“O livro de memórias”, Lara Avery


Texto: Analu Bussular

“Dizem que minha memória nunca será a mesma,
então estou escrevendo para lembrar”

Lara Avery não espera nem que seus leitores abram o livro para começar a dar bordoadas: a quote acima está estampada logo na capa, que é pra gente dar umas engolidas em seco ainda antes de começar o seu O livro de memórias, que é um diário de Sammie pra ela mesma. Eu explico.

Samantha tem 18 anos e um diagnóstico de NP-C (Niemann Pick tipo C), uma doença degenerativa que, além de lhe causar problemas físicos como dormências e paralisias corporais, vai, aos poucos, apagando sua memória, e é por isso que ela decide escrever um diário/livro, destinado a ela mesma, narrando a sua vida para que ela possa ler quando estiver esquecendo.

Durante toda a leitura, fiquei pensando no quanto deve ser solitário ter uma doença grave e fatal. Por mais que se tenha muitas pessoas ao seu lado, apoiando, rola sempre aquela certeza de que nenhum deles nunca vai estar na sua própria pele e entender exatamente o que é ser tão nova e ter em vista um atestado de óbito ao invés do diploma da faculdade. E a angústia de, mesmo nessas condições, continuar acreditando nos seus sonhos e querer lutar por eles – e não receber apoio das pessoas que mais ama porque, bem, elas te amam e querem te proteger?

Samantha é a menina mais inteligente da escola, participa de clubes de debates, sonha em fazer duas faculdades e de repente seus pais e sua orientadora têm que fazer o papel de vilões e dizer que ela não pode, que ela não consegue. Dói quando ela se sente bem e é barrada, mas dói mais ainda quando ela começa a perceber sozinha que não vai rolar, quando ela começa a ter apagões frequentes e entende que realmente não pode mais ficar sozinha e levar uma vida normal.

Durante a narrativa, Lara vai nos mostrando, através dos relatos pessoais da protagonista o quanto o seu estado de saúde vai mudando. Confesso que eu achei que isso poderia ter sido trabalhado de uma forma mais delicada e com mais nuances, como que num contínuo, e não com tragédias súbitas. No livro, em um texto a Sammie está bem, e de repente no próximo ela não consegue nem digitar direito, e aí então no próximo tudo está muito bem de novo. Eu não entendo da doença, a autora com certeza pesquisou mais do que eu, pode ser que isso seja a realidade da apresentação dos sintomas, mas não posso negar que me afastava um tanto, porque soava como uma rápida apelação para mostrar a doença e depois continuar escrevendo tranquilamente porque era mais fácil, sabe assim? Achei que tudo acontecia muito bruscamente e, além disso, senti uma forçação de barra que os dois piores apagões que ela teve durante a história foram em dois momentos que ela queria muito vivenciar: a final do campeonato de debates e sua festinha de formatura.

Apesar do livro ter alguns problemas de desenvolvimento (não aguento quando autores decidem escrever um livro em formato de cartas ou diário e escrevem páginas a fio de diálogos, como se alguém realmente escrevesse conversas em detalhes numa carta ou num diário), acredito que Lara fez um ótimo trabalho em, por exemplo, desmistificar a imagem da protagonista-doente-boazinha-que-nunca-erra. Sammie é extremamente humana e faz um punhado de cagadas durante o livro todo. Além disso, ela é, claramente, uma adolescente real, diferente de muitos outros que encontramos por aí na literatura YA (oi John Green, te amo, mas estou falando com você). Outro ponto positivo é que ela buscou a inclusão, mesmo em um livro onde esse não era o foco: a melhor amiga de Samantha é lésbica, é isso, simplesmente por ser.Isso não é um fato a ser discutido ou elaborado na história, e eu gosto demais disso, demais mesmo. Adoro que personagens pertencentes a minorias sejam tranquilamente inseridos na história sem que isso precise virar uma questão ou que o assunto seja exaustivamente debatido, sabe? Isso mostra que eles são apenas pessoas normais no cotidiano, vivendo suas vidas, e considero isso muito importante*.

Apesar das ressalvas que deixei claras, é um livro que eu recomendo! Gosto demais da oportunidade que a literatura nos oferece de entrar em contato com assuntos que poderíamos passar a vida toda desconhecendo – eu nunca tinha ouvido falar dessa doença, e tampouco tinha lido algum livro que retratasse um protagonista com alguma doença degenerativa do ponto de vista dele mesmo. Lara foi ousada, e até talvez por isso tenha cometido os erros estilísticos que eu apontei**, mas ninguém disse que a ousadia não é uma excelente qualidade.

*Quis apontar esse assunto, mas entendo que não tenho lugar de fala, e se alguém discordar pode, por favor, me corrigir nos comentários!

**”Erros” que eu apontei de acordo com a minha visão e opinião, não tenho gabarito pra dizer oficialmente que alguém errou ou não em sua própria obra.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.