Nós estamos aqui #SemanaDosLivrosBanidos


Texto: Paloma Engelke

Nem só de proibições institucionais vivem a mulher e o homem. Tão importante quanto a censura oficial e declarada, é uma outra forma de censura, quase imperceptível e amplamente aceita — a censura social. Existem livros que são, na prática, banidos do mercado.

Nem sempre a sociedade está pronta para o que recebe. Muitos autores foram menosprezados e ignorados em suas próprias épocas, e se tornaram clássicos após suas mortes. São, muitas vezes, pessoas à frente do seu tempo, incompreendidos por seus contemporâneos, ou escritores que eram pessoalmente estigmatizados por características que não tinham nenhuma relação com seus trabalhos artísticos.

Existem casos como Lima Barreto, desprezado por ser pobre e considerado alcoólatra. E existem Carolinas Marias de Jesus — mulher, negra e pobre — que chegou a ser publicada e alcançar algum sucesso por um curto período de tempo enquanto viva, para depois “sair da moda” e morrer no esquecimento.

Todos os dias, milhares de obras importantíssimas permanecem no ostracismo porque nós estamos todos muito ocupados lendo os mesmos livros. Em sua grande maioria, livros escritos por homens brancos de países desenvolvidos.

Atualmente, apesar do avanço das possibilidades de publicação independente e de autodivulgação, as grandes editoras continuam a ser a ponte mais eficiente entre as obras e os leitores, e isso gera um novo tipo de problema: nossas leituras acabam se restringindo ao que elas divulgam, e elas divulgam um tipo de literatura muito específico (vindo, em grande parte, dos Estados Unidos).

Isso faz com que outros tipos de literatura, ainda que sejam (em escala reduzida) publicados por grandes editoras, não alcancem um público mais amplo por falta de divulgação. É o que acontece com boa parte da literatura brasileira contemporânea.

A maior parte de nós, ao ouvir falar em literatura brasileira, pensa imediatamente em clássicos. Em livros escritos décadas atrás. Quando muito, lembram (com desprezo) de Paulo Coelho. Os relativamente bem informados chegam até Letícia Wierchowski, por causa da adaptação televisiva de “A Casa das Sete Mulheres”. Por algum motivo, nós sabemos muito mais do que acontece no mercado norte-americano do que aqui, no nosso quintal.

Nós temos tanta produção e capacidade intelectual quanto qualquer outro país do mundo. Nós temos costumes, cultura. Nós temos histórias com potencial para representar a nossa realidade,mas continuamos a menosprezá-las e ignorar sua existência.

Alguns livros são banidos do mercado, e isso não tem nenhuma relação com seus méritos enquanto obra ou com seu conteúdo. Eles sofrem pré-conceito. São julgados e condenados sem nenhuma chance de defesa. Existem livros que estão confinados em prateleiras obscuras e escondidas de livrarias, sem a menor chance de advogarem por si mesmos. Quem perde somos nós.

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Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.