Nossas figueiras: até onde vai a consciência de uma mulher?


Texto: Gabriela Navalon // Arte: Gabriela Amorim

Sou uma mulher comum, semelhante a tantas outras de onde venho. É provável que muito do que sinto não seja completamente diferente do que essas tantas outras mulheres semelhantes a mim sentem. Nós devemos ter medos e frustrações semelhantes. Não porque somos jovens, mulheres, de um mesmo lugar (mas também por isso), vivemos em uma mesma cultura. Quando mais novas, é provável que tenhamos gostado de bandas, seriados, filmes parecidos. Não dá para ir tão mais longe que a outra quando seguimos um fluxo relativamente igual. Ainda mais quando vivemos em uma geração que experimenta a internet e colhe frutos de uma globalização intensa. Mas algo em nós é ainda mais parecido. E aí falo de sensações, sentimentos.

Há algumas semanas estava lendo meu primeiro livro da autora italiana Elena Ferrante. Estava surpresa com a habilidade da escritora de descrever a mente de uma mulher (em situação diferente da que vivo) que se parece tanto com a minha. Enquanto lia Dias de abandono, percebia ali um pouco de mim ― de nós, mulheres (e não posso dizer quão semelhante o nosso pensamento é em relação ao homem porque não estive na pele de um, nunca).

Via ali, naquelas páginas, uma mulher que cresceu sendo educada para ser uma mulher. Ela estudou, foi relativamente bem sucedida enquanto caminhava para uma carreira, se casou, teve filhos. Parece que a vida de uma mulher, depois de ter filhos, acaba. Não há mais propósitos, o último objetivo foi concluído. Assim vi, também, as personagens do livro A Mulher desiludida, de Simone de Beauvoir. A sensação, lendo Beauvoir reflete essa inquietação que a mulher sente diante do estereótipo do que, supostamente, é ser mulher. A Mulher Desiludida mostra três personagens infelizes que não encontram saída para sua tristeza, porque acreditam que estão fadadas a ela. Seja porque já se está muito velha para conseguir conquistar mais do que já foi conquistado e não há mais filho para educar, seja por que o marido é tudo que resta e isso pode significar aturar amantes mesmo não sendo possível suportar a dor que isso causa. Simone não tem medo de questionar os padrões em que a mulher é colocada. Ela faz questão de mostrar o quão patéticas são as “regras” colocadas para o sexo feminino ― o segundo sexo que, portanto, deve ser frágil, sentimental.

Depois de Ferrante, A Redoma de vidro, de Sylvia Plath, me apareceu. E me senti caindo no meu próprio consciente durante dias e mais dias e mais dias. Sou como Esther. Uma mulher comum que vai atrás dos seus sonhos, que acredita em si mesma, mas que é testada frequentemente pela sociedade conservadora em que estamos inseridas. E apesar das críticas feitas a esta sociedade e a estes paradigmas, muitas não conseguem se desvencilhar daquilo que lhes é solicitado, requerido. Esther se sente trancada em seu subconsciente ― esse lugar que ela não conhece, não entende e tampouco consegue decifrar ― como todas nós nos sentimos, com cobranças próprias e cobranças feitas por outros.

Esther é jovem, não sabe exatamente o que está por vir ou exatamente o que quer, mas sente o peso do que os outros dizem. Tenha filhos, se case, não transe até se casar, seja feliz, sorria, mas seja um pouco misteriosa, estude, seja inteligente, mas não muito para não ofuscar os homens, seja delicada, porém forte, chore, mas não seja louca…

Por mais que exista a luta contra todos os pré-requisitos para ser mulher, eles ainda sobrevivem. E, passo a passo, enlouquecemos um pouco a cada dia. A pressão dói, põe regras, aprisiona. Vivemos, todas, em redomas de vidro e, muitas vezes, não percebemos. Sentimos-nos perdidas, mas não sabemos o porquê.

Quando novas, assistimos a princesas que esperam por seus príncipes encantados. Dizem que existe final feliz, desde que seja com um homem. Colocam bebês em nossos braços, ensinam que ser mãe é sentir o maior amor do mundo. Somos criadas para sermos seres que amam, de forma doce e arrebatadora. Muitas de nós vão lembrar que quando amaram pela primeira vez, tinham seus 6, 7 ou 8 anos de idade. Não sabíamos nosso nome completo, mas sabíamos que deveríamos ter um príncipe. Sempre fomos princesas presas em castelos, esperando que alguém nos salvasse, prontas para mostrar a meiguice, a generosidade, o amor.

Nenhuma pessoa que não uma mulher é capaz de entender como nossa cabeça pode funcionar depois de sermos cobradas tão profundamente por tantos lados. No meio da brincadeira que é a vida, são tantas as razões para a angústia que não há como saber se os fatores destroem ou, afinal, fortalecem. E me questiono, portanto, se tudo que sinto, eu sinto porque sou assim ou porque fui educada a sentir. Se o amor me arrebata, se sou essa mulher incansável em busca de sucesso, beleza, saúde: essa sou eu ou sou o que me ensinaram a ser?

