O buraco no quintal


No quintal da casa da menina moravam um pé de pitanga, um de jabuticaba, um de limão, um pé de mamão, uma pequena horta com morangos, cebolinha, salsinha, erva doce e pimenta, muitas samambaias e plantas e arbustos rasteiros, dois cachorros e um canário. Fora os moradores oficiais, ainda tinha dois gambás, dois ninhos de pomba, lagartos pequenos, muitos sapos em dias de chuva e insetos com combinações de cores que ela nunca tinha visto na vida. Era o mal de se morar numa casa cujo terreno da frente era um enorme vazio de grama e árvores que dava em um riozinho. Ela e a mãe costumavam brincar que não ficariam surpresas se um dia aparecesse uma jaguatirica ali. Se até gato do mato já tinha aparecido, qualquer coisa era possível sair de lá.

Qualquer coisa mesmo.

Uma madrugada, mãe e filha escutaram um barulho esquisito no quintal, como se alguma coisa remexesse nos arbustos. A mãe acordou e encheu um balde com água pra assustar o bicho, que provavelmente era um dos gambás que às vezes apareciam no telhado e desciam pelas árvores. A filha foi junto, levando uma vassoura por precaução; vai que era algum bicho maior? Acenderam as luzes do quintal e ficaram de olho pra ver de onde vinha o barulho, que parecia ser da horta. Mas não tinha nenhum bicho mexendo nos arbustos ou cavando o chão. Aliás, o barulho parecia era de algo tentando sair do chão.

Ficaram olhando sem saber o que deviam fazer, enquanto viam a terra se revirando e abrindo o que parecia ser um buraco na terra. Escutaram uns resmungos, como se fosse alguma coisa fazendo bastante força pra sair dali. Depois de alguns momentos, um relógio dourado de bolso com uma corrente bem longa pareceu ser cuspido da terra, seguido por duas patinhas brancas e peludas. E as patinhas brancas e peludas logo se mostraram pertencer a uma criatura também branca e peluda, usando um colete e gravata borboleta, com orelhas longas, nariz vermelho e resmungando sobre estar muito, muito atrasado e muito, muito perdido.

O coelho, já fora do buraco, olhou em volta, tentando se situar, parecendo muito confuso, até que olhou a mulher com o balde e a menina com a vassoura, as duas paradas e com os olhos tão arregalados que pareciam os pires de chá que alguma coisa arremessava de dentro do buraco junto com algumas cartas de baralho.

– Ah, saco. – o coelho resmungou novamente, batendo uma patinha peluda na testa. – Mil perdões, senhoras, erramos o caminho. Sabe como é, às vezes acontece. – e deu de ombros.

Pegou os pires de chá e jogou de volta no buraco, se enfiando dentro dele logo depois, enquanto gritava “volta todo mundo gente, buraco errado!”, ao que se seguiu gritos de “ah, de novo???” e “eu sabia que tinha que ter cortado a cabeça dela!”. O buraco se fechou e a paz reinou novamente no quintal, como se nada tivesse acontecido. Mãe e filha ficaram paradas na mesma posição e com a mesma cara assustada por mais alguns minutos, antes de entrarem de volta na casa.

No dia seguinte, a mãe mandou arrancar todas as plantas e cimentar o quintal. Nunca mais nenhum bicho apareceu, mas de vez em quando a filha jura que escuta alguma coisa bater debaixo do concreto e gritar “volta todo mundo, caminho errado de novo!”.

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