O filme favorito da minha mãe


Texto: Tammy Moraes

Quando eu era criança, meu maior desejo era mudar de nome. Apesar de meus pais o terem escolhido antes mesmo de eu nascer, não conseguia me acostumar. Sempre precisei repetir e soletrar quando me perguntam, além de ter aguentado as mesmas piadas e apelidos relacionados a ele durante a vida inteira.

Foi somente na adolescência que pensei em perguntar de onde diabos minha mãe tinha tirado essa ideia. Como uma boa contadora de histórias, ela fez questão de montar um cenário antes da revelação:

“Quando ainda éramos pequenas, eu e sua tia escolhemos juntas os nomes de nossas filhas. Nos inspiramos nas personagens de nossos filmes favoritos. Passávamos horas na frente de nossa velha televisão assistindo-os em preto e branco. O seu, Tammy, veio de A Flor do Pântano.”

Essa resposta me surpreendeu. Não esperava que meu nome tivesse um significado tão importante para minha mãe. E a inspiração não viera da Gretchen, afinal.

Depois da descoberta, criei o hábito de sempre reparar nas Tammys dos filmes assistidos por mim. Quando encontrava uma com alguma semelhança comigo, mesmo pequena, era um triunfo. Foi o caso de Eleição (1999), onde a lésbica “esquisitona” Tammy Metzler bagunça a ordem dos alunos populares ao se candidatar à presidência escolar.

Assisti A Flor do Pântano (ou Tammy and the Bachelor no original) somente aos 22 anos. Apesar de ter tido a possibilidade de conferir antes, por alguma razão resolvi esperar pelo momento certo. Sempre tive expectativas em relação ao filme. Será que a Tammy e eu seríamos parecidas? E se no final eu não gostasse dela? Como explicaria isso para minha mãe?

Quando o grande dia chegou e finalmente decidi dar o play, a primeira coisa ouvida foi o trecho da música de The Ames Brothers, enquanto os créditos passavam: “I hear the cottonwoods whispering above, Tammy, Tammy, Tammy is my love.”

Nos primeiros minutos de filme, vi uma jovem Debbie Reynolds de calças curtas correndo sem sapatos em um pântano. Em certo momento, ela se aproxima da beirada do rio para ver seu reflexo e… Faz careta. Logo ali, algo me dizia: eu teria sim algo em comum com aquela personagem.

Conforme o filme passava, descobri que Tammy morou no pântano com seus avós a vida inteira. Enquanto conversa com sua cabra, Nan, a personagem transparece o desejo de desbravar o mundo. É pela queda de um avião que sobrevoava próximo ao pântano que aparece Peter, interpretado pelo jovem bonitão Leslie Nielsen.

Com seus costumes de “cidade grande”, ele desestrutura a pacata rotina de Tammy, e desperta cada vez mais sua vontade de descobrir a vida além do pântano. O desenvolvimento da relação dos dois personagens pareceu impossível após a recuperação e partida de Peter.

Mas, depois da morte da avó e prisão do avô, Tammy se vê desamparada e parte rumo à cidade. Em uma promessa feita ao avô de Tammy, Peter se torna responsável pela jovem, e seus pais a aceitam como nova moradora da residência da família.

A inocência e pureza de Tammy se destacam em meio aos costumes cosmopolitas. Por levar tudo ao pé da letra e não compreender ironias e gírias, a personagem se mete em várias confusões, sempre tratadas com bom humor. É justamente por não obedecer às convenções sociais que Tammy se torna uma figura autêntica. Mesmo com a pouca idade e experiência de vida, ela está sempre preparada para oferecer um ditado sábio a quem precisar.

Depois de rir e chorar com as aventuras da personagem, respirei aliviada por ter adorado a história. Também pude finalmente compreender porque aquele filme era tão especial para minha mãe. E o hábito de nomear os filhos em homenagem aos personagens favoritos parece não ter se perdido com o tempo. Nos últimos anos, diversos cartórios registraram Khaleesis e Aryas pelo mundo .

Analisando o contraste de gerações entre minha mãe e eu, me peguei imaginando-a pequena, sentada em frente a uma televisão com imagem em preto e branco, esperando o horário do filme começar. Já eu, apenas digitei algumas palavras, apertei botões e logo assisti ao longa em cores, na melhor resolução disponível.

Mesmo assim, A Flor do Pântano, de 1957, impactou a nós duas de forma singular, se mostrando um romance atemporal. O filme favorito de minha mãe se tornou também o meu e eu pude, finalmente, fazer as pazes com meu nome.

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