“O fazedor de velhos”, Rodrigo Lacerda


Texto: Analu Bussular

Pedro está no final da adolescência, naquele período delicado de terminar a vida escolar e ingressar numa faculdade que ele ainda não conseguiu escolher direito. Ele é um garoto normal, privilegiado, que pode se dar ao direito de ter dúvidas, de perder horas confabulando sobre sua própria existência e também, é claro, de dar um peso muito grande para suas mágoas cotidianas que no momento são definidas pela Ana Paula, uma amiga por quem ele era apaixonado mas que o colocou na friendzone e apareceu com outro no baile de formatura.

Sim, O Fazedor de Velhos é o típico romance de formação branco-cis-hetero, mas esse tipo de história também é possível, desde que não seja a única que escolhamos para ler sempre. E a gente chega a ter preguiça do Pedro por seus probleminhas de classe média se esquecemos que, bem ou mal, todos temos direito a darmos ouvido aos nossos próprios dramas e a querer que o mundo acabe e todo mundo se lasque só porque o crush não nos deu bola e/ou ficar filosofando sobre quais das nossas características são realmente nossas e quais são produtos do meio em que viemos.

Ele começa o livro contando, por exemplo, que não lembra direito quando foi que tomou o gosto pela leitura, pois tem a sensação de que seus pais lhe enfiaram livros garganta a baixo desde sempre, mas o fato é que ele gosta disso e acaba relacionando muita coisa do que vive com a literatura, o que, é claro, vai acabar ditando o desenrolar da história.

Em sua noite de formatura, amargo pelo bolo que acredita ter levado de Ana Paula, Pedro só quer que tudo aquilo termine logo e acaba sendo o único aluno a gostar do discurso de um professor convidado, que estraga os ânimos de todo mundo falando umas verdades sobre a passagem do tempo e sobre o envelhecer. Ninguém ali aos 17 anos queria ouvir isso, o que deixa Pedro animado: depois dessa, a noite de todos seria péssima, não só a sua. Mas como tudo passa, essa noite também vai embora junto com seus anos de escola – e então Pedro começa a se deparar com outras vivências, outros dramas e outras dúvidas.

Em um momento de desespero por não se sentir pleno na faculdade escolhida (história), ele pede ajuda a um professor amigo, que o encaminha a outro colega, que Pedro descobre ser justamente o professor convidado que havia feito o tenebroso discurso em sua noite de formatura e então Nabuco, o fazedor de velhos que dá título ao livro acabará colocando o garoto em prova para saber a que ele veio e porque ele não anda “se encontrando”.

Alerta de Spoiler a seguir!

O resultado a que ele acaba chegando é o de que Pedro não vai se encontrar em lugar nenhum, pois sua alma é de um artista/inventor e sua realidade é a ficção. Nabuco sugere que ele termine história, pois já começou mesmo e nenhum outro curso vai ser melhor ou pior já que ele não vai conseguir se encontrar na faculdade. Depois de levar esse empurrão, ele é instigado então a se desenvolver nessa área, tentando escrever e tendo a possibilidade de criar novas realidades.

Curiosamente esse livro caiu na minha mão no mês da edição em que a Pólen está falando sobre arte, e acredito que é muito real isso da dificuldade dos artistas em se encontrarem em qualquer praticidade estabelecida na vida cotidiana. Já dizia Ferreira Gullar, afinal de contas, que a arte existe porque a vida não é suficiente, e as pessoas mais relacionadas com a arte sempre acabam tendo essa sensação de irrealidade em relação à vida. Nos últimos tempos descobri, até, que pessoas que possuem o lado criativo mais aflorado tem mais chances de sofrer de depressão e ansiedade que as outras e isso infelizmente faz sentido. Talvez seja um preço a se pagar, se é justo ou não eu não consigo decidir sozinha, mas aparentemente é um fato.

Artistas tem muitas dúvidas. Artistas tem dificuldade em se encontrar nas opções práticas e cotidianas, artistas querem mudar o mundo, querem dar ao mundo, como dizia Jean Cocteau, essa poesia indispensável que na verdade não se sabe para que serve (mas serve!).

O fazedor de velhos é um livro fino e rápido de ler, mas que vai causar mais reflexões do que você imagina. Uma leitura que parece besta, e talvez seja, mas que eu recomendo, principalmente a todos os que tem alma de artista. Se sentir ao menos um pouco compreendido é sempre um presente.

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analubussular@hotmail.com'

Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.