“O Pintassilgo”: sobre arte e um coração que não se pode evitar


Texto: Lara Matos

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Carel Fabritius pintou um pintassilgo acorrentado a um poleiro rudimentar, mantido cativo por conta do belo canto, para servir de inspiração em sua oficina, em muitos tons de amarelo e marrom em jogo de luz, uma das poucas pinturas do mestre de Vermeer a sobreviver ao autor, morto em uma explosão de um galpão de pólvora próximo a seu estúdio. A pintura não é exatamente um cânone, mas um precursor, uma obra de oficina, como gostam de chamar (Fabritius foi um dos poucos egressos da guilda de Rembrandt a desenvolver estilo próprio).

Já na escolha da obra que vai ser o pano de fundo da história narrada, Tartt é sábia: ela não escolheu um Picasso, Matisse ou Rubens para ser roubado, e sim um pintor “menor”, o que faria muitos questionarem a real importância de um quadro roubado junto com dois Van Arst, autor de naturezas mortas com a inserção de conchas, levantando a questão do cânone: foi aquela tela pequena, de um pássaro, que provocou as maiores emoções do livro, talvez por representar um encarceramento agonizante tal qual a situação de prisão nos escombros após um atentado terrorista. Este é o poder da arte.

Mas por que manifestações artísticas são tão importante, afinal? O Pintassilgo é um livro que evidencia essa pergunta, e me fez pensar sobre o papel que a arte tem na minha vida. Como advogada e pesquisadora de criminologia e direitos humanos, o senso comum pensa que devo ser pragmática, com uma inteligência voltada à dissecação, compreensão e depreensão de leis, informativos e artigos jurídicos. Desafio constantemente essa afirmação, pois minhas leituras em sua maioria não são utilitaristas ou voltadas apenas para o aspecto da vida acadêmica, e sim cheias de multidisciplinaridade. Hermetismo não tem muita vez comigo, apesar de ainda haver aqueles que acham que o texto jurídico é diferente dos outros e que não deve ser tratado pela linguística ou antropologia. Não gosto nada disso.

Há concepções elitistas que recortam arte da cultura e das vivências comuns em geral, apartando-a do estado das coisas e da contextualização (separando “arte” de “cultura geral” em critérios bem duvidosos), elevando a uma categoria de coisas intangíveis com ares divinos. Tal consideração para mim é MUITO problemática, mesmo porque um artista sempre está inserido em seu contexto, seja reproduzindo o discurso vigente, seja desafiando esse status quo dominante. Sabe aquelas pessoas que vivem dizendo que “funk não é música”? Então. É delas que falo e folgo em dizer que funk é música sim, e que arte ultrapassa o conceito do que uma pessoa só gosta ou acha “aceitável”. É a velha discussão sobre o cânone, mas aprofundada pelo prisma do que a arte deve ou não “tocar”. Por mim, a arte toca todas as coisas e interage com tudo, tornando o mundo mais humano e criativo. Mas isso sou eu, né.

“a beleza altera a qualidade do que é real”

Voltando ao Pintassilgo, um dos melhores aspectos do livro é tratar dos aspectos venais da arte e de como a maioria das pessoas se deixa deslumbrar pelo dinheiro e quer parecer conhecer mais do que de fato sabe em nome das aparências de refinamento e riqueza. Na passagem em que Theo confessa a Hobie as falsificações que fez, motivadas por seu desejo de deixar a galeria novamente com as contas em dia, ele afirma que a maioria das pessoas lesadas pela aquisição de peças ilegítimas era “rica demais para se importar”, e desde que a falta de autenticidade não se tornasse pública e elas pudessem ostentar esta arte cara com aura da deferência dos muito afortunados, tudo bem. As descrições de preparo das obras, restaurações e melhoramentos são às vezes cansativas ao longo do livro, mas demonstram todo o cuidado e devoção dirigidos às peças do atelier de Hobie, para depois serem vendidas a clientes que simplesmente não dão a mínima (o que faz com que Decker meio justifique seus golpes com falsificações dirigidas a estas pessoas).

