O abismo definitivo


Texto: Ana Levisky

Mestrado em cinema não é bolinho, mas traz cada revelação! Em meio a tantas discussões sobre a sétima arte, me deparei com conceitos muitíssimos relevantes e comecei a entender melhor quais tendem a ser nossas expectativas do Outro. Então eu achei muito pertinente compartilhar um pouquinho do que eu tenho lido ultimamente com vocês. Um oferecimento: Lacan, Freud & Zizek.

Esses caras usam psicanálise e filosofia pra investigar como a gente se comporta no mundo. Eles acreditam que as pessoas costumam manter uma distância da realidade pra se sentirem menos ameaçadas e é por isso que a gente fantasia tanto sobre tudo. Nosso abismo definitivo é a capacidade de conceber a profundidade de outra pessoa. Por trás de alguém sempre existe um vazio que a gente tenta preencher com as nossas próprias fantasias. Nossos objetos de desejo são sempre inalcançáveis, a gente está sempre em busca de algo inacessível. Nada nos satisfaz.

Nós nunca podemos saber realmente o que os outros esperam de nós, mas a gente continua se perguntando: O que ele/ela quer de mim? É impossível conseguir acessar a posição de onde o outro olha pra gente, por mais que a gente tente. E é por isso que o encontro com o olhar de outra pessoa pode ser tão traumático – a gente está sempre buscando algum sentido ali. Quando a gente acha que encontrou alguma coisa, provavelmente não é bem aquilo. Nossos desejos distorcem nosso campo de visão, por mais que a gente não perceba. Por isso o choque é tão grande quando alguém diz que não te ama mais: você é a mesma pessoa que era no dia anterior, mas o outro não te vê da mesma maneira que antes.

Ao mesmo tempo, o que mais nos encanta nas pessoas que a gente ama é justamente aquilo que não dá pra apontar. A gente aprecia as lacunas que existem nos outros. Tem algo de especial naquela pessoa que você ama que é maior do que ela mesma, como se fosse um tesouro escondido. E é aí que a gente se entrega. O que eu posso fazer pra te satisfazer? É difícil saber como se comportar pra agradar alguém, mas a gente está sempre tentando.

O que costuma passar batido é que o Real só parece desejável quando coberto por uma fina camada de fantasia, um véu tecido por linhas simbólicas e imaginárias que mantêm nosso objeto de desejo fora do nosso alcance. Essa sombra fantástica do objeto real funciona como uma isca, um ponto falso de deleite antecipado que, graças a sua inacessibilidade fundamental, sustenta a dessatisfação que serve de motor pra impulsionar nossos anseios.

A partir do momento que eu aceitei que eu nunca vou poder saber o que o outro está pensando ou querendo de mim, eu aprendi que as pessoas não são enigmas a serem desvendados, mas sim mistérios que nós devemos cultivar. Quanto menos a gente tenta decifrar as pessoas que nos intrigam, mais a gente se encanta. John Green já dizia que a gente nunca pode amar as pessoas tanto quanto a gente sente falta delas. O anseio pelo preenchimento do vazio que o outro deixa pra gente é tão grande que quando ele está bem ali do nosso lado, fica difícil de apreciar já que a gente está sempre tão preocupado em entender o que está acontecendo. Melhor assumir a incompreensão e contemplar o desconhecido.

 

 

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Sobre Ana Levisky

Ana terminou seu Mestrado na Irlanda e tenta se convencer de que Processo Criativo é sim uma área relevante de estudo. Quando tem tempo faz filmes, já que se formou pra isso.