O guia definitivo para escrever o outro sem parecer um idiota


Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma ressalva ao título: ele é mentiroso. Mas agora que já tenho a sua atenção graças ao clickbait, vamos aos fatos. Não há nada de definitivo sobre esse humilde guia. Esta é provavelmente a coisa mais subjetiva e delicada que já escrevi; não há qualquer consenso, apenas bom senso. Além disso, eu não posso garantir que você não vá parecer um idiota, porém prometo fazer o meu melhor.

O outro é aquele que não é você. Na ficção, estamos sempre escrevendo o outro, ainda que ele esteja impregnado pela nossa percepção. Um extraterreste verde musgo preparado para destruir a Terra com seu raio laser é o outro. Uma rainha élfica trançando seu cabelo platinado enquanto reflete sobre a imortalidade é o outro.

Contudo, esse personagem nem sempre pertencerá a um cenário intrincado de ficção científica ou high fantasy. Ele nem sempre será uma tela em branco na qual você pode despejar suas vivências e criar suas próprias regras. Caso você seja um homem branco vivendo em São Paulo no século XXI, o outro pode ser uma mulher negra nessa exata conjuntura. Caso você seja uma mulher cisgênero, o outro pode ser um homem transexual. Aí a coisa fica mais desafiadora: não basta pensar que somos todos seres humanos e ignorar as relações de poder e privilégio que nos afetam de formas tão distintas. O pano de fundo pode alterar a forma como amamos, como comemos, como sonhamos. A pergunta é: como arquitetar um personagem cujas experiências são tão distintas de forma que ele não pareça um estereótipo unidimensional?

1 – Observar e pesquisar não são o bastante

Escrever é simultaneamente um processo de autoconhecimento e de transcendência do ser, porque mesmo quando falamos do outro, estamos falando de nós mesmos: da forma como percebemos o outro. Observação não é o bastante porque o escritor não pode deixar suas lentes de lado ao enxergar o diferente. Mesmo inconscientemente, suas interpretações estarão sujeitas à sua vivência e aos seus preconceitos. Mais do que observar, é necessário exercitar a alteridade. Na filosofia e na antropologia, alteridade refere-se à habilidade de assumir a perspectiva de uma experiência que não é a sua. É uma ideia fascinante, e talvez impossível, que convida a pessoa a se despir de si mesma e cobrir-se com outra pele. Parece ser o mais alto grau de empatia que se pode atingir – bem ambicioso, não? E “empatia” não inclui apenas a compreensão emocional e social de algo ou alguém com quem você se identificaria normalmente. Assim é fácil! A alteridade demanda que o ser procure se colocar no lugar mesmo de quem tem atitudes que, para ele, seriam repreensíveis. É um exercício complexo, mas que pode ajudar o autor a se aproximar do outro.

2 – Shh. Ouça!

Parta do princípio de que você não sabe de nada. Converse com amigas e amigos que tenham perfis parecidos com os do seu personagem, conte o que está pensando e ouça o que eles têm a dizer. Escutar pessoas queridas que têm propriedade no assunto faz com que o outro deixe de ser uma abstração filosófica, um projeto, e passe a ser uma pessoa.

3 – Não seja condescendente ou paternalista

Sabe o que é tão ruim e maniqueísta quanto demonizar um personagem e suas atitudes? Elevá-las a um pedestal inacessível e sobre-humano. De qualquer um dos jeitos você obtém uma figura superficial e um estereótipo ofensivo. Alguns clichês muito famosos aplicados às artes são as convenções do “bom selvagem” – o personagem indígena nobre, gentil e inocente –, do “negro mágico” – o personagem afrodescendente dotado de grande sabedoria e humildade – e da pessoa com deficiência física sendo tratada como um heroico exemplo de superação. Ainda que essas figuras caricatas possam ser fruto da imaginação de um autor bem-intencionado, elas reduzem a complexidade de tais grupos. É desumanizante. Quase sempre, esses personagens são tokens, ou seja, figuras que não cumprem uma grande função na narrativa a não ser criar a falsa ilusão de diversidade.

4 – Sentimentos são universais, mas a forma como os experimentamos, não

Amor e medo são partes integrais da experiência humana, mas a forma como você vai experimentá-los depende da sua trajetória. Uma vítima de abuso infantil vai conhecer o amor de uma forma; um criança adotada, de outra. Nossas vivências são únicas e influenciam na maneira como nos relacionamos com nós mesmos e com o mundo. Conheça o seu personagem.

5 – Isso não é só sobre você

Preocupar-se com diversidade na literatura é importante, mas não faça isso pelos louros ou pelo desafio. Representatividade é algo essencial para grupos minoritários que são invisibilizados diariamente. Se quiser embarcar nessa jornada, esteja ciente da sua responsabilidade. Suas palavras podem ser um sopro de esperança ou uma repetição cruel do status quo para alguém. Isso pode efetivamente ferir uma pessoa.

6 – Não existe uma história única

A experiência de um grupo de pessoas que carrega algo em comum não será a mesma. Acreditar nisso é ignorar a ação de diversas forças transversais que constituem o ser. Não há nada homogêneo nas vidas de mulheres; reflita sobre isso ao conferir nuances e características definidoras aos seus personagens. E não pense que só porque uma pessoa pertence a uma camada menos privilegiada ela gostaria de ser retratada como uma vítima frágil e indefesa.

7 – Não acredite nem por um segundo que você vai agradar a todos

Mesmo tendo feito tudo que estava a seu alcance, você não está imune a críticas. Não existe um consenso em relação a isso; as mulheres não se reúnem uma vez por mês no clube-para-decidir-se-homens-escrevem-bons-personagens-femininos. Isso significa que sua obra pode provocar revolta em alguns indivíduos. Ainda que discorde, ouça seus motivos e procure assimilar a mensagem. Essas percepções são legítimas, uma vez que o livro finalizado pertence principalmente ao leitor.

Não existe um livro de regras, mas esses são bons princípios norteadores da prática. Há, contudo, uma última consideração: dê preferencia às vozes dos autores que são constantemente calados. Se você procura uma ficção que aborde sexismo, racismo ou homofobia, dê prioridade a obras escritas por mulheres, pessoas negras ou pessoas queer. Isso não significa pedir que você ateie fogo em livros de autores que não experimentaram diretamente tais opressões. É apenas uma questão de contribuir para que grupos minoritários não sejam apenas o objeto da escrita, mas também os autores de suas próprias histórias.

Compartilhe:

Sobre Lorena Piñeiro

Lorena tem 26 anos e mora no Rio de Janeiro, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos e cinematográficos, enquanto reúne coragem para investir em suas próprias ideias irrequietas. Gosta de boas narrativas em todas as mídias e formatos, cartões postais de lugares distantes, planetários e filhotes. Não gosta da supervalorização do cinismo e da apatia. É 70% Corvinal e 30% Lufa-Lufa.