O romance de Tartt é ainda mais incrível porque vai além e se estende na descrição das relações das pessoas com a arte, falando sobre as eu simplesmente não se importam (pai de Theodore e Xandra), as que vivem disso e por isso, como Hobie e os falecidos Walty e mãe de Theo, e das que têm um amor tão grande por ela que não conseguem apartá-la de si mesmos quando isso lhes causa profundo incômodo e tristeza (Pippa), e ainda aqueles que gostam de aparentar conhecer arte para assegurar uma posição social (clientes da galeria “ricos demais para se importar”), ou Boris, que com seu ar de gângster russo parece ter um lugar periférico para apreciações artísticas, mas que se mostra uma pessoa com visão sensível e acurada para artes.

Minha personagem favorita é Pippa, amor não correspondido de Theodore. Outrora prodígio como flautista, perdeu a capacidade de fazer os movimentos sutis que a tornavam virtuose no instrumento no atentado terrorista que vitimou Walty e a mãe de Theo, passando então a lecionar para crianças, e que tenta lidar com a perda de sua habilidade da forma mais saudável possível, enfrentando a perda, sendo muito honesta consigo mesma e com os outros, contrapondo o personagem de Decker, que sufoca tudo em si e nunca lida de fato com os traumas (inúmeros) advindos do ataque e da perda precoce da mãe, recorrendo à embriaguez e às drogas para ter um pouco de paz às vezes. Manusear a pintura envolta em várias coberturas é uma forma de terapia para Theo.

“Fique longe daqueles que você ama demais. Estes são os que vão lhe matar.”

Mas Theo tem um escape secreto: os diários que mantem desde os 13 anos, e que como texto escrito, é uma forma de arte acerca de sua própria vida, detalhe da narrativa do qual gosto bastante. Por meio da escrita, Decker também faz a arte de conseguir expressar suas emoções e de aliviar, ao menos momentaneamente, todo o sofrimento que não ousa expurgar para além do papel, entrando em contato com o lado ruim da sua humanidade que ele tanto insiste em desprezar. Escrever também nos ajuda a acolher e compreender as trevas dentro de nós mesmos.

Na pintura de Fabritius, a corrente fina, embora resistente que mantém a ave presa é uma das sutilezas e portadora de uma metáfora multiplicada por si mesma várias vezes durante toda a extensa narrativa do livro, como paralelo à história de Theodore e segundo ele próprio, seu “coração que não se pode evitar”: para sempre atado por uma corrente de memórias ao cenário estático do atentado terrorista que ocorreu quando ele tinha 13 anos, vitimando fatalmente sua mãe e em que ele (por indicação do agonizante Walty) roubou o quadro do mestre de Veermer durante a confusão pós ataque; cena da qual ele nunca conseguiu abandonar por completo, e que também continha a visão da pintura. Theo está atado a esta visão por um fio quase invisível de lembranças, que, no entanto o segura com força e impede de seguir com uma vida leve.

Quantas vezes vemos uma fotografia, filme e alguma nota, frase ou imagem acolhe justamente aquilo que sentimos no momento em que vivemos, ou evoca a emoção passada, mas que ainda lateja sob nossa pele, gravando aquilo com palavras, sons, imagens ou tudo isto junto. Uma obra capaz de traduzir nosso estado de espírito. Tartt capta essa capacidade da arte em desdobrar-se em metáforas e paráfrases de si mesma como um pigmento dissolvendo-se em um líquido: ela vai nos alcançar, mesmo diluída em influências e significados ocultos, mesmo misturada com vivências de várias pessoas, porque não é uma coisa só e possui um significado diferente para cada espectador.

“[…]Só ocasionalmente notei a corrente na perna do passarinho, ou pensei que vida cruel para uma criatura tão pequena – flutuando brevemente, forçada a sempre pousar no mesmo lugar sem esperança”

O “coração inevitável” de Theodore talvez também diga respeito às pessoas que tem na arte um consolo para os dissabores da vida, que algumas vezes são apontadas como “dispersas” ou “pouco práticas” nesse mundo de conhecimento utilitarista. A nós, esses lunáticos que precisam dela, a arte abraça, envolve, às vezes os deixando sem ar pela profusão de pensamentos e sensações que provoca, mas sempre nos fazendo ter contato com nosso espírito, e nos ensinando a compreendê-lo e respeitá-lo.

 

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.