O mundo estava calado enquanto nós morríamos


Quem escreveu essa frase foi a nossa queridinha brilhante Chimamanda em Meio Sol Amarelo, e eu estou aqui usando de título porque desde o momento em que a li (e levei um soco no estômago) nunca mais consegui esquecer.

O livro fala sobre a guerra da secessão na Nigéria, e no contexto da história a frase quer dizer que ninguém nunca se importa com guerras na África. O mundo para se acontece alguma coisa envolvendo América do Norte ou Europa e, no entanto, o mundo cai na África todos os dias e ninguém está nem aí para isso. Essa frase me doeu, doeu demais, porque é verdade.

Arte: Sandra Pio

Arte: Sandra Pio

Eu acho o fim da picada essas relativizações e comparações de sofrimentos e atrocidades que o povo tem mania de fazer na internet. É só a galera começar a chorar nas redes sociais por causa de um atentado em Paris que vem alguém dizer que TEM GENTE PASSANDO FOME NA ÁFRICA  e coisa e tal. Acho de verdade que todo mundo tem o direito de se comover com a causa que quiser, não acho que nenhuma é menos comovente que a outra, mas… não dá pelo menos para a gente parar rapidinho para refletir que na verdade é bem chato mesmo que algumas eventuais tragédias eurocêntricas sejam tão repercutidas enquanto, bem, tem gente morrendo na África o tempo todo? É injusto demais que alguns sejam relevantes e outros sejam somente… outros.

O problema não é no que a gente repara, mas no que a gente não repara. E eu não to nem querendo dizer que a gente tem que reparar em tudo e sofrer por tudo mas é que o cenário é desequilibrado demais. O mundo gira em torno de poucos privilegiados enquanto milhões de Outros por aí são ignorados dia após dia. Milhares de causas, guerras e demais tragédias acontecem diariamente em diversos lugares e com diversas pessoas que nunca são citadas, nunca são levadas em consideração.

Todo mundo já ouviu falar nas grandes guerras mundiais e na guerra dos EUA X Iraque. Na Revolução Russa e na Revolução Francesa. E eu não consigo lembrar da guerra da secessão da Nigéria ter sido sequer citada em algum dos meus livros de história da escola. O mundo realmente permanece calado enquanto muita gente morre. Gente que não tem tamanho/importância o suficiente para conseguir fazer barulho, para conseguir que alguém olhe, que alguém se importe.

A própria Chimamanda já fez um discurso no TED sobre o perigo da história única. Sobre o desastre que é a gente passar a vida lendo as mesmas histórias, sobre os mesmos personagens, focando sempre nos mesmos dramas e nas mesmas questões sem lembrar que existe um vasto horizonte além disso – e por muitas vezes, infelizmente, um vasto cemitério. Se um dos grandes trunfos da literatura é fazer com que viajemos sem sair do lugar, há que se aproveitar a oportunidade de, pelo menos dessa forma, buscar outras vertentes. Buscar a boca de outras pessoas. Ninguém aqui tá dizendo pra gente parar de ler YA americano ou inglês, mas sim pra gente lembrar que a mistura pode ser muito proveitosa. Pode fazer a gente abrir os olhos para muitas outras coisas. Pode lembrar que a gente não tem que fazer barulho só quando coisas ruins acontecem em lugares e pessoas com “apelo”, e não é que a gente consiga mudar o mundo fazendo isso, mas uma pessoa a mais correndo atrás de não ouvir somente o discurso da história única já é uma pessoa a mais.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.