O atlas da desumanização


Uma família islandesa perde uma das filhas gêmeas, e precisa lidar com as consequências emocionais da perda.

Uma pessoa navega uma cidade grande, cada vez mais opressora e estranha, se sentindo cada vez menos pertencente a ela.

Dá para perceber a solidão entranhada nas duas situações.

No primeiro caso, é o livro “A desumanização”, de Valter Hugo Mãe, um autor português que vem se destacando por sua narrativa peculiar. Nesse, não há marcas de diálogo, e o leitor tem a sensação de estar dentro da cabeça de Halla, a menina de doze anos que perdeu sua gêmea, e é desesperador. Imagine ter que conviver com a noção de que você perdeu, para sempre, a pessoa que você imaginava te completar física e emocionalmente.

As capas brasileira e portuguesa do livro

As capas brasileira e portuguesa do livro

A dor de Halla é mais forte do que a dor de seus pais, talvez, e a garota é constantemente criticada por estar viva e não se juntar à irmã na terra. Mãe, em sua narrativa, consegue fazer o leitor se sentir vazio e, por vezes, é difícil simpatizar com as personagens, mas fica um nó na garganta que não dá para tirar.

São 150 páginas difíceis de engolir, difíceis de ler, e às vezes o choro não sai do corpo, mas está lá.

O segundo caso é o álbum mais recente da banda carioca Baleia, “Atlas”. Ele foi parcialmente inspirado na obra de Mãe, e é possível perceber até mesmo pelo projeto gráfico. As linhas tortas, o traço, as cores… Tudo remete àquela solidão que machuca tanto quanto o frio islandês.

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A grande questão do Atlas é não pertencer mais a um espaço onde você se sentia confortável. Como se a cidade grande perdesse a segurança, ficasse mais quente e opressora e quisesse, literalmente ou não, te engolir. E você não cabe mais ali, então o que está fazendo?

As oito faixas do álbum retratam bem a falta de espaço num espaço enorme, a sensação de ser pequeno demais em um lugar que parece não parar de crescer e mudar e a dificuldade de existir nesses espaços.

De forma semelhante, Mãe fala de espaços que crescem e mudam e onde não é mais possível se encaixar. Se a Baleia trata de espaços físicos, Mãe trata dos emocionais.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.