O cânone e a biblioteca de histórias não contadas


É fácil e reconfortante pensar na literatura como uma gama de possibilidades. Todos já ouviram a história de que ela pode nos mostrar mundos diferentes, realidades distintas e por aí vai. É bom acreditar nisso, me faz dormir melhor. Mas tem horas em que eu morro um pouco quando paro pra pensar duas vezes a respeito.

Sim, a literatura pode ser uma sucessão infinita de possibilidades, uma coleção imensa de realidades diferentes, uma troca de experiências e todos esses clichês bonitos aos quais a gente adora se apegar. Mas, na prática, como toda expressão de cultura, ela acaba sendo um campo de exercício de poder. Se pensarmos no que se costuma publicar, em como se costuma avaliar e criticar o que escrevem, em quais são as vozes com maior alcance, isso fica bem evidente. É ainda mais gritante quando pensamos no que é valorizado ao longo dos séculos.

Existe essa Grande E Respeitada Entidade chamada cânone da literatura ocidental. Ela é adorada em alguns lugares e explicada em poucos. Na teoria, é o que de melhor aconteceu em termos artísticos e de expressão humana. Na prática, é uma grande, empoeirada e mal-aproveitada biblioteca do que julgaram ser melhor. E essa biblioteca parece arbitrária.

É claro que ela pode ser explicada, analisada, glorificada. O cânone é como é por uma coleção de motivos históricos, por centenas de contextos. Mas o que acontece – o que eu vejo acontecer desde conversas de bar a longas palestras de professores universitários que se consideram a grande vanguarda do pensamento – é que ela não é dissecada como deveria, mas sobra bastante tempo pra uma adoração inexplicável. “Esse é o maior romance brasileiro”, “ele foi o maior poeta inglês”, “nada se compara ao mais importante poema em língua francesa”. Tá, e quem disse? Por que eu deveria acreditar?

O cânone literário, quando chamado pelo nome, assusta um pouco. Parece tão formal, tão ameaçador. É assim também que ele aparece no primeiro contato, nas aulas de literatura do colégio. Ele sempre assume a forma de uma imagem em preto e branco de um homem velho, com uma barba imensa, óculos e um olhar determinado no horizonte. São nomes que se confundem nas mentes de alunos vivendo uma realidade aparentemente distante da que esses homens criaram. Como é possível entender a utilidade de estudar uma coisa descontextualizada? “O que me importa a Iracema em 2015?”, eles pensam. Nós já pensamos também.

Acontece que o problema de uma tradição literária estática como é a ocidental vai muito além de uma questão de pedagogia ruim. Não é o caso de falar mais uma vez “porque a educação brasileira…” (suspiros) e discorrer sobre alunos entediados. Não é pra questionar apenas a forma como se ensina, mas também o que se ensina. E o que se lê. E como se lê. E por quê.

 

Ideal Bookshelf: Universals, de Jane Mount

 

A simples existência de uma chamada tradição literária, nos moldes da nossa, já parte de uma visão de mundo bastante elitista. Dizer “isso aqui é bom, isso aqui é ruim” é privilégio de um grupo muito pequeno de pessoas, um grupo selecionado de maneira muito silenciosa e que usa critérios bastante questionáveis. Acreditar na validade inquestionável e insubstituível do cânone – um dos maiores mitos quando o assunto é literatura – é acreditar em uma corrente teórica, em uma forma de ver e interpretar o mundo. Tudo bem, você pode acreditar, mas isso significa que você acredita na existência de um grupo seleto de pessoas que estão aqui no mundo para julgar a produção artística e dizer a todos os outros meros mortais o que eles podem adorar ou não.

É uma visão de mundo válida, mas proponho aqui uma diferente (que na verdade não fui eu que propus, foi outro cara barbudo, mas acho ela mais maneira). Ao invés de somente aceitar a análise que outras pessoas fizeram antes de nós, vamos analisar os livros que estiverem ao nosso dispor. Vamos decidir por nós mesmos o que nos parece fazer sentido nesse momento. Já que sabemos que o cânone é um homem branco barbudo, vamos tentar entender os espaços vazios dele e buscar as vozes que essa versão literária dos vencedores calou. Vamos tornar possível que aquilo que será recebido como tradição literária em um futuro distante não possua tantas tentativas de homogeneizar algo que é heterogêneo.

Isso não quer dizer que tudo que lemos é bom. Mas quer dizer sim que, ao pensar sobre isso, estamos entendendo um pouco mais sobre nós mesmos. E que estamos tentando entender mais sobre todos os eus que compõem esse nós. Por mais tentador que seja, não recuso e ignoro o cânone. Isso seria perder a oportunidade de compreendê-lo. Apenas sinto uma necessidade de encará-lo ao invés de abaixar a cabeça pra ele.

Quero ouvir o que a escolha dele pode me contar ao invés de ficar intimidada pelo peso de séculos de leituras que vieram antes de mim. Podemos chegar a resoluções impressionantes se, de fato, interpretarmos o cânone. Ao invés de glorificá-lo, olhar pra ele como mais um objeto. Não o objeto final, não o objetivo a ser alcançado. Ao invés de uma biblioteca empoeirada e mal-aproveitada, podemos almejar uma biblioteca de histórias nunca contadas, de gêneros nunca reconhecidos. De um nós muito maior do que nos conta a atual versão da história. Porque podemos e porque merecemos preencher todos os espaços vazios, hoje ocupados pelo pó.

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.