O Casamento do Meu Melhor Amigo: subvertendo noções de romcom


Muitos consideram o final dos anos 90 e começo dos anos 2000 como a Era de Ouro das comédias românticas (romantic comedy em inglês, comumente abreviado para romcom). Embora na teoria essa tenha sido uma Era de Prata – a de Ouro sendo os anos 40/50 com My Girl Friday, All About Eve, entre outros sucessos – é nessa época que foram apresentadas ao público romcoms que ficaram em nossa memória como as melhores do gênero.

Meg Ryan, Sandra Bullock, Julia Roberts, Reese Whiterspoon, todas tiveram o sucesso de suas carreiras originado no período, interpretando mocinhas apaixonadas que se envolvem em situações engraçadas. Mas um desses filmes se destaca dos outros justamente por ser uma “anti” comédia romântica disfarçada de romcom.

Estrelada por Julia Roberts no papel principal e tendo Cameron Diaz como “a rival”, O Casamento do Meu Melhor Amigo divide o público que gosta do gênero. Muitos odeiam o filme por seu final, muitos adorando justamente por ele. Mas todos concordam ser um clássico entre as comédias românticas, se encaixando perfeitamente no gênero: cenas de romance e comédia que se complementam.

Roberts interpreta Julianne, ou Jules, uma crítica gastronômica. Não se sabe muito de sua vida, apenas que tem um melhor amigo gay, George, também editor de seu livro; e que os dois moram em Nova York. Talvez a subversão comece já aí. É comum em outras obras do gênero que se apresente tudo sobre a vida da mocinha e do mocinho: trabalho, família e amigos são dissecados até os mínimos detalhes para que eles nos pareçam mais humanos. Mas pouco sabemos sobre Jules e sua vida em Nova York.

Esse deveria ser um sinal que não estamos lidando com uma romcom qualquer. Já no início temos a troca de traços, onde a vilã é apresentada primeiro, aos moldes de mocinha. A falta de informações sobre Julianne pode ser percebida não como uma falha no roteiro, mas sim como uma troca de papéis. Em O Casamento do Meu Melhor Amigo, a vilã é a personagem principal. A “mocinha” é a vilã.

Jules recebe uma mensagem de seu melhor amigo e ex-quase-“às vezes pego”-namorado. Michael (Dermont Mulroney) e Jules se conheceram na faculdade e fizeram aquele famoso pacto de “se não estivermos casados até X anos, nos casamos um com o outro”. É um tanto suspeito, mesmo para a época, que o X dos dois seja 28 anos, mas estamos falando sobre a terra das comédias românticas; onde a maioria das noções reais que funcionam em nosso mundo deve ser deixada de lado em benefício da narrativa.

Julianne pensa que Michael está ligando sobre os dois se casarem, já que o aniversário de 28 anos da moça será em algumas semanas. Como ela estava viajando durante meses em um booktour, ele não conseguiu falar com ela. Mas a verdade é que Michael ligou sim sobre um casamento: o dele. Ele está apaixonado por outra moça, Kimberly, ou Kim. O pai de Kim é dono de um time de baseball e um canal à cabo de esportes em Chicago, onde o casamento acontecerá. Michael e Kim irão se casar naquele fim de semana! Jules se debanda para Chicago com apenas um objetivo em mente: reconquistar Michael e fazê-lo perceber que os dois são quem deveriam estar se casando.

 

Já em Chicago, Jules conhece Kimberly, que propõe que as duas sejam melhores amigas. Fica claro que a única rivalidade ali é da parte de Julianne. Kim, apesar de mais nova, deixa claro para Jules que ela sabe do passado da nova yorquina com Michael, e que aquilo não a afeta. Como a própria personagem diz: “Ele te colocou em um pedestal, e me colocou em seus braços”. Pela visão da personagem principal, Kimberly é a vilã que está no caminho de sua felicidade com Michael. Mas com o desenrolar dos eventos fica claro que quem está impedindo a felicidade de Michael e Kim é a própria Jules. Kimberly não é a vilã ali, mas sim a mocinha.

O fato de conhecermos a família toda de Kim nos mínimos detalhes reforça a noção de que ela não é a vilã. A personagem apenas veste roupagens estereotipadas pelos olhos de Julianne. A vida de Kimberly também é apresentada nos mínimos detalhes: suas inseguranças com relação ao trabalho de Michael, ter que deixar a faculdade de arquitetura de lado para acompanhar o futuro marido, e as expectativas de seus pais com o casamento.

 

“É incrível a claridade que vem com o ciúmes psicótico.”

