O prazer que nos move: a motivação em “Insecure”


Texto e arte: Bianca Albino

Issa passa o dia sendo a única funcionária negra de uma ONG destinada a ajudar crianças de escolas em áreas desprivilegiadas de Los Angeles, e diariamente chega em casa para encontrar o namorado da mesma forma que o deixou – com roupinha de casa e desempregado há cinco anos.

No meio da monotonia da rotina vem o aniversário de vinte e nove anos, que a amiga Molly define como um momento de guinada e mudanças, porque afinal trinta é uma idade séria, não há mais tempo a perder. Issa usa essa motivação para encontrar – acidentalmente de propósito – um ex numa festa e iniciar um atrito no seu longo relacionamento, enquanto Molly espera a aprovação num aplicativo de encontros exclusivo para pessoas ricas e bem sucedidas como ela, usando os aplicativos comuns para encontrar homens só bons de cama mesmo.

A procura de Issa por uma ideia de prazer abstrato influencia concretamente seu comportamento com o namorado Lawrence, que agora sente uma necessidade de construir uma carreira para reverter essa nova camada de silêncios e desconfianças que se sobrepõe à vida dos dois.

O desenrolar da série é construído em torno desse grande sentimento de tesão que precisamos sentir por tudo: trabalho, família, amigos, amores. E como na verdade nossa forma de administrar essas áreas da vida são completamente confusas, salpicadas de monotonia e nem fazem muito sentido na maior parte das vezes, simplesmente por envolver pessoas, criaturas instáveis.

Issa por exemplo, está cansada da vida que leva, de trabalhar com pessoas que fazem juízo de sua vida como um grande estereótipo, do apartamento que é o mesmo, do namorado que não procura um emprego porque está esperando uma grande oportunidade que nunca chega. E a falta desses impulsos faz com que ela procure esse outro homem, mas Issa não sabe o que quer com ele, justamente porque a paixão joga uma nuvem nesses planos futuros e foca no momentâneo, no presente. E no presente havia também um relacionamento duradouro e um emprego estável.

A estabilidade, aliás, tem um papel central na existência de Issa, porque aparece como uma contraposição importante aos aspectos assumidos socialmente da vida de uma mulher negra, que involvem uma inconstância romântica, criação solo dos filhos e um isolamento afetivo delineando sua tragetória. Para a protagonista é importante ser um exemplo não de exceção, mas de desconstrução dessa imagem junto aos colegas de trabalho e das crianças que a ONG serve. A série mostra esse grande malabarismo que é lidar com os conflitos pessoais como influenciadores da imagem pública e social de Issa, que apenas gostaria – como várias outras pessoas – de fazer um amorzinho sempre interessante com uma pessoa que se ama e que se quer para sempre num apartamento lindamente decorado pelos dois dentro de uma crescente harmonia conjugal que nunca cessa.

O impasse da protagonista em fazer essas decisões e estruturar seu futuro só fica mais engraçado e dramático quando passa pelos seus encontros com as crianças, os amigos e suas sessões de rap no espelho, quando faz rimas sobre os sentimentos que não externaliza por vergonha ou por medo. Mas o dilema maior talvez seja o momento que Lawrence tira a roupinha de casa e revela que, apesar de desempregado, sempre trabalhou no corpinho. Ali não há dúvidas, está definidíssimo.

Insecure é uma série da HBO que foi renovada para uma segunda temporada em 2017. Issa Rae (escritora e atriz principal) foi indicada a um prêmio Globo de Ouro de melhor atriz em série musical ou comédia.

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