O cara legal?


Caso você não viva debaixo de uma pedra, deve conhecer dois caras bem importantes na cultura pop: Ross Geller e Ted Mosby. Eles têm algumas similaridades, como por exemplo serem zoados pelos amigos por serem nerds, terem hobbies questionáveis, terem um quê romântico e morarem em Nova York. Ah, e serem completamente babacas.

Sim, você leu isso certo. Eles são completamente babacas. “Mas eles não são os caras legais?” você pergunta. Bom, sim e não. Eles são o típico nice guy (cara legal) da ficção. “E o que há de errado com isso?” você também pergunta. Bom, vamos conversar. Sabe aquele filme 500 dias com ela? Ele é um é um ótimo exemplo de como o arquétipo do ‘nice guy’ funciona. O Tom é aquele cara fofo e gentil que está solteiro e conhece a Summer, uma garota meio excêntrica. Bom, é uma comédia romântica com seus encontros e desencontros típicos, mas o x da questão é que o Tom sente raiva da Summer por terminar com ele em determinada parte do filme. Porque ele é tão legal, como alguém pode não gostar dele? A própria história do filme problematiza em certos momentos o comportamento do Tom:

A evolução desse arquétipo é a popularização do termo ‘friendzone’ (o conceito de uma mulher não retribuir os sentimentos românticos que o amigo tem por ela). As coisas estão ligadas pro princípio. Observe o cenário: o personagem sente atração por uma moça (no caso da friendzone, uma amiga dele). Ela não retribui. O personagem começa a hostilizar a moça, porque afinal ele é um cara muito legal, quem poderia perder a oportunidade de se envolver com ele? É evidente que a moça está sendo propositalmente cruel com esse grande rapaz bacana e cheio de sentimentos. Daí ele se coloca no papel de vítima: as mulheres não ligam pra ele, coitado. Tipo o Ross quando a Rachel começa a sair com o cara italiano lá, lembra dele?

O primeiro exemplo  literário que vou colocar aqui é bem óbvio: Jacob Black. O garoto-lobo de Crepúsculo está apaixonado por Bella, mas ela está apaixonada pelo misterioso Edward.  Não vou problematizar esse relacioanmento porque não é hora, mas vamos considerar que é direito dela escolher ficar com um vampiro brilhante, por menos prático que isso pareça. O Jacob, por outro lado, não aceita essa derrota (bom, até o quarto livro acontecer né) e questiona Bella: por que ela não quer ficar com ele, que é tão amigável e legal?

Gossip Girl, antes de ser uma série maravilhosa com atores insuportavelmente bonitos, era uma série de livros. Apresento-lhes Dan Humphrey, o cara meio hipster-antes-de-hipsters-serem-cool, que ficava escrevendo poesia existencialista em cafés de NY. O cara tem aquele complexo de ser único e especial e, quando garotas perdem o interesse nele, ele age de forma irritante. Ele é a vítima das mulheres fúteis que não lhe dão atenção. Ou pelo menos é isso que ele acha.

Claro que, assim como qualquer arquétipo, nem sempre seu uso significa algo ruim. Há horas em que eles surgem nos livros pra evidenciar o absurdo dessas atitudes, para desconstruir a ideia de que o cara legal é realmente…legal.

Como, por exemplo, nosso caro Bentinho Santiago, de Dom Casmurro. É o cara certinho que duvida da fidelidade de sua esposa, que supõe estar tendo um caso com seu melhor amigo. Ele se coloca como o cara super apaixonado que é vítima de uma traição. E, se sua escola seguiu os clichês de educação, teve um julgamento na sala de Capitu traiu ou não traiu? e alguém deve ter defendido o protagonista porque ele estava loucamente apaixonado pela Capitu. A gente já falou aqui na Pólen de narradores não confiáveis, mas acho que vale frisar que todo o livro é narrado pelo Bentinho do futuro com seus eternos mimimis. Nós a vemos pelos olhos dele e ele tenta nos vender que ela é uma traidora. Ele, coitado, é só a vítima, o cara legal que ela abandonou. Ele é ciumento, possessivo e chato e ainda tenta ser o mocinho da história. Mas né, foi ele quem acabou sozinho em uma casa falando com os quadros e apelidado de Dom Casmurro.

Vou cometer uma heresia literária e falar que um personagem quese mostra nice guy é o Darcy. Antes que surja uma multidão com tochas na minha casa, deixa eu explicar:  a Jane Austen desconstrói esse traço dele durante a narrativa perfeitamente. Ele começa como um típico babaca elitista (eu sei, eu sei, pode me odiar depois dessa) e ainda espera que Elizabeth se apaixone por ele. Migo, assim não tem como te defender.

Eis que ele percebe que as coisas não são assim e começa a se esforçar pra ser uma pessoa decente de verdade com a Lizzy. É interessante pensar em Orgulho e Preconceito e como a Jane foi avançada para sua época. A Lizzy deveria aceitar qualquer cara que se interessasse por ela, já que mulheres deveriam ser submissas. Mas ela espera o cara começar a respeitá-la para dar uma chance a ele.

O grande problema dos nice guys da ficção é que eles (e muitos autores, roteiristas, diretores…) acreditam que são o centro do universo e as mulheres da história sempre acabam funcionando como um plot device, uma ferramenta útil na hora de movimentar a história do Grande Homem™ que o cara legal está prestes a se tornar. O mais incômodo, no entanto, é quando o cara legal sai do seu livro e da sua tela, tomando a mente de homens que acreditam piamente que sim, eles são apenas muito bacanas e poxa, por que essa mulher não existe e age exatamente do jeito que eu quero, hein?

 

Compartilhe:

Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • Norcirio Queiroz

    Então o Nice Guy seria a versão adolescente do adulto disposto a olhar para a realidade distópica do seu conto de fadas bonitinho e teatral?
    A conclusão do texto leva a crer que enquanto o cara não sair do vitimismo, nunca será protagonista da sua própria história e a culpa sempre será da (o) outra (o). Se for isso, a Lorena acaba de tirar (ou pelo menos balançar) várias mulheres (e homens) da zona de conforto por se apaixonarem pela versão adolescente dos caras. Que bacana!

  • <3 obrigada, Claudia

  • Mari, eu sempre sofro bullying das amigas fãs de Jane Austen por dizer isso haha. Gosto da evolução dele, mas no começo eu fico tipo aff cara, menos né? (fora que prefiro o Mr. Knightley)

    – Lorena

  • Pingback: Recapitulando: Mar. 2015 | Un long chemin()

  • Mari

    Eu nunca abria a boca para falar nada do Darcy porque eu pensava que só eu pensava assim. Demais a análise feita no texto. Parabéns

  • Claudia Passos

    Muito legal o seu texto! Brilhante numa ideia que eu nem tinha percebido. Parabéns

  • “Ele se achando todo rei” = uma boa definição pro Darcy hahahaha

    brigada, Debora 🙂

    – Lorena

  • Debora Cecília G. Theobald

    Que texto incrível feat. maravilhoso! Adoro quando vocês discutem a representação de determinado gênero/esteriótipo na literatura, isso me abre os olhos pra muitas coisas e amplia os meus horizontes literários! Então, obrigada ❤
    E você está perdoada em falar assim do Darcy, afinal nada mais que a pura verdade foi dita, né? Ele se achando todo rei e ainda querendo que a Lizzie desse bola pra ele é tipo, migo apenas pare ¬¬
    Beijos 😀