O prazer é todo seu


Texto: Paloma Engelke // Arte: Raquel Thomé

Quando eu era bem novinha, eu tinha uma relação paradoxal com a minha própria sexualidade. Ao mesmo tempo em que eu sempre tive vontade de explorar esse lado da minha relação comigo mesma e com o meu corpo, uma voz muito forte no fundo da minha cabeça insistia que aquilo que eu estava fazendo era de alguma forma muito errado e ia me mandar para um lugar muito ruim e cheio de sofrimento depois que eu morresse.

O mais engraçado é que eu não me lembro de nunca ter sido repreendida pelos meus pais por nada relacionado à minha sexualidade. Eles nunca foram exatamente abertos sobre o assunto, mas também não recriminavam declaradamente. Nós também nunca seguimos nenhuma dessas religiões que pregam a abstinência sexual antes do casamento, nenhum deles nunca fez nenhuma pregação sobre castidade e virtude e nem em inferno nós acreditamos. De onde, então, vinha esse meu bloqueio de assumir e explorar a minha própria sexualidade: eis a questão.

O fato de esse tabu não ter vindo de dentro de casa de forma expressa não significa que ele tenha nascido comigo. Socialmente falando, a sexualidade feminina é um tabu.

Em muitos países, meninas ainda sofrem mutilação genital todos os dias para que elas não possam sentir prazer. Mesmo em sociedades como a nossa, que defendem da boca para fora essa tal “liberdade sexual” (que ainda me é desconhecida), não existe nenhuma liberdade real na sexualidade feminina. Nossos corpos, nossos gostos, nossos desejos e nossos comportamentos são todos moldados para atender a um prazer que não é o nosso. A todo o momento nós somos expostas como objetos para o prazer alheio, arrumadas e disponíveis para os olhos e os toques alheios. Nosso prazer não pode nos pertencer verdadeiramente se nem os nossos próprios corpos nos pertencem.

Ao contrário dos meninos, em momento nenhum durante a nossa criação nós somos estimuladas a nos tocarmos e a conhecermos nossos corpos. Nosso caminho é sempre traçado na clandestinidade e na vergonha, tudo o que nos ensinam é a dissimular e agradar – fecha as pernas, senta igual moça, tira a mão daí. Meninos têm revistas cheias de mulheres nuas; meninas têm revistas que ensinam como se arrumar da forma certa para atrair homens, como se depilar, como satisfazer homens na cama. Um boquete é e segue sendo muito menos ofensivo para a delicada sensibilidade da nossa sociedade do que uma siririca – o primeiro as revistas até ensinam, a segunda é segredo de Estado.

Mais um exemplo claríssimo de como nossa sexualidade não nos pertence é a forma como a sociedade lida com relacionamentos lésbicos. Prazer sem homem: não pode. É sujo, é errado, é antinatural; e dá-lhe ameaça de estupro corretivo. Mas se for para satisfazer o fetiche masculino, aí tá tudo bem. Se ele estiver ali na cama juntinho, aí tá liberado. Se ele estiver ali, atrás do computador com a mão dentro das calças, aí tá beleza.

Voltada totalmente para o prazer dos homens ou um pouco mais abertas ao nosso próprio prazer, a sexualidade feminina é sempre vigiada, fiscalizada, julgada. Se não aceitou as investidas, é travada, não sabe se divertir, frígida. Se aceita, é puta, vagabunda, piranha, rodada, não é para casar. Se engravidou, agora aguenta, quem mandou abrir as pernas? É só mais um dos castigos que são reservados exclusivamente a nós, como todos os ônus desse fenômeno estranho chamado sexualidade. Não importa se deu uma vez, para o namorado de 5 anos, ou se deu 20 para 20 caras diferentes que encontrou na esquina, porque nós somos Eva e a simples existência da nossa sexualidade é o pecado original se perpetuando.

A ignorância masculina sobre algo tão simples quanto a localização do clitóris é só mais uma evidência clara de quão pouco importa o nosso prazer no contexto geral das coisas. Porque enquanto os relatos de mulheres que dizem sentir prazer em fazer sexo oral no parceiro são muitos; documentadamente a maioria dos homens sente nojo e desprezo pelos órgãos sexuais femininos. Para nós, a satisfação deles é a nossa satisfação; para eles, a nossa satisfação é a garantia de mais satisfação para eles mesmos mais tarde. Quando muito. Eventualmente pode servir também como uma prova da própria masculinidade. É sempre sobre eles, nunca é sobre nós. O resumo da ópera é um só: o prazer é todo seu.

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.