O alívio de sentir


Texto: Amanda Tracera

Como boa pessoa que sofre de ansiedade e que, portanto, se desespera com facilidade quando as coisas fogem ao meu controle, sempre me pareceu muito melhor fazer parte do grupo de pessoas distantes de qualquer emoção que fosse grandiosa ou intensa demais, não por temer a emoção em si, mas por sentir receio de não conseguir lidar com algo que me tirasse os pés do chão. Assim, durante uma parte considerável dos meus anos, enquanto minhas amigas estavam falando sobre amor e saudade e tristeza, eu estava criando metáforas sobre corações trancados em caixinhas com chaves perdidas e escrevendo sobre personagens boas demais para se apaixonar perdidamente.

Por outro lado e ironicamente, eu sempre consumi muito esse tipo de sentimento que desestabiliza e que implode o nosso corpo e a nossa mente, não só por ser vítima (voluntária) de Hollywood e da Disney e de tantos young adults, mas também por estar em constante contato com pessoas que se permitiam esse tipo de sensação, por ser “a voz da razão” de tantas emoções devassas e entregues e confusas e incomodamente presentes. Era como existir em um paradoxo: ser, ao mesmo tempo, recusa e aceitação; estar disposta a falar sobre sentir demais, mas nunca de fato me permitir sentir demais.

E então, de repente, sem que eu sequer notasse, me vi numa situação em que afastar o sentimento que estava invariavelmente me devorando por completo não era uma opção, da mesma forma que não era algo que eu queria. Dentro daquele contexto específico – que era diferente de todos os outros contextos em que eu já havia estado, e que era tão estranho e tão novo e tão excitante – percebi que sentir pouco exigia de mim um esforço grande demais, que eu não queria mais ter que fazer. Era fácil simplesmente ser entregue, e, mais importante, era melhor; como se a perda completa do controle sobre as minhas emoções me colocasse em um lugar que me permitia enxergar a mim e aos outros de verdade, sem os joguinhos e as máscaras e as fantasias. Limpos.

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É difícil estar disposto a sentir coisas. É assustador pensar que estar absolutamente presente em alguma situação, seja ela qual for, nos torna alvos indiscutivelmente mais fáceis, aumenta a probabilidade de sairmos magoados. E em tempos de likes e tinders e século XXI – em que tudo tem que ser rápido e não necessariamente profundo, em que tudo tem que acontecer mas não necessariamente continuar acontecendo, em que é necessário ter planos (!) e começar coisas (!!) e superar expectativas (!!!) –, fica ainda mais difícil se permitir a pausa que a entrega requer. Mas o constante afastar-se por sentir medo (de estar exposto, de soar ridículo, por medo pura e simplesmente) não salva ninguém das decepções ou das lágrimas ou dos tombos. Fugir requer uma quantidade de energia enorme e intensa, e reprimir vontades e desejos pode evitar tempo perdido e alguns problemas em um primeiro momento, mas não coloca nada no lugar; só existe vazio.

Hoje é cool ser blasé e não se deixar atingir pelas pessoas que nos cercam. Para além das mensagens que a gente propositalmente demora para responder ou dos matches que nunca se estabelecem como nada além de pequenas promessas de relações acumuladas num aplicativo, existe também uma série de sentimentos reais ignorados e guardados em prateleiras cheias e empoeiradas. Existe o “já faz tempo demais” e o “não sei como ele/ela vai reagir se eu mandar essa mensagem” e o “não quero ficar triste por isso de novo”; existem todas as nossas ressalvas e os nossos “pensei melhor, acho que não vale a pena o risco” e as nossas certezas sem nenhuma base que nos fazem acreditar que a garantia do não é sempre melhor porque a pura ideia do talvez já basta para nos fazer perder o equilíbrio.

A entrega ainda não me é natural. Ainda preciso repetir internamente que correr dos meus sentimentos não faz com que eu realmente pare de senti-los, ainda hesito antes de apertar “enviar”, ainda tenho noites insones por acreditar que alguém está me achando boba, infantil, desesperada. Mas aí eu recebo uma resposta concreta, que veio depois de uma pergunta invisível que eu tive coragem de fazer, e ela me permite continuar ou parar de insistir. Se a resposta à minha mensagem nunca chega, eu sei que não preciso mais enviar nada; se alguém diz não ter interesse, eu sei que não adianta continuar acreditando. É libertador saber. É libertador ter certeza. E para que isso se dê, é necessário, antes, ter peito para me deixar correr riscos. Porque às vezes o que me (nos!) espera é uma experiência boa demais para só existir na possibilidade.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.