O machismo paradoxal do rock


Texto: Ariel Carvalho

Você provavelmente não sabe, mas quem criou o rock foi uma mulher. E negra.

Nascida em 1915, como Rosetta Nubin, ela ficou mais conhecida como Sister Rosetta Tharpe, e era uma cantora e guitarrista americana que influenciou ninguém menos do que Elvis Presley, Bob Dylan, Chuck Berry, dentre muitos outros. Ela foi uma das primeiras a tocar em bares e clubes noturnos – lembrando que seu repertório era composto, majoritariamente, por músicas gospel -, e tinha um estilo de tocar guitarra muito peculiar.

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Nossa, mas como você não sabia disso ainda?

A resposta é bem simples: o mundo da música é um lugar machista, e o do rock é ainda pior. Jack White, em uma entrevista de 2014, fala que as pessoas acharam estranho ele gravar um cd com uma banda exclusivamente feminina, mas que elas nem ao menos se preocuparam em ouvir essas mulheres tocando.

É o que mais acontece nessa indústria: as mulheres são julgadas inferiores aos homens e, quando tocam bem, “tocam bem, para mulheres”. O que realmente é avaliado não é a qualidade da música ou a habilidade de uma mulher que é música, e sim o seu gênero.

Conversando com amigas que estão no mundo do rock, percebi que também acontece uma objetificação horrível. Elogiam o talento do guitarrista, do vocalista, enquanto as mulheres da banda são “gostosas”.

A indústria do rock já é extremamente difícil e dura para os homens, mas para as mulheres consegue ser ainda pior. Basta ver “Amy” ou “Whatever Happened, Miss Simone?” (aliás, vejam sim, vejam muito).

Alguns dos primeiros sucessos dos Beatles, como “Baby It’s You” e “Please Mr. Postman” foram originalmente gravadas por bandas femininas (Shirelles e Marvelettes, respectivamente) mas muitos acreditam que essas músicas são do quarteto britânico, e não só pelas músicas terem feito mais sucesso depois da regravação deles (as músicas já faziam bastante sucesso pré-Beatles), mas porque há um silenciamento das vozes femininas dentro do rock.

Ah, e se vestir como quiser é também um problema. As mulheres só conseguem ser um pouco respeitadas no mundo do rock se usarem roupas tipicamente masculinas, como calças jeans e blusas de banda. Um bom exemplo disso é como a Hayley Williams, do Paramore, foi criticada por largar as roupas mais largas e encurtar os shorts e blusas.

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Um dos relatos que ouvi enquanto fazia a pesquisa para essa pauta me lembrou que a crítica, muitas vezes, vem dos próprios produtores das meninas. Não contentes em dar pitaco nas músicas (que é o que deveria ser feito), eles querem decidir como elas vão se vestir, se pintar, se portar, tirando a voz e a liberdade artística das moças.

Fui a um show da maravilhosa St. Vincent (que, aliás, criou uma guitarra especial para mulheres), e os comentários na plateia eram bastante positivos, mas algumas pessoas questionavam sua habilidade com a guitarra por ela ser mulher e a chamavam de louca simplesmente por querer usar os cabelos de forma diferente e por sua atitude no palco.

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É dela a frase que encerra esse post. Em uma entrevista à Ma’Yan, ela disse:

“Os homens nunca são perguntados: como é ser um cara no rock’n roll?  […] Até fazer essa [essa pergunta] é como dizer: pobrezinha, como é?”

Ah, e criei uma playlist composta exclusivamente por músicas de mulheres do rock, novas e velhas. Só apertar o play para ver como qualquer mulher é tão boa quanto – ou até melhor – do que qualquer homem.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.