O primeiro livro


Nos meus tempos de livreira de seção infantil, lembro de uma cena envolvendo mãe, filho e um livrinho. Os dois sentados nos pufes no meio do infantil, o menino lendo em voz alta e a mãe do lado. Ele ia lendo bem devagar, empacando em algumas sílabas, e a mãe, meio ansiosa (não sei se emocionada por ver o filho lendo ou por pressa), acabava completando algumas palavras por ele. Não demorou nem três páginas pro menino perder a paciência e soltar um sonoro “NÃO, MÃE, É EU!”. A mãe respeitou o pedido e o menino, no ritmo dele, do jeito dele, sem pressa alguma, terminou a leitura. A mulher então deixou o menino no pufe com mais alguns livros e foi pro setor juvenil (que era logo em frente) encontrar quem deduzi ser a filha mais velha. O menino continuou lendo, dessa vez pra ele mesmo, em voz alta. De vez em quando a mãe enfiava a cabeça dentro do setor, pra ver como as coisas estavam, e o menino lá, lendo. Sozinho. Bem de boa.

Fiquei pensando no que será que passou pela cabeça dessa mãe quando percebeu que o filho não precisava mais dela pra quando quisesse ler alguma coisa, mas acho que o mais interessante é pensar no que se passou pela cabeça do filho quando percebeu que podia ler sozinho, sem ajuda, a hora que quisesse, e ainda em seu próprio tempo.

Eu não lembro qual foi o primeiro livro que li sozinha. Lembro mais ou menos qual foi a época, e envolveu os gibis da Turma da Mônica. Mas lembro de quando não precisei mais da professora pra acompanhar os alunos da sala na ida e volta da biblioteca do colégio. Eu podia ir a hora que eu quisesse! Desde que fosse durante o intervalo das aulas, mas isso não era importante. O importante é que eu decidia quando ia e quanto tempo minha visita duraria.

Lembro também de quando não precisei mais que a bibliotecária olhasse antes os livros que eu escolhia pra levar pra casa e dissesse se aquele podia ou não. Não só eu fazia minhas próprias escolhas, como elas eram consideradas confiáveis! Às vezes eu pegava um ou outro livro considerado “avançado” pra minha idade pra ver o que acontecia, testar os limites daquela liberdade, mas nunca tive nenhum deles barrado. A bibliotecária às vezes me perguntava coisas sobre os livros, e eu sentia uma responsabilidade enorme naquilo, já que ela queria a minha opinião. Demorou um tempão pra perceber que na verdade ela queria garantir que eu realmente estava entendendo tudo o que estava lendo, mas na hora em que a pergunta vinha, eu sempre sabia o que responder, e ela sempre parecia aprovar minhas respostas.

Outro sentimento parecido veio só muitos anos depois, quando parei de me importar com o que as pessoas pensavam dos livros que eu lia e quando parei de achar que precisava ler alguma coisa por ser o livro que todo mundo estava falando ou o livro que todo mundo achava que todo mundo devia ler. E quando soltei um sonoro “não gostei” pra um livro que todo mundo gostava e parecia que eu tinha tirado um peso das costas por não ser obrigada a gostar da mesma coisa que todo mundo aprova. Ou ver que tá tudo bem em gostar de uma coisa que ninguém considera boa.

Temos o costume de pensar em independência pra coisas grandes. Sair de casa, se sustentar sozinho, comprar o próprio carro. O foco fica tanto nisso que as pequenas coisas acabam passando batido, ou levam muito tempo pra serem percebidas. O tchau que você deu para aquele relacionamento que já não funcionava mais. Aquele basta que você deu naquela amizade que te fazia mal. Aquela vez que você foi ao cinema sozinha pela primeira vez. Aquele remédio controlado que você não precisava mais tomar. Ser uma pessoa independente não é um momento específico que aparece bem mais tarde na sua vida. É um processo bem longo, cheio de vários momentos que te ajudam a moldar o tipo de pessoa que você é ou quer ser. Pode ser morar sozinho. Pode ser comprar um carro.

Ou pode ser aquele livro que você leu sozinho pela primeira vez.

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  • Sabrina Coutinho

    Amei muito esse texto! Eu só comecei a pensar sobre os primeiros livros que li e quais foram mais marcantes quando tive que fazer isso pra uma matéria da faculdade. É tão gostoso pensar nessas pequenas-grandes independências que vamos conquistando, ao invés de sonhar com uma super-independência idealizada de sucesso, que não surge do nada.