O Fantasma da Minha Casa


Texto: Maria Raquel Silva // Arte: Gabriela Schirmer

A casa em que moro é antiga. Do tipo assoalho de madeira corrido de ponta a ponta do cômodo, afundando em alguns locais. Área na frente e porta de madeira pesada com postigo. Vazamentos de cano constantes e reformas intermináveis. Um quartinho no fundo do quintal. Quadro de gente que já morreu na parede da sala que parecem seguir seus movimentos com os olhos desaprovadores. Um porão obscuro com portinhas de madeira e janelas basculantes impossíveis de enxergar o que tem lá dentro.

Estou convencida de que há um fantasma em minha casa. Não só convenci a mim mesma como também aos outros moradores. Em algum momento passado deixei de ser apenas eu a falar do fantasma e todos os outros começaram a acreditar que ele também existe. Dizem que a casa é assombrada. Só porque as portas abrem sozinhas, a luz pisca na cozinha num ritmo frenético de vez em quando e o assoalho range sem que ninguém esteja no cômodo. Os armários teimam em ficar abertos e pequenas coisas somem diante de nossos olhos.

Eles temem tanto o fantasma que pediram que um padre viesse benzer a casa. Jogaram água benta. Rezaram, oraram, fizeram novena a todos os santos que se possa imaginar. Deixaram a TV ligada 24 horas no canal católico. Na mesma madrugada a porta do guarda roupa abriu sozinha e uma pasta caiu de lá de dentro. Botei a pasta de volta e fechei o armário. Fui dormir em seguida.

Não tenho medo do fantasma. Talvez porque seja eu quem afirmou: “Tem um fantasma nesta casa”. Venho falando continuamente dele desde então. Talvez porque sinto que o fantasma não me faria mal. Ao contrário. Apesar das peças que o fantasma prega, sinto que quer meu bem. Mesmo que se divirta me deixando irritada madrugada sim madrugada não.

É impossível saber a quanto tempo o fantasma está aqui. Talvez a mais tempo que eu. Talvez ele tenha aparecido depois de alguns meses em que comecei a não sair mais de casa. Eu e o fantasma somos muito parecidos, embora ele não tenha gênero, forma ou espectro. É apenas energia de fantasma.

Me vejo no fantasma. Sozinha, sem conseguir me comunicar direito com os outros, os olhando lá fora vivendo suas vidas.  Às vezes penso no porquê do fantasma não ir para o além. Não continuar seu caminho para onde as almas vão depois que morrem. E então penso em mim mesma, sem nunca sair daqui. Será que, como eu, ele teve oportunidades de deixar esta casa mas não o fez por falta de vontade? É provável que o fantasma se sinta tão seguro quanto me sinto aqui dentro?

O mundo é grande demais, desconhecido e estranho; as pessoas são cruéis e tediosas. Não há nada para mim lá fora. Não deve haver nada para o fantasma também além desta casa. É tudo que nós dois temos. Esta casa e um ao outro. Mas espero que o fantasma consiga continuar sua jornada um dia. Isso quer dizer que existem esperanças para mim. Se até os mortos continuam, para os vivos deveria ser mais fácil. Mesmo que muitas vezes não pareça.

Compartilhe:

silva.mariaraquel@gmail.com'

Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.