George (Rupert Everett), o melhor amigo gay, apresenta alguns tons de “fada madrinha” como outros melhores amigos gays do gênero. Porém é ele quem também traz Julianne para a realidade. É o personagem que aproxima o espectador do que está acontecendo naquele fim de semana. Os outros personagens podem aceitar as situações pouco prováveis e inacreditáveis, principalmente no que diz respeito às atitudes de Jules, mas George é quem questiona tudo. Ele é a voz do espectador, algo incomum no gênero. É raro em comédias românticas que personagens questionem as ações e situações que acontecem a seu redor. Aceitam tudo o que acontece a eles, criando uma espécie de universo paralelo ao que vivemos. Um mundo irreal com uma fachada parecida com a do nosso.

Apesar de ser essa ponte entre o mundo das romcoms e o real, é George quem inicia uma das cenas mais surreais do filme. Saída diretamente de um palco da Broadway, a cena se passa em um restaurante. Ao explicar como conheceu Julianne para os pais de Kim – numa cena anterior Jules havia mentido sobre George ser seu noivo e não seu amigo gay – o moço começa a cantar. E como nos melhores clássicos de Gene Kelly, todos na mesa começam a acompanhá-lo. A cena termina com todo o restaurante cantando animadamente “I Say a Little Prayer”, inclusive com um funcionário tocando piano. Nessa cena é possível ver que George não é um personagem deslocado desse mundo. Está inserido nele tanto quanto Jules, Kim ou Michael.

A cena também nos ajuda a lembrar que estamos observando uma narrativa de comédia romântica. Em Casamento do Meu Melhor Amigo somos lembrados o tempo todo que assistimos a algo difícil, quase impossível, de acontecer com pessoas reais. Isso vem sendo apresentado aos espectadores desde os primeiros segundos, onde a sequência dos créditos parece estar deslocada da narrativa mas ainda assim fazer sentido no contexto do filme.

 

“A vida continua. Talvez não haverá casamento. Talvez não haverá sexo. Mas, por Deus, haverá dança.”

Todos os esforços de Julianne em ter Michael de volta são em vão. Os planos traçados dão errado, mesmo que o objetivo final tenha sido alcançado: Michael termina com Kim. Ela não conta a sua família, e no dia do casamento tudo continua o mesmo. Até Kim ver Jules beijar Michael em uma tentativa final de dizer a ele que ela o amou por nove anos. A rivalidade entre Julianne e Kimberly tem um desfecho anticlimático, apesar de ser o clímax do filme. Elas não brigam por Michael, como poderia ter acontecido numa narrativa onde os gêneros fossem trocados ou mesmo em um roteiro menos sutil. Julianne entende que Michael não a ama mais do mesmo jeito. Que a única coisa que os dois serão no futuro são memórias.

Não é como se Jules não saiba que o que está fazendo é errado. Ela tem consciência que é uma péssima pessoa, até mesmo pedindo para um funcionário do hotel em que está hospedada a prender. Já que para o amor nas romcoms tudo é válido, ser uma pessoa ruim é quase pré-requisito no gênero. Casamento eleva essa regra ao máximo, fazendo sua personagem principal tentar arruinar a vida de duas pessoas, uma delas seu melhor amigo. De certa forma o filme parece ridicularizar o “tudo por amor” em sua protagonista, o que outros filmes do gênero normalizam.

Justamente por levar sua protagonista ao extremo, o desfecho só poderia ser um: Michael e Kim se casam, com a benção de Jules. Julianne tem uma carga “kármica” tão grande na duração do filme – que se passa em apenas quatro dias – que a única opção é que termine sozinha. A mocinha (Kim) termina com o mocinho (Michael), como deveria ser em qualquer outra narrativa do gênero. Porém, como estamos investidos no ponto de vista da vilã, é possível desejar que Julianne termine com Michael.

É George mais uma vez quem dá a dica ao espectador. No meio do filme, logo após a cena do restaurante, Jules pergunta a George o que Michael irá fazer. O amigo gay então responde: “Ele vai escolher Kim. Você vai sentar em um canto no casamento, dar um beijo de adeus nele e ir para casa”. É por isso que o final de Julianne não se desloca do resto do filme. Para Jules, a realidade se sobrepõe ao universo paralelo das romcoms onde o amor vence tudo. Na vida real as pessoas que amamos amam outros. Nem sempre conseguimos o que queremos. E às vezes temos que deixar algumas pessoas de lado para darmos espaço a novos relacionamentos. Em O Casamento do Meu Melhor Amigo o adeus é necessário, assim como na vida real.

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.