O caminho solitário da vida adulta


Recentemente eu me mudei da casa dos meus pais. Não só me mudei da casa dos meus pais como mudei de cidade. De país!

No começo a ideia parecia assustadora e incrível.

Incrível porque era uma oportunidade única em um país novo. Pela primeira vez na vida eu seria dona do meu nariz, a única responsável por mim mesma. Eu poderia fazer o que quisesse quando eu quisesse.  Eu pensava “quantas viagens vou fazer! Quantos novos amigos!”.  Era como se de repente a vida que eu levei por 23 anos fosse um pontinho e meu futuro fosse o universo inteiro.

Assustadora porque eu estava, de certa forma, escolhendo abandonar todo o amor e conforto que eu tinha. Eu teria que arcar sozinha com as consequências. Família, amigos, eles sempre estarão ali pra você, mas é diferente quando se está a um oceano de distância e uma lâmpada estoura na sua mão e você está com medo de morrer eletrocutada.  É diferente tentar conversar com alguém e ter o delay de um oceano, de 4 horas de fuso, de querer abraçar e não poder.

Bom, estou na Irlanda há um mês e devo dizer que eu estava certa sobre o assustador e sobre o incrível, mas ambos em proporções bem menores.

Nesse meu um mês em Dublin, fui jogada na boca do leão e tive que aprender a viver. Dizem que brasileiro tem jogo de cintura. Bom, pelo visto eu devo ser mais irlandesa do que os irlandeses querem acreditar, porque eu sou 0% safa e nunca fui dessas pessoas que simplesmente conseguem viver a vida com facilidade e leveza.

Eu sou do time da ansiedade. Do time das preocupações. No entanto, mesmo pra queM está surtando porque não conseguiu abrir conta no banco até agora (vamos não tocar nesse assunto que é pra eu não chorar), devo dizer que o bicho papão ainda não me comeu. E eu tenho ido em pubs e feito amigos e tenho “viagens” alinhadas pro futuro, mas também vou ser bem honesta e admitir que até agora a minha vida não virou magicamente espetacular. Pelo contrário.

“Simba, tudo que o sol toca é o seu reino” e você tem o poder de escolher se vai naquele show incrível mês que vem ou se faz a feira. Se você dá aquela escapadinha pra Londres (viva Ryan Air!) ou se vai pagar as contas . Você aprende que ser independente tem muito de ser livre, mas tem mais ainda de ser responsável.

É claro que quando eu posto fotos no instagram das minhas idas aos parques e museus ou dos lindos pratos cheios de peixe, cogumelos e aspargos que eu tenho cozinhado, todo mundo acha lindo (acho bom vocês acharem lindo, porque essa p*** deu trabalho!), mas ninguém me vê sofrendo quando a máquina de lavar fica trancada e não quer abrir. Ou quando o código pra abrir a porta do apartamento não funciona e eu tenho que ir num orelhão ligar pros flat-mates e pedir ajuda. Ou aquele dia em que eu falei “nossa, que sol, vou sair sem casaco” e de repente esfriou e eu achei que fosse perder meus dedos. Ninguém me vê fazendo cálculos pra saber quanto dinheiro eu tenho.

Ninguém vê também os momentos de solidão. Tenho aprendido que nem mesmo todas as amizades, nem mesmo todo o apoio familiar vão te fazer se sentir menos sozinha nesse caminho para a independência.  Quando eu digo solidão, não quero dizer que estou isolada, que eu me sinto abandonada no espaço. Isso aqui não é Space Oddity e eu não sou o Major Tom (ou a Sandra Bullock). O que eu quero dizer é: quando as escolhas são inteiramente suas, quando é você e somente você o culpado pelo resultado, existe um certo isolamento. Isso é ser adulto. Escolher… Sozinho. É agir sozinho. É aprender a pensar sozinho. Você pede ajuda, você conversa, mas para ser de fato independente você precisa também aprender que essa viagem é sua e de mais ninguém.

Acho que talvez seja por isso que precisamos tanto criar comunidades. Por isso que temos essa necessidade de nos aproximarmos, de nos amarmos e nos conectarmos. Estamos todos carregando o nosso próprio mundinho nas costas e as vezes é bom ter alguém em quem encostar e com quem dividir o peso.

No final das contas o que eu posso dizer é: nem tanto pra um nem tanto pro outro.  Divida o peso. Compartilhe-o com seus amigos e familiares, mas também aprenda a andar sozinho com ele. Esse peso é você, esse peso é a sua liberdade e sua independência. É um pouco desconfortável, é um pouco assustador, não é nem de longe tão glamuroso quanto você esperava, mas também é bom. É novo, é inesperado, é autônomo e grandioso. Sem contar que rende ótimas fotos pro instagram!

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Sobre Anna Lívia

Uma paulista com coração mineiro que gosta de fazer filmes e contar histórias, Anna é Mestre-de-Artes em Processos Criativos e trabalha como produtora e assistende de direção de cinema e afins.