O doloroso processo de um diagnóstico


Texto: Isabel Moraes

Assim como qualquer outro serviço médico, o diagnóstico de uma doença mental é um privilégio – um privilégio doloroso, mas um privilégio. Ter acesso aos serviços de um psiquiatra ou psicólogo não é difícil apenas por motivos financeiros (embora esta seja uma problemática central) mas também por todas as questões cercando transtornos mentais. O estigma do louco, crenças religiosas ou pessoais e a falta de conhecimento são todos fatores a serem pesados quando falamos de um diagnóstico e tratamento para doenças como depressão e ansiedade (cada vez mais discutidas) e mais ainda em casos crônicos.

O diagnóstico como privilégio foi um daqueles conceitos me apresentados pelo Tumblr – que, como é frequente, não parece fazer sentido no começo; até me ganhar, pouco a pouco. Me senti com minha pequena bolha estourada: se foi difícil para mim (que passei por toda essa caminhada com auxílio profissional e a validação social que isto implica) como esse tal de autodiagnóstico funcionaria?

Voltemos a 2016: depois de algumas crises pesadas, finalmente iniciei a terapia, com uma psicóloga maravilhosa que, por motivos próprios, não dava rótulos aos meus sintomas, trabalhando-os com a unicidade que merece cada sujeito que passa por sofrimento psíquico. Rótulos, porém, são agradáveis – nossa forma demasiado humana de classificar o mundo e torna-lo menos confuso – e eu travessamente passava horas lendo páginas no WebMD a respeito de doenças mentais, explorando também os milhões de resultados assustadores que o Google me oferecia.

Quando a coisa apertou ao ponto de eu precisar de ajuda psicofármaca, porém, ganhei a não desejada porém esperada tag: uma mistura de depressão com transtorno de ansiedade, teoricamente tratável com um ocasional tarja preta para provocar o sono e um antidepressivo que custava metade de um salário mínimo.

Mesmo depois de alguns meses (e um progresso terapêutico considerável, mas não suficiente por si só) o tratamento não parecia fazer efeito, e em busca de um médico um pouco mais atencioso, comecei a ir em outro psiquiatra. De início, o diagnóstico era o mesmo; mas com o detalhamento progressivo dos sintomas ao longo de duas consultas uma possibilidade foi levantada: transtorno bipolar.

Os membros do Clube Van Gogh (os especialistas acreditam que o pintor era bipolar de acordo com os registros históricos) não têm, contrariando a crença popular, duas personalidades. O transtorno é principalmente marcado por extremos de humor, variando entre a já conhecida depressão e a fases de mania ou hipomania – o termo médico para um estado de euforia extrema. Poderia dar explicações um pouco mais detalhadas ou técnicas, mas esses highs são como estar usando drogas pesadas sem gastar um centavo; o cérebro funcionando a 120 km/h; o sono desnecessário; os limites bobos – você é um semideus, não é? O gosto disso é tão, mas tão bom que é perigoso para qualquer um conhecer essa sensação – mas os períodos depressivos e o potencial destrutivo da (hipo)mania não compensam, fazendo uma vida sem tratamento perigosa – ao menos na minha opinião.

Os bois, portanto, foram nomeados; me identifiquei com alguns dos sintomas e contei com a internet para encontrar uma comunidade de pessoas parecidas comigo. Os remédios certos e a chamada “estabilidade” ainda estão por vir – mas esse é um assunto para outro texto.

A questão é que, depois de percorrer esse caminho todo, não me sinto remotamente no direito de julgar meus amigos autodiagnosticados do Tumblr. Entendo os perigos ideológicos e práticos disso: alguém um pouco mais sugestionável pode demonstrar sintomas sem tê-los após se identificar com um comportamento ou dois de determinado transtorno; além disso, há uma propensão maior a automedicação. Tenho a validação do saber formal em meu diagnóstico mas ainda sou questionada – quem nunca ouviu um coleguinha discorrer, durante horas, sobre como você é maravilhosa demais para ter um transtorno mental – como se as duas coisas não pudessem coexistir? Para aqueles que não têm suas tags carimbadas por um médico, a situação ainda é mais crítica; mas se existe algum conforto em se encaixar em um panorama de sintomas e encontrar gente que sente o mesmo, como posso criticar? Em um mundo ideal isso não seria necessário; no nosso mundo, porém, redes de solidariedade entre iguais muitas vezes são acessórios essenciais à sobrevivência.

O fato é que estamos adoecendo como geração – e só um punhado de sortudos tem tratamentos fazendo as vezes de muletas enquanto aprendem a viver com seus transtornos. Via de regra, porém, milhões estão passando por isso sozinhos, assustados, sem ajuda profissional e provavelmente sem o apoio de amigos ou familiares. Só falam de nós em setembro, com ofertas de empatia por inbox que, embora bem-intencionadas, provavelmente surtem pouco efeito real. Nos outros onze meses do ano, somos negativos, frescos, fura-rolê, preguiçosos – no caso das mulheres, até mesmo histéricas, loucas, dignas de pouca confiança.

Acredito no poder transformador da palavra; mas nunca teria a pretensão de, como uma mera mortal com um teclado, confortar alguém que também sofre com uma doença mental. Repito para vocês, portanto, o que sempre repito para mim mesma: acordar de manhã já é um milagre. E tudo bem fazer disso sua obra prima.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.