O nome dela, a verdade dele


Se os livros são grandes mentiras, os narradores são grandes mentirosos e nossa memória é um compilado de mentiras que criamos sobre o que vivemos, o que dizer então de um livro autobiográfico cheio de relatos de memórias?

Nesse início de dezembro terminei de ler o livro Diga o nome dela, de Francisco Goldman. Lançado pela Companhia das Letras há não muito tempo, a obra, escrita em primeira pessoa por Francisco, fala do da vida, do sofrimento e das memórias do autor em relação à sua falecida esposa, Aura Estrada.

Se Francisco viveu (ou narrou) uma grande mentira, me levou no bico com facilidade. Seu sofrimento, suas memórias e seu tom nostálgico me convenceram desde o primeiro momento de seu grande amor por Aura, e cheguei a encher o olho onde, no finzinho do livro, ele narra em detalhes os acontecimentos que envolveram a morte da mulher.

No início, o autor comenta que a mãe dela e o tio estavam processando ele, dizendo que a morte poderia ter sido sua culpa. Ele mesmo se questiona, durante vários momentos, se teria sido sua culpa ou não: ele pode não ter sido responsável por afoga-la, mas não tomou conta dela como prometeu ao casar. Não conseguiu protege-la, nem lutar contra sua impulsividade de… mergulhar.

Durante toda a leitura, enquanto eu navegava nos relatos de Francisco, pensava indignada em como a mãe e o tio de Aura tinham coragem de processá-lo e adicionar todo esse trâmite ao sofrimento dele, que já não era pouco. É nítido o quanto esse homem amava essa esposa, pensei eu durante toda a leitura. E continuo pensando. Mas é inegável o respaldo de mentiras que a narrativa tem o poder de carregar. Estivesse eu lendo um livro narrado pela mãe, Juanita, sobre a história da morte de sua filha, o amor que sentia por ela, e a raiva que sentia do marido que nunca aprovou… estaria eu convencida de que Francisco é sim o culpado? Mais do que a frase “cada conto aumenta um ponto” pode dizer, acredito que “cada conto seja um ponto”. No fim das contas, acho que cada um acaba acreditando na verdade que chega a conhecer.

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Analu Bussular: Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 22 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.

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