‘O olho mais azul’, Toni Morrison


Resenhar um livro que você estudou em aula ao longo de algumas semanas é bastante difícil. Nessa situação, além da sua própria experiência de leitura e da sua interpretação, as interpretações de outras pessoas, os longos ensaios críticos e as discussões se misturam para compor as suas impressões a respeito da obra, o que faz com que exista muito mais a dizer, às vezes até demais. Mas a experiência também te dá ainda mais certeza de que, mesmo que seja difícil, vale a pena e é necessário falar daquela obra. É o caso de O olho mais azul, o primeiro romance publicado por Toni Morrison, lá em 1970.

O olho mais azul é uma história contada por diversas vozes, enfocando diversos personagens, mas no centro de tudo está Pecola Breedlove, uma menina negra cujo maior desejo é ter olhos azuis, vivendo em Lorain, Ohio. Quem narra a história é a vizinha, Claudia McTeer, a algumas décadas (o momento exato nunca é revelado) de distância da ação da narrativa – época em que a própria Claudia, assim como Pecola, ainda era uma criança. Claudia revela, logo nas primeiras páginas, que o livro é um modo de tentar entender o que aconteceu na primavera de 1941. O ano em que Pecola engravidou e perdeu o bebê de seu pai. Claudia diz: não há como explicar porque tudo aconteceu, mas é possível explicar como – e do como, nós, os leitores, podemos buscar a resposta para o porquê.

Pecola é uma menina sem voz no romance. Uma menina que idolatra Shirley Temple. Uma menina filha de um pai que tem sérios problemas com a bebida e de uma mãe negligente, uma menina que vê os pais tendo constantes brigas violentas. Uma menina que é maltratada no colégio por praticamente todos os colegas, e que não é ajudada por nenhum daqueles que não contribuem ativamente para a sua humilhação. Uma menina que gostaria de entender o que precisa fazer para merecer ser amada, que se entende como feia e que acredita que enquanto ela seguir sendo assim, não merecerá nada melhor. Seu anseio é ter olhos azuis. As meninas de olhos azuis (como a adorável Shirley Temple) são universalmente adoradas, afinal.

Toni Morrison conta uma história sobre personagens complexos e reais, e é difícil vilanizar qualquer um deles – mesmo a mãe negligente, mesmo o pai que abusa da própria filha. Se a história de cada um não justifica as ações, ela explica as ações, e ao entender cada um deles, não há como separar os personagens entre “bons” e “maus” ao final do livro. O livro também nunca transforma a maioria branca da sociedade (e da comunidade de Lorain) na grande vilã. Claudia, a narradora, que desde criança não conseguia amar as bonecas brancas que todas as meninas ganhavam para brincar e fingir serem suas filhas, também enxerga a situação assim. Ela não odiava as meninas loiras de olhos azuis em si, o que ela odiava era o que havia por trás – a Coisa que fazia com que meninas loiras de olhos azuis fossem universalmente adoradas, fossem bonitas, enquanto meninas que se parecem com ela, meninas negras, não fossem.

Porque essa imposição de valores, de padrões de beleza que aparecem no romance tão explicitamente, que estão ligados a ser branco, e que acabam sendo inalcançáveis para quem nunca vai se enxergar neles, é perigosa e destrutiva, e o livro nos força a pensar a respeito disso. Do nosso próprio papel na perpetuação dessas crenças. É uma responsabilidade compartilhada por uma sociedade que permite que isso aconteça – e o resultado devastador fica claro na história de Pecola.

Num posfácio escrito em 1993, Toni Morrison é bastante crítica com a própria obra, especialmente com a questão da linguagem, com as vozes que ela escolheu utilizar para contar a história do jeito que acreditava ser mais eficiente. Ela diz que, duas décadas depois, se encontrava bastante insatisfeita com aquele aspecto do romance. Talvez artistas sejam sempre assim, sempre enxergando algo que podiam ter feito melhor, algo que faltou. Como leitora, no entanto, acredito que sua narrativa e suas vozes foram muito eficientes. Além disso, narrativa é cheia de metáforas e símbolos, as descrições são incríveis, é tudo muito sensorial e é muito difícil parar de ler, ainda que tudo seja muito desolador.

Morrison não apresenta representações estereotipadas, e a dinâmica familiar da narradora, Claudia, parece contrabalançar tudo o que vemos acontecendo com a família de Pecola. A história que nos é contada pesa, nos obriga a refletir, nos “implica”, como diz a autora no posfácio, porque somos parte da população. A autora diz que sabe que “essa é uma história terrível sobre coisas sobre as quais preferiríamos não saber nada”. E é verdade. Mas como ela é importante, e como é necessária. Histórias que nos movem são, afinal, as melhores. Eu diria a todos um simples “leiam esse livro”.

Nota da autora: a questão racial e o racismo são centrais nesse livro, e falar sobre ele é necessariamente tocar nessas questões. Acho importante ressaltar, no entanto, que compreendo que esse é um tipo de opressão que eu nunca vou entender plenamente, porque nunca vou sentir, e sei que o protagonismo na luta contra ela não é meu – ainda que seja um problema de todos nós, que permitimos que ela continue existindo.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.