O lado da música que você não vê


Texto: Ariel Carvalho

Um ano depois de terminar a faculdade, aos 16 anos, Cameron Bruce Crowe começou a escrever para a revista Rolling Stone, se tornando o colaborador mais jovem da história da revista. Por gostar de bandas “jovens” dos anos 1970, que não eram do estilo dos contribuidores mais velhos, ele acabava ficando com as entrevistas mais legais.

Além de entrevistar pessoas fantásticas como Bob Dylan e David Bowie, Crowe conseguiu uma matéria de capa com a Allman Brothers Band. Para a matéria, ele saiu em turnê com a banda e, não satisfeito em entrevistar todos os integrantes, entrevistou também a equipe técnica.

Talvez a história pareça familiar, porque essa experiência serviu como inspiração para o seu filme de 2000, “Quase Famosos” (aquele com a Kate Hudson e a Zooey Deschanel). Apesar de Cameron virar uma personagem chamada Will, a grande protagonista da história é a música.

tumblr_m08kg6a0bt1qhm0qco1_1280

Mas “Quase Famosos” não foi a primeira – e nem seria a última – vez que Cameron Crowe usou a música como um ponto principal de um projeto seu. Em 1992, ele dirigira “Singles” (traduzido como “Vida de Solteiro”), que se passava na Seattle dos anos 1990, no berço do grunge, e o filme ainda conta com a participação do Pearl Jam e do Soundgarden em peso.

singlesshot

Cameron (à direita, na frente) e parte do elenco de Singles

Após “Quase Famosos”, Crowe ainda dirigiu um documentário sobre os vinte anos do Pearl Jam, mas a sua obra mais importante com relação à música é a série “Roadies”.

Como o próprio nome já diz, a série acompanha os roadies nos bastidores de uma turnê de uma banda fictícia, a Staton-House Band. A cada episódio, uma nova lista de músicas é disponibilizada, e uma delas é eleita como música do dia.

É óbvio que Cameron toma algumas liberdades e romantiza um pouco a vida de quem está por trás dos shows que nós tanto gostamos, mas a série é maravilhosa e foca em um grupo ainda pouco explorado pela ficção.

Mas afinal, o que é um roadie? No geral, o termo é usado para designar aqueles de preto que sobem ao palco antes da banda tocar. Ou os que sobem alturas absurdas para ajustar uma luz no alto do palco, mas dá para dizer que os roadies são aqueles responsáveis por todos os bastidores dos shows, desde encontrar um novo artista para abrir o show, demitir alguém da equipe para cortar gastos até lidar com um amplificador danificado.

roadies2

No tumblr da série, você encontra entrevistas com diversas pessoas do ramo, explicando o que fazem, por que fazem e como fazem. Inspirada pela ideia, conversei com Felipe Almeida, da Viturino Produções (você pode conferir mais sobre seu trabalho aqui).

Como é o seu dia a dia de trabalho?

Hoje eu trabalho duas horas por dia em 3 dias da semana, em dois shoppings diferentes na Grande Vitória. Geralmente é muito agitado por causa do deslocamento de casa até o local de trabalho. Mas o trabalho em si costuma ser bem tranquilo, porque geralmente trabalho com músicos que também são meus amigos.

Conte um pouco sobre a sua trajetória profissional.

Em 2015 fui dispensado de uma empresa na qual trabalhei por 3 anos por conta da crise, e eu já estava com o propósito de voltar a estudar, então optei pelo curso de Rádio e TV no Ceet Vasco Coutinho (Vila Velha), e comecei a ter contato com várias pessoas diferentes e pessoas ligadas à música. Em outubro de 2015, fiquei sabendo de uma oficina para Roadie que iria acontecer na UFES, fui até lá e me inscrevi e conclui o curso. Através da oficina conheci o Eliomar Viturino, que foi Roadie por vários anos da banda Mahnimal, e através dele pude trabalhar para várias bandas (tanto locais como nacionais: Cidade Negra, Planta e Raiz, Ratos de Porão, Krisiun, Sepultura, Dead Fish, Preta Gil, Raimundos e Emicida).

Qual a melhor e a pior parte do seu trabalho?

Estar com pessoas que têm prestígio, músicos que representam a nossa música. E com certeza é receber elogios dessas pessoas, quando no final de cada show ou evento alguém chega e te agradece ou faz algum comentário sobre o seu trabalho. É através disso que sei que a missão foi cumprida. De vez em quando também recebo pessoas mal humoradas é isso não é muito legal, ou alguém que tenta dificultar o trabalho; isso causa um desconforto muito grande em alguns casos.

Você acha que existem mitos sobre o trabalho dos roadies?

Muitos dizem que Roadies de bandas geralmente só estão em boas gigs e trabalham porque são amigos dos músicos, no meu caso foi bem diferente, tive que buscar qualificação para chegar onde cheguei e dificilmente eu acredito que alguém me contrataria pra trabalhar se eu não estivesse pronto para atendê-las bem. Essa é uma profissão de confiança. A forma de tratar as pessoas à sua volta também abre portas, e essa foi a dica mais importante que aprendi na oficina de Roadie.

"Eu acho que o público geral não faz ideia do que fazem os roadies. Sejam todos abençoados. Eu só toco as músicas. Eles fazem o show acontecer."

“Eu acho que o público geral não faz ideia do que fazem os roadies. Sejam todos abençoados. Eu só toco as músicas. Eles fazem o show acontecer.”

Compartilhe:

Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.