O Intelectualismo na arte contemporânea


Texto: Anna Lívia M. // Foto: "Divina Proportio", Ai Weivei *

CENA 1 – INT/DIA – Sala de Aula (ano: 2010)

É o primeiro dia de aula na faculdade de Audiovisual. Os alunos sentam numa roda e cada um se apresenta falando seu nome e filme/diretor favorito. Todo mundo imediatamente começa a citar nomes como Kubruck, Fellini, Alain Resnais. Os nomes menos “intelectuais” jogados pelo grupo ainda são do escalão de Hitchcock e Scorsese…

A jovem Anna Lívia, de então 18 anos, sabe quem seu diretor preferido é: Truffaut. Foi por causa da série de filmes sobre Antoine Doinel que ela decidiu estudar cinema. No entanto, ver todo mundo ali, naquele hiper-intelectualismo, como se fosse uma competição de cuspe pra ver quem sabe mais que quem, a deixa tremendamente irritada.

ANNA LÍVIA:

Olha só, o meu diretor favorito é o Truffaut,
mas eu também assisto reality show e novela e muita
coisa trash. Aliás, eu adoro um bom programa ruim,
acho esse papo de quem só gosta de coisa intelectual um saco.

 

CENA 2 – INT/DIA – Sala de aula (ano: 2016)

Vemos Anna Lívia de volta em sala de aula, dessa vez ela está mais velha, 24 anos e fazendo seu mestrado em Artes. Outras pessoas na sala tem cerca de 40 anos de idade e trabalham com Artes Plásticas há anos.

Eles discutem arte e acessibilidade, ou como a linguagem da arte as vezes apresenta uma barreira. Numa tentativa de demonstrar que arte pode ser discutida com profundidade e consideração usando uma linguagem fora do mundo artístico, Anna compartilha um vídeo do John Green falando sobre Ai Weiwei onde ele diz que “Ai Wei-Wei é possivelmente um dos artistas contemporâneos mais importantes”. A classe inteira ri

ALUNO 1:

HAHAHAHA, esse cara não sabe nada de arte,
como ele pode achar que Ai Wei-Wei é o artista
contemporâneo mais importante ?

ALUNA 2:

Ele diz que a mulher dele é curadora de arte e
foi ela quem organizou a exposição que ele está comentando.
Como será que ela se sente vendo ele falar uma coisa dessas?

ALUNO 3:

Hahaha, Anna, esse foi um bom exemplo mesmo
de como esse cara não sabe nada do que está falando.

Anna, novamente na defensiva, tenta explicar que o público alvo desse vídeo são jovens adolescentes que provavelmente nunca nem ouviram falar de Ai Weiwei e que tornar arte relevante e interessante na vida dessas pessoa é, possivelmente, muito mais importante do que qualquer intelectualismo e critica formal que eles tenham a fazer sobre Ai Wei-Wei dentro do paradigma da arte contemporânea. Ninguém a ouve, todos riem. Ela fica em silêncio o resto da classe.

FIM.

O mundo das artes é cheio de privilégios. Não só por uma questão socioeconômica (que é gigantesca e algo que requer muito mais do que só o meu texto para discutir) de acesso à informação e capacidade de entrar nos ambientes de museus e galerias ou conseguir se sustentar puramente trabalhando de/com arte; há também uma luta interna entre quem sabe mais, quem tem “razão”. Existe aí um privilégio intelectual – que claramente vem acoplado ao privilégio socioeconômico – de que, para se discutir arte, há que já saber sobre arte. De que para criticar algo, é preciso utilizar os jargões do meio: pós-contemporâneo, liminal, fenomenologia, efêmero…

Essa linguagem artística é tão exclusionária que muitas vezes até os próprios artistas a veem esvaziada de significado. Um bom exemplo disso é o site ARTY BOLLOCKS, que gera um texto automático explicando as referências por de traz de uma determinada obra, quase como um auto-texto curatorial.

Quando começamos a discutir arte de uma maneira que somente pessoas que já estudam/entendem sobre isso conseguem compreender, estamos limitando o nosso circulo de conversa. Criamos uma bolha-artística que barra uma visão diversificada do que é ou não relevante para o mundo (das artes e em geral).

Não quero dizer que essas discussões não devam existir. Claro que devem! Especialmente no âmbito da alta-academia ou filosofia, discutir questões como niilismo contemporâneo ou aceleracionismo na arte sem tornar a linguagem mais elevada e abstrata me parece uma missão semi-impossível. O que eu quero dizer é que existe nos meios artísticos a ridicularização de tudo que NÃO é esse padrão.

O problema não está em discutir a “subversão do corpo como espaço liminal e de encontros na pós-arte” (hahaha, viu? eu nem mesmo sei o que essa frase quer dizer, mas certeza que você achou que eu estava falando uma coisa real!), o problema está em acreditar que essa é a única maneira de se falar sobre arte e menosprezar qualquer maneira de torna-la mais acessível.

O alto-intelectualismo no mundo das artes é nocivo pois cria uma péssima primeira impressão e dificulta a entrada de qualquer pessoa de “fora” desse meio. Eu trabalhei por algum tempo em arte-educação, levando grupos de jovens de colégios públicos e particulares por museus e tentando conversar com eles sobre arte. O que todos eles tinham em comum? Eles não entendiam qual a relevância que aquilo tinha para a vida deles.

Quando passamos a discutir novela como arte, quando conversamos sobre como a foto que tiramos da obra com o nosso celular não é a obra, mas uma nova coisa na qual se reflete espectador, fotografo, obra e o espaço do museu (para justamente não usar a palavra “museológico” ou, ainda pior, o subentendido “cubo branco”), quando fazemos vídeos no youtube usando a exata mesma linguagem que usamos sempre para falar porque Ai Weiwei é interessante, é aí que começamos a abrir as portas do mundo da arte para pessoas que sentiam medo dela antes.

Eu mesma, nas cenas apresentadas no começo desse texto me senti tremendamente acuada e na defensiva, como se minha opinião não valesse ali, como se eu fosse “menor” que o resto, simplesmente porque minha linguagem e meus gostos não eram no mesmo padrão de intelectualismo – e eu sou uma pessoa que cresceu com extremo contato com a arte, com artistas e escritores andando pela minha casa. E mesmo assim o mundo da arte me assusta. Vir do mundo do cinema e fazer um mestrado em artes plásticas foi tremendamente difícil, parcialmente porque existia uma barreira linguística/intelectual/de privilégios que eu achava difícil de quebrar. Arte não tem que ser assustadora. Arte não tem que ter jargão certo para pode ser discutida. Você não necessariamente precisa saber toda a história da arte e compreender todas as referências que aquele trabalho especifico faz para ser capaz de se engajar com ele, de estar ali, presente, e sentir algo.

* Foto por Kulttuurinavigaattori, disponível no link

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Sobre Anna Lívia

Uma paulista com coração mineiro que gosta de fazer filmes e contar histórias, Anna é Mestre-de-Artes em Processos Criativos e trabalha como produtora e assistende de direção de cinema e afins.

  • Tayná Zahlouth

    Adorei o texto <3

  • Fabio Oliveira

    Quem tem mais autoridade: um mestre em pesca pela PUC ou um pescador?