Na minha cabeça, as cenas de uma personagem do filme As Horas, inspirado no livro Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, me encontram. A mulher é casada, tem um filho, já passou um tempo “doente”, mas volta para casa e passa dias e mais dias pensando em se matar. Ela chega a levar a criança para a casa de uma vizinha e vai até um hotel, onde planeja tomar algumas pílulas e acabar com a sua angústia. O que falta a ela? Tem uma casa, um marido, um carro, filho. Deveria ser feliz? Deveria bastar? Por que ter tudo isso demonstraria razões para sentir-se completa? Parece que a sociedade determinou que as mulheres precisam de pouco para se sentirem realizadas. Bastava um buquê de flores e alguns chocolates para curarem alguma ferida. Foi o que disseram, o que fizeram. Esqueceram-se que um fogão e um homem ao lado na cama não significa, necessariamente, felicidade garantida. Se não é feliz, porque haveria de ser? A felicidade da mulher é tratada como uma fórmula. Como se dois mais dois fosse igual a uma mulher feliz para sempre. E quanto mais andávamos na contramão do que achavam que deveria nos fazer feliz, mais desqualificadas nos tornávamos dentro da sociedade. Não casar e ter filhos era um pecado, e ainda é. Mas, além disso, hoje temos diversos outros fatores que nos levam a carregar uma bagagem que, às vezes, é pesada demais (adicione ao combo, portanto, dinheiro, sucesso, festas, sensualidade…).

Esther é jovem, está na faculdade, acaba de voltar de Nova York, onde fez um estágio glamouroso. Mas o que lhe faz sentir-se insatisfeita com o próprio ser a ponto de se esconder em sua casa, tomar vários remédios e tentar se suicidar? O que falta a tantas de nós que terminam a noite encarando o teto escuro enquanto o peito machuca em medo? Do que nós temos medo? Por que sentimos, tanto e tão intensamente, todas as coisas? Por que temos dificuldade de encontrar um caminho?

Ela é mandada para um sanatório onde ninguém deseja escutar realmente o que lhe aflige. Era comum, antigamente, que mulheres fossem enviadas a manicômios quando não viviam dentro da normalidade, mas o que era normal? De certo, não a liberdade. Ser livre, quando existem tantas amarras, não é simples. Te traz dúvidas, questionamentos constantes. Esther queria ou não se casar? Ela estava ou não insegura quanto a sua carreira? O que lhe era mais importante? O que nos é mais importante? O que nós queremos, e o que querem de nós? O fio que separa essas respostas é fino feito folha de papel e, em muitos momentos, não sabemos realmente o que responder. E é justamente por isso que o conflito é penoso. As dúvidas de Esther são as nossas próprias dúvidas.

 

Eu via minha vida se ramificando à minha frente como a figueira verde daquele conto.

Da ponta de cada galho, como um enorme figo púrpura, um futuro maravilhoso acenava e cintilava. Um desses figos era um lar feliz com marido e filhos, outro era uma poeta famosa, outro, uma professora brilhante, outro Ê Gê, a fantástica editora, outro era feito de viagens à Europa, África e América do Sul, outro era Constantin e Sócrates e Átila e um monte de amantes com nomes estranhos e profissões excêntricas, outro era uma campeã olímpica de remo, e acima desses figos havia muitos outros que eu não conseguiria enxergar.

Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés.

 

Para além disso tudo, e refletindo sobre, recebi a indicação do artigo “A grandiosa teoria unificada da tristeza feminina”, presente em Exames de empatia, livro de Leslie Jamison. O artigo me levou ainda a crer que, além de as mulheres serem educadas para serem frágeis, ainda são “admiradas” pela tristeza. Até que ponto, então, são levadas a sério? Ouso dizer que em nenhum momento acontece. Sinto como se as pessoas se divertissem vendo a minha cabeça através do vidro desta redoma. Quanto mais tristes, mais charmosas, porém pouco compreendidas. Porque se somos frágeis, nada mais normal do que sermos tristes. Nada mais normal do que nossa tristeza ser tratada como algo comum.

O arquétipo de mulher construído pela sociedade faz com que a mulher seja esse ser de personalidade pré-definida. Afinal, que imagem é essa que a mulher vê de si mesma? Imagino um espelho em que tento me enxergar: quem vejo sou eu, a pessoa que construo na minha cabeça, ou sou eu, a pessoa que a sociedade constrói para mim? Talvez estas duas versões de uma única mulher nem possam se desvencilhar, por que o eu construído dentro da cabeça de uma mulher sofre, frequentemente, a intervenção do mundo externo. Se não fosse educada para ser o símbolo do amor e afeto, certamente as questões seriam diferentes. Temos um consciente que briga com o inconsciente o tempo inteiro – e vivemos a dor dessa guerra. De um lado, o que obrigam, de outro, o que desejamos. Por tudo que dizem e por tudo que sentimos na pele, nos tornamos tristes e intensas ― até demais ―, mas isso não é bonito. Viver na pele de uma mulher custa caro, mas resistimos para que possamos sair dessa redoma e deixar para trás quem esperam que sejamos.

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Sobre Gabriela Navalon

Um dia perguntaram a minha palavra favorita. "Sonhar" virou eu e eu virei sonhar. Faz anos que vivo na lua. Não posso evitar, os planetas me fizeram essa aquariana com ascendente em peixes. Os livros se tornaram meu lugar, foi em meio as páginas que me encontrei. Me apaixonei pelas palavras, bailei com o jornalismo, conheci o feminismo e o resto, ainda estou para descobrir.