O prazer do texto (e pelo texto)


Texto: Bruna Kalil Othero

Se antes o sexo era visto como uma forma apenas de reprodução — ou, no máximo, de satisfação do prazer masculino —, hoje esse assunto já avançou bastante. Existem ainda, porém, muitos estigmas e tabus relativos à obtenção do prazer, assim como aos seus estímulos.

Com o advento da internet e a consolidação da nossa sociedade como imagética, os vídeos e gifs pornográficos passaram a fazer parte da rotina erótica de grande parte das pessoas, como uma forma de estimular o apetite sexual e a masturbação. Contudo, a indústria pornográfica é muito prejudicial às mulheres, muitas vezes expondo-as a condições precárias e abusivas de trabalho. Portanto, muitas pessoas, em sua maioria feministas, se sentem incomodadas com os bastidores do mundo pornô e não conseguem sentir prazer consumindo esse tipo de conteúdo.

E é aí que entra a palavra. A literatura erótica, tão antiga quanto a própria escrita, sempre foi uma maneira interessante de estimular e brincar com a imaginação dos leitores, no tempo em que o sexo era firmemente estigmatizado e colocado como algo proibido. Hoje, no entanto, a literatura erótica vem se mostrando uma porta para que as pessoas descubram novas formas de prazer sem que se sintam hostilizadas.

Em 1973, Roland Barthes publicou O Prazer do Texto, livro no qual ele teoriza sobre ‘textos de prazer’ e ‘textos de gozo’, uma espécie de literatura que teria como objetivo o conforto ou a provocação do seu leitor. “Texto de prazer: aquele que comenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de gozo: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise em relação com a linguagem.” (BARTHES, 2015, p.20).

Ou seja, o texto de prazer é aquele que nos deixa felizes, excitados — o que remeteria aos “contos eróticos”, “pornográficos”; enquanto o de gozo nos faz querer extrapolar, ultrapassar os limites da linguagem, remetendo ao seu sentido da psicanálise — o que se configura como a escrita feminina, assunto que abordei um pouco neste post.

A literatura, portanto, se torna uma maneira de desmistificar o confinamento do tesão e do desejo a uma forma padrão de se sentir prazer. Lendo Georges Bataille, Hilda Hilst, Gilka Machado, Henry Miller, Marquês de Sade, Catherine Millet, mestras e mestres da literatura erótica, nos percebemos mais humanos, como seres sexuais que somos. Como disse Lucia Castello Branco no seu A Mulher Escrita, “o ato erótico de abrir o livro, filho imaculado da paixão, remete-nos, mais uma vez, à palavra erotizada e, portanto, obscura, intangível, sagrada.” (BRANCO, 2004, p.111) Que coisa bonita é abrir um livro e se permitir descobri-lo, tocá-lo, lê-lo todo; ao mesmo tempo em que você, leitor, se descobre, se toca, se lê.

Referências:

BARTHES, Roland [trad. J. Guinsburg.]. O Prazer do Texto. São Paulo: Perspectiva, 2015.

BRANCO, Lucia Castello. A Escrita Mulher in A Mulher Escrita. Rio de Janeiro: Lamparina editora, 2004.

Compartilhe:

Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia “POÉTIQUASE”, pela Editora Letramento.
http://brunakalilothero.weebly.com/