Nós e outras pessoas – Editorial #14


Texto: Lorena Pimentel e Milena Martins

Outras pessoas são a razão de estarmos vivos. Não só no sentido biológico da coisa (as desconfortáveis aulas de ciências da sétima série já cobriram isso), mas assim, no dia a dia. Se pararmos para pensar, tudo ao nosso redor foi criado e construído por outras pessoas. Da parede da sua casa ao café que você toma todo dia no trabalho. O sanduíche do almoço e o episódio da sua série favorita te esperando no Netflix depois do expediente. Tudo que nós fazemos, consumimos, com o que interagimos – tudo isso só existe porque as pessoas estão interligadas.

De certa forma, existe um vínculo entre nós e aqueles que encontramos todos os dias. Podemos nem saber o nome, mas todo dia de manhã vemos os mesmos rostos familiares no ponto de ônibus (lembra daquele caso dos passageiros que fizeram amigo secreto no final do ano?). Você só compra o pão na volta pra casa porque alguém estava lá fazendo e alguém trouxe os ingredientes. Entende o que queremos dizer? Ninguém vive sozinho nesse mundo e há algo de reconfortante nisso. Todas os bilhões de seres humanos, cada um na sua complexidade individual, estão ligados de uma forma ou de outra.

Para além da questão material, formamos vínculos emocionais. Logo antes de começarmos a escrever esse editorial, o mundo soube da morte do David Bowie e do Alan Rickman. Tudo bem, ambos foram pessoas famosas e distantes de nós, mas o interessante é que não fez a menor diferença. Porque é algo que dividimos com muita gente ao redor do mundo, essa admiração por eles e por tanta gente que nunca conhecemos e nunca vamos conhecer. E, mesmo assim, nessas horas nos sentimos próximos.

As pessoas estão conectadas de muitas formas. Nossa família, nossos amigos de infância, os conhecidos da internet com interesses em comum, aquela pessoa que você vê todo dia no elevador mas não sabe o nome. E, se nem sempre são biológicos, os vínculos nem sempre são feitos pela proximidade geográfica. Torcedores de um time, amantes de um livro, fãs de uma banda: conexões podem ser formadas a partir de qualquer coisa.

Outras pessoas são a razão de estarmos vivos. Outras pessoas construíram o mundo em que vivemos. Outras pessoas tiveram responsabilidade biológica pelo nosso nascimento, por nos manter vivos até um certo momento e por nos ensinar a dar significados às coisas. Mas outras pessoas também nos ajudaram a construir, pouco a pouco, quem quer que nós sejamos.

Nossas memórias boas nos ajudam a entender o que valorizamos, enquanto nossos traumas nos fazem desviar de caminhos que parecem perigosos. E tudo isso só aconteceu porque do outro lado existem pessoas, mundos inteiros que jamais entenderemos por completo. Mas que devemos tentar, principalmente porque em meio ao caos alheio encontramos bagunças iguais à nossa.

É sobre isso que vamos falar esse mês. Os vínculos que nós formamos e perdemos ao longo da vida. Como eles nos mudam e nos constróem e como nós nos construímos a partir disso. Vínculos com lugares, com pessoas, com objetos, com crenças e questões. O apego, mas também a descoberta de novos amores, novas ideias e novos planos.

Queremos que você observe o momento exato em que você e um amigo riem juntos de uma piada interna. Ou quando você vê fotografias antigas com pessoas da família. Aqueles minutos mágicos em que você está em um show, pulando em meio a completos desconhecidos que também sentem alguma coisa especial ao ouvir sua música preferida. Quando você ama alguém. Quando alguém sofre ao te ver chorar. Ou quando você também sente a felicidade de outra pessoa.

Nessa hora, pare e veja o que acaba de acontecer. O mundo já não é mais o mesmo. Porque é assim que o mundo gira: quando duas coisas até então desconhecidas se unem. E ali está alguma coisa que até então não existia.

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