O metrô e o outro


Texto: Amanda Ariela // Arte: Marília Pagotto

Eu odeio lugares fechados. Não chega a ser aquela claustrofobia que me impede de andar de elevador e de viver uma vida normal, mas eu não me sinto confortável. Se não vai durar 10 ou 15 segundos, não estiver em movimento e se eu não conseguir ver o céu ou o horizonte, pode ter certeza de que vou começar a sentir falta de ar e tontura.

Eu também odeio muito multidões. Detesto contato físico com gente que eu não conheço e me dá uma aflição danada sentir a respiração de outra pessoa na minha nuca ou rosto. Também não curto nada mãos, cabeças e cotovelos acima da minha cabeça (o que é um problema porque eu tenho só 1,54m de altura) e o cheiro forte do perfume forte alheio entrando pelas minhas narinas e me fazendo espirrar.
Esses dois fatores fazem com que o metrô de São Paulo seja uma espécie de inferno pessoal meu. No tártaro, o inferno dos gregos, Sísifo tinha que carregar uma pedra morro acima todos os dias, para depois ela rolar para baixo durante a noite e ele ter que levar para o topo de novo. Atlas tinha que segurar o peso do mundo todo nas costas e Prometeu tinha seu fígado comido por um monstro, durante o dia, e regenerado durante a noite.
O tártaro de Mandariela seria, com certeza, um trajeto interminável e eterno do metrô de São Paulo, na linha vermelha, e com o público equivalente aos das 18h15. Pior: o vagão estaria lotado, com várias mãos e braços acima da minha cabeça, andando em velocidade reduzida e parando a cada 100 metros, sem me dar a chance de ver a janelinha. Ah, e com as pessoas esbarrando e encostando em lugares do meu corpo que nem a mamãe, nem ninguém no mundo já tocou.
Me dá um arrepio só de imaginar.
De qualquer forma, eu preciso me locomover pela cidade e, para isso, preciso usar o metrô. Fugir dele não é uma opção. Então, para sobreviver ao meu inferno pessoal, precisei elaborar estratégias de distração.
Ouvir música em fones de ouvido? Impossível, quando eu escuto música, eu me transporto para outros lugares e fico completamente aérea. Não percebo se tem gente me chamando e se estou ou não perdendo minha estação. Essa sensação de falta de noção não me deixa mais confortável, até me incomoda um pouco, então essa não era uma opção.

Ler? Não consigo me segurar e segurar um livro ao mesmo tempo. Fora que, você já reparou como as pessoas gostam de ficar esbarrando em quem está lendo? Acredito que a impressão que eles tem é de que, por estar lendo, a pessoa não percebe que você está se apoiando, jogando sua bolsa em cima das costas ou pisando no pé do pobre leitor. Eca.

A solução encontrada foi sair de dentro da minha cabeça, parar de pensar no que me incomodava e começar a focar naquilo que eu pudesse colocar meus olhos e encarar sem deixar os outros acharem que eu estava sendo creepy (essa parte eu ainda não dominei completamente).

Uma senhora de cabeços grisalhos e longos, amarrados em um coque elaborado. Está sentada no banco preferencial, apesar de não ser uma idosa. Ela usa uma saia longa preta, com meia calça e sapatos fechados e pretos. Um casaco branco de mangas longas completa o pacote. Ela está lendo um livro com uma daquelas capas de tecido, que o protege e impede que eu saiba o que ela está lendo (outra coisa que me enerva, eu gosto de ver aquilo que os outros estão lendo como se fosse um Goodreads da vida real). Brás, Bresser, Belém, Tatuapé. O metrô começa a esvaziar e eu começo a me aproximar da porta, para descer na minha estação. Com as costas encostadas perto da porta, consigo ver aquilo que ela está lendo. Uma cópia surrada, provavelmente de biblioteca, de “50 Tons de Cinza”. Ao perceber meu olhar, a senhora ergue os olhos para mim e eu balanço o rosto, em aprovação, mesmo sem gostar dos livros.

