O que cabe na memória e o que cabe no presente


Quando fiz o psicotécnico do Detran, a psicóloga que me entrevistou disse que minha memória era acima do normal. Eu dei risada, porque já sabia.

Vivo escutando da minha família que se bobear eu lembro até do que aconteceu dentro do me útero. Curiosamente, eu ter memória demais se tornou um grande trunfo: é raro alguém discutir a fundo comigo sobre algo que aconteceu há muito tempo. Eles sabem que são grandes as chances da minha versão ser a que mais se aproxima da realidade, afinal, eu lembro melhor, ao menos segundo constam os autos.

Li uma vez, numa matéria da Super Interessante que nunca me saiu da cabeça, que o ser humano vive de passado. Sim, de passado, porque, ainda segundo a matéria, o presente dura 3 segundos e o futuro não existe. Eles dissecaram o tema, falando inclusive que se você não guardasse bem vivas na cabeça as lembranças de uma viagem, seria como se você simplesmente não tivesse viajado. É assim que o cérebro registra a vida. Se eu já tinha pavor absoluto de ter Alzheimer um dia (bate na madeira 250 vezes), o pavor se triplicou. Imagina o desespero de chegar ao fim da vida e ela me parecer um grande nada?

Memória. O que é a memória? É aquilo que faz com que a gente fique feliz ao lembrar de coisas boas, ou triste, por sentir a falta delas. É ainda aquilo que martela as coisas não tão boas na sua cabeça, aquilo que você daria tudo para esquecer. Na minha cabeça, as gafes são eternas. Bem como uma piada bobinha que meu primo fez uma vez – e que ninguém mais deve lembrar, mas eu lembro.

Coisas das quais não costumo conseguir me lembrar tão bem quanto deveria: enredos de livros. Já passei por questionamentos e paradoxos terríveis na minha cabeça. “De que adianta ler mais de 60 livros no ano se você chega ao fim deles com a lembrança clara e perfeita do enredo de uns 5, no máximo?”. Esqueço sim. Já cheguei ao cúmulo de levar um susto, no fim do ano, ao descobrir que tinha lido um determinado livro. Não lembro nem se ele é de crônicas, contos ou narrativa clássica. Vale mesmo assim?

Decidi que vale. Pra esquentar menos a minha cabeça, sabe? Afinal de contas, eu não lembro do que eu almocei em todos os dias da semana passada, mas certamente matou a minha fome e foi bem proveitoso enquanto eu comia. Não pode ser da mesma maneira com os livros? Tem aqueles que marcam mais, que ficam na cabeça, seja por que amamos ou porque desgostamos. E tem aqueles que passam em branco, que não são lembrados, mas que lá no momento onde eram lidos supriu as necessidades do momento, me entregou alguma história, algum personagem, me fez pensar a respeito.

Talvez o presente seja sim, tão importante quanto a memória. Tem momentos/situações/refeições/livros/piadas que acontecem para serem lembrados. Tem outros que não, que só acontecem para serem aproveitados no momento mesmo e acabou. A verdade é que, no fim das contas, vivemos de passado, presente e futuro, os três juntinhos. Cada um deles há de ter a sua função.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.