na estrada um dia evitou que longas viagens de carro fossem interrompidas. Ou talvez ela esteja ligada a enxergar os possíveis sonhos abortados, os pequenos negócios que não conseguiriam prosperar, ou que não conseguiram acompanhar o ritmo da mudança constante nas necessidades do mundo.

Tem um ensaio da Joan Didion, At the Dam, em que ela discute sua fascinação pela Represa Hoover, no estado americano de Nevada, e o modo como frequentemente, em suas conversas, acabava falando sobre a construção dela. Ao longo do ensaio, Didion apresenta diversas razões que poderiam explicar seu fascínio, mas conclui, no final, que está no mapa estelar que existe no local. O guia de sua visita à represa explicou que aquele mapa deixa registrado para toda a eternidade, para qualquer um que saiba ler as estrelas, a data em que a represa foi inaugurada – “para quando todos nós tivéssemos partido e a represa tivesse ficado”. Ao que Didion conclui:

É claro que essa era a imagem que eu sempre vira, vira sem realmente perceber o que via, um dínamo finalmente livre do homem, enfim esplêndido em seu isolamento absoluto, transmitindo energia e liberando água para um mundo onde não há ninguém.

A imagem do mapa estelar não se apagou mais da minha memória e foi nela que eu me peguei pensando quando lia Estação Onze, em que Emily St. John Mandel nos apresenta ao nosso próprio mundo, exatamente como o conhecemos – só para devastá-lo com uma gripe que acaba sendo letal. Estima-se que a chamada gripe da Geórgia tenha dizimado noventa e nove por cento da população do planeta.

O mapa estelar na Represa Hoover. (Reclamation Photograph Database, 1935)

O mapa estelar na Represa Hoover. (Reclamation Photograph Database, 1935)

Estação Onze nos apresenta ao mundo antes, durante e depois do surto de gripe. O mundo de depois é um cenário bastante similar aos mundos pós-apocalípticos que estiveram tão na moda nos últimos anos – a grande diferença, para mim, é que nele vemos a Terra se transformando naquele cenário. Não são personagens que nasceram e foram criados naquele mundo, que só conhecem aquilo, mas personagens que viveram na nossa sociedade da maneira que nós vivemos, e precisaram aprender a lidar com a perda dela. Aos poucos, deixam de existir os meios de comunicação, os meios de transporte, a energia, o combustível – com noventa e nove por cento da população morta, como tudo poderia continuar funcionando? Com noventa e nove por cento da população morta, é quase aquele mundo de Didion, onde não há ninguém. Só que a ênfase está justamente no quase.

A narrativa me deixou quase sempre com aquela estranha sensação de vazio, aquela do shopping, do posto, do farol. Para Joan Didion, o dínamo está finalmente livre do homem, mas interpretamos essa imagem de jeitos completamente diferentes. Para mim, ela também gera uma estranha fascinação, só que ela vem acompanhada de pura e simples angústia. Porque um dínamo transmitindo energia e liberando água num mundo onde não há ninguém não tem razão de existir – é só uma prova de nossos esforços, de que um dia estivemos aqui e fizemos o deserto florescer, como diz um monumento instalado na Represa Hoover em homenagem aos 96 operários que morreram durante sua construção.

Essa mistura de fascinação e angústia esteve bem presente durante a leitura de Estação Onze. Ele nos apresenta a um mundo lúgubre, onde quem restou não têm certeza de como prosseguir, precisa reaprender a viver sem tudo aquilo que tomava como certo. Um grupo sobrevive em um aeroporto (numa imagem incrível do estado em que se encontram, entre uma coisa e outra), estabelecendo lá uma espécie de comunidade, uma rede de solidariedade. Mas a figura de um avião pousado ao longe, em quarentena e impedido de abrir suas portas, paira sobre eles. E se o mundo é sombrio, é preciso encontrar um motivo para continuar, que aparece em outra imagem poderosa, a da Sinfonia Itinerante. Em meio a um mundo destruído, ela sai pela estrada, representando Shakespeare e apresentando música clássica nas pequenas aglomerações de sobreviventes. A Sinfonia é a resistência, a vontade de continuar, de reconstruir, é o dizer que nós ainda somos humanos.

A estranha sensação de vazio ficou comigo durante a maior parte da narrativa, principalmente ao pensar em todos aqueles lugares abandonados, na personagem que sai para explorar e descreve o mundo lá fora como um silêncio, no personagem que aparece dizendo que pensou que era o único. É um cenário pós-apocalíptico sem zumbis dos quais se esconder, sem um ditador tirano ao qual combater – é um cenário do… vazio. Só resta àquelas pessoas superar o trauma e buscar a reconstrução daquilo que um dia viram acontecer.

“Se o inferno são os outros, o que é um mundo não há quase ninguém?”, uma das personagens se pergunta enquanto caminha no vazio. Para ela, pensar que a humanidade talvez logo fosse acabar é mais sereno do que triste, e é verdade que o planeta viu surgirem e desaparecerem muitas espécies. A natureza simplesmente retoma seu espaço. Só que a espécie nunca se foi realmente e, para aquele personagem sem nome que durante muito tempo imaginou ser o único de nós que sobrou, tenho certeza de que o inferno era o oposto dos outros. O inferno era o abandono.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.