Uma moça grávida, loira, perto dos 30 anos. Ela se recusa a sentar no assento preferencial, mesmo com as pessoas levantando e oferecendo (outra coisa que me irrita! Morro de medo de esbarrar ou e empurrar sem querer algum idoso ou grávida, por causa da lotação do metrô. Se todo mundo ficar sentadinho, isso não acontece). Ela está de fones de ouvido, mascando chiclete e vestindo uns daqueles macacões jeans típicos de grávida. Ela digita furiosamente no Whatsapp e eu não consigo deixar de esticar os olhos para ler. A conversa é com um tal de Gil e eu logo começo a imaginar uma backstory para os dois. Será que eles são um casal? Será que ela está indo no médico? Por que será que ela está sozinha? Deve ser triste fazer um ultrassom sem ninguém para companhar… Meus pensamentos divergem até que ela entra no Candy Crush e eu desvio o olhar. Ela ainda está na fase 25 e eu fico com vontade de dar umas dicas para ela. O whatsapp apita com uma nova mensagem de Gil e ela logo larga os docinhos para trás. “Quero te comer” diz a mensagem. Sem piscar, pestanejar, ficar vermelha ou tentar esconder a tela do celular de mim, ela responde “E eu quero te dar! Pena que essa criança não deixa! hahaha”. Os dois seguem então em um sexting que é gráfico demais para que eu descreva aqui, mas que eu achei muito esclarecedor, em certos pontos.

Um homem de meia idade, terno e gravata e cabelos de uma cor que não existe na natureza (claramente tingidos) conversa em alto e bom som (200 anos de evolução na telefonia. Eu te garanto que dá para ouvir sem a necessidade de gritos) com uma tal de Marta. Pelo tom da conversa, eles parecem ter um relacionamento íntimo, mas não tenho certeza. República, Anhagabaú, Sé. O metrô esvazia, o moço desliga o telefone com Marta e acaba ficando de pé perto de mim. Uma conversa no Whatsapp se inicia e eu estico o olhar para ver se a conversa continua com Marta.

Que nada, as mensagens são trocadas com uma tal de Alana e não parece nada promissor. Ela pede que ele não vá em sua casa hoje e ele insiste. Ela nega. “Estou cansada, trabalhei a semana inteira. Tenho que fazer faxina e lavar roupa. Só hoje não, por favor.” Ele parece frustrado e está suando um pouco “Não é possível, Alana. Não é só isso. Você deve ter algum motivo para não querer me ver hoje! Vai alguém aí na sua casa?”

Pronto, minha cabeça vai longe do Brás e das pessoas que entram com sacolas e carrinhos. Estou viajando em um poderoso triângulo amoroso formado por Marta, o moço e Alana, que claramente precisa de um boy melhor. Vou criando histórias e imaginando profissões, diálogos e famílias para os três envolvidos. “É claro que é Marcus, me deixa, só dessa vez. Manda mensagem para minha mãe, ela vai te dizer se eu estou ou não em casa e se vai vir gente aqui ou não,” responde Alana. Agora o moço tem um nome. “Não creio nisso,” ele responde. Eu ergo uma sobrancelha e fico imaginando o quão lixoso a pessoa tem que ser para forçar uma visita dessas. Marcus olha para mim, com cara de quem foi pego fazendo o que não devia. Reviro os olhos e desço no Carrão, imaginando as poucas e boas que diria a ele se fosse um pouco mais corajosa.

Peço desculpas aos que gostam de privacidade, mas, pelo bem da minha sanidade mental, eu vou ler suas mensagens no Whatsapp e vou tentar descobrir aquilo que vocês estão lendo. Vou criar histórias doidas, que provavelmente não condizem com a realidade e que nunca sairão da minha cabeça. Vou esquecer dos seus rostos e nomes, mas nunca dos seus gestos e de suas conversas. Vou elaborar conselhos e dicas na minha cabeça, mas nunca vou dizê-los em voz alta. Juro que minha mãe me ensinou que ler as cartas e mansagens dos outros é falta de educação, mas esse hábito é muito mais forte do que eu.

Prometo solenemente que não revelarei nada, para ninguém. Mas talvez eu revele um pouco, só de vez em quando.

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  • Amanda Ariela

    hahahaha Obrigada, Lore! Eu adoro quando encontro a pessoa mais de uma vez porque dá para imaginar mais coisas, mas isso nunca aconteceu com gente que tava lendo mensagem no whatsapp! :/

    Fico feliz que tenha gostado do texto! 🙂

  • Mandariela, ler isso me fez rir sozinha que nem louca 🙂 eu sou assim também, fico analisando e criando backstories pras pessoas que encontro no transporte público. No meu caminho pra aula, tinha sempre o mesmo cobrador e ele passava o trajeto inteiro discutindo com a mãe no telefone (no viva voz, claro), então eu nem precisava imaginar. O ônibus inteiro sabia a história dele hehe

    Lore