“O Pintassilgo”, Donna Tartt


Lá pela metade de O Pintassilgo, Hobie, restaurador de antiguidades e um dos muitos personagens que atravessam as quase 800 páginas, ensina a Theo, o protagonista, que restaurar não quer dizer livrar as peças de suas imperfeições e deixa-las como se fossem novas. As marcas deixadas naturalmente ao longo do tempo são justamente o que transforma aquelas peças em antiguidades genuínas e que, consequentemente, fazem delas valiosas. Elas são autênticas porque foram tocadas pelo tempo.

O livro mais recente de Donna Tartt pode ser classificado como um romance de formação, já que acompanhamos uns treze anos da vida de Theo Decker, e não tem muito mais em termos de história. Theo, muito ligado à mãe e crescendo com um pai alcoólatra e abusivo que eventualmente os abandona, sobrevive a um ataque a um museu. A mãe dele, não. Theo, por motivos que na hora fazem sentido para ele (e completamente atordoado depois da explosão, é claro) leva com ele a pintura de nome (tchãrã) O Pintassilgo, de Carel Fabritius, a favorita da mãe dele desde a infância. A presença da pintura o conforta, mas também atormenta, – cada vez mais conforme o tempo passa e o medo das consequências aumenta. Ela o acompanha ao longo da narrativa, mas o que vemos é, sobretudo, as marcas que a passagem do tempo deixa sobre Theo e como cada acontecimento mexe com ele.

Ao longo das muitas páginas do livro, acontecem muitas coisas imprevisíveis e às vezes bastante improváveis – mas o futuro de cada um não é isso, imprevisível? Várias vezes me perguntei se Theo seria tão infeliz por tanto tempo se alguma das muitas tragédias pessoais dele não tivesse acontecido. Só que questionar isso é tão inútil quanto é inútil da parte dele imaginar de que maneiras poderia não ter estado no museu naquela manhã. Às vezes acontecem coisas e só nos resta viver com elas, o que nem sempre é simples ou fácil – no caso do Theo, nunca é simples ou fácil.

Na minha resenha de A História Secreta, o livro de estreia da Donna Tartt, disse que ele é um pouco longo demais e que perde um pouco de força na segunda parte. O Pintassilgo também sofre um pouco com isso. Muitos críticos chamaram o romance de “Dickensiano”, e embora eu não tenha muito certeza do que isso quer dizer, não deu pra deixar de pensar que, assim como costuma acontecer quando leio Dickens, me peguei pensando que um livro um pouquinho mais enxuto não faria mal nenhum, muito pelo contrário. O Pintassilgo é dividido em mais do que duas partes e a maioria delas é muito boa, mas fiquei um pouco decepcionada com a conclusão do enredo envolvendo a pintura. (A conclusão mais reflexiva da obra, um belo diálogo seguido de um longo monólogo sobre a arte, a vida e as pessoas que amam a arte, seja ela qual for, é bem comovente).

Mas ainda que pudesse ser mais curto, que as reviravoltas nem sempre funcionem muito bem, que algumas Frases Bonitas sejam só frases estranhas (ou: meus três problemas com o livro), ele é incrível porque te envolve demais. A vulnerabilidade do Theo diante das imprevisibilidades da vida, a profundidade do trauma, o sentimento de culpa irracional, te fazem torcer por ele. E Donna Tartt também é incrível para criar atmosferas inteiras. A trama se passa em alguns lugares diferentes (Nova York, Las Vegas, Amsterdam) em fases radicalmente diferentes da vida de Theo, e é fácil sentir isso através das descrições. Ao mesmo tempo, ele carrega o mesmo peso onde quer que esteja, sejam quais forem os personagens que o cercam (que infinidade de personagens excelentes tem esse livro), e é triste e frustrante acompanhar suas decisões em cada uma dessas fases. Mas é compreensível: ele diz que “não escolhemos nosso próprio coração. Não temos como nos forçar a querer o que é bom para nós ou o que é bom para as outras pessoas. Não escolhemos ser as pessoas que somos”. Concordo com a primeira parte dessa afirmação, discordo um pouco da segunda, mas ela faz muito sentido dentro do livro. Theo sacaneia pessoas que fazem tudo por ele de coração aberto e têm muita dificuldade de enxergar que não é a única pessoa que carrega o luto e o trauma, mesmo que nem todo mundo lide com esse peso do mesmo jeito que ele. Mas ele não é um Personagem Horrível, como os de A História Secreta. É meio errado, faz as coisas de uma maneira meio torta, mas ele está tentando, apesar de toda a dor com que precisa aprender a lidar.

É porque testemunhamos Theo Decker crescendo e aprendendo a continuar vivendo ao longo de tantos anos que O Pintassilgo nos envolve e, como costuma acontecer com longos romances com protagonistas complexos e bem delineados, a sensação ao terminar de ler é a de dizer adeus para um amigo antigo. O Pintassilgo foi um belo retrato de como tudo o que acontece deixa sobre nós alguma imperfeição, um novo peso para carregar. Mas também nos torna quem somos, seja isso bom ou ruim.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.