“Nocilla Dream”: uma experiência de (não-)leitura


Esta é uma história de como um livro com uma capa bonita, um título intraduzível e um selo de que explica por que você deve comprá-lo. “Nocilla Dream” me conquistou desde seu lançamento no Brasil, em 2013, pela Companhia das Letras, mas nunca soube exatamente o motivo, principalmente porque evito ler resenhas — ou mesmo sinopses — de livros que me atraem antes de poder lê-los.

Depois de um longo período de procrastinação, acabei adquirindo meu próprio exemplar do livro de Agustín Fernández Mallo e pude me render à ~geração nocilla~, que só nasceu depois que o escritor espanhol conquistou o mundo e teve este livro eleito como “o quarto romance mais importante da década de 2000 em língua espanhola pela prestigiosa revista de literatura Quimera”.

Como não havia lido nada a respeito do romance de Mallo, me surpreendi com os capítulos curtíssimos (alguns com muito menos de uma página) e desconexos entre si; demorei-me na leitura tentando encontrar sentido nas entrelinhas e até pelo em ovo, deixei-me encantar pelas descrições quase bucólicas de um álamo estadunidense e sobre como pessoas penduram tênis em cabos elétricos. Tudo caminhava bem, exceto porque não caminhava!

Os capítulos escritos por Mallo não são apenas desconexos, mas parecem, na verdade, um amontoado de ideias rascunhadas em um Moleskine que, por algum motivo, o autor — ou seu editor — considerou geniais demais para que fossem descartadas, porém também não conseguiu organizá-las linear ou estruturalmente de forma minimamente lógica. Com isso, a impressão que fica é que “Nocilla Dream” é apenas mais um desses livros super pretensiosos escritos para leitores que estão dispostos a simplesmente agarrar mais uma etiqueta vendida pelo mercado editorial e não interessados em ler uma boa história.

Devido à falta de acontecimentos do livro, acabei recorrendo à sua quarta capa e descobri que “Nocilla Dream” se pretende um “romance­manifesto carregado de humor e paródias dos procedimentos da arte contemporânea” e é uma “espécie de road movie com ares de filme B, como quem está diante da TV, passando os canais”, que conta com “ficções, passagens reflexivas e citações, [em] 113 microcapítulos [que] alternam entre o registro pop e o erudito”.

(Não sei para você, mas toda essa sinopse — que nem está na íntegra aqui — me grita apenas: “pretensioso!”)

Tudo bem que não há uma promessa de uma única história e a existência de capítulos curtíssimos está muito bem específicada, no entanto, ainda somos levados a esperar por alguma ficção com “ares de road movie” e o que encontramos é bem diferente disso. Pode até ser que a minha ideia de road movie esteja distante do que pensa Mallo e sua editora, mas tenho quase certeza de que esse gênero que tentam conferir a “Nocilla Dream” tem por característica a ~aventura~ e o desenvolvimento de diferentes conflitos no decorrer da trama.

Eu realmente não consegui entender por que quiseram conferir esse status cult e indie (palavra utilizada na própria quarta capa) ao livro se nenhum conteúdo consistente é oferecido ao leitor. A gente avança na leitura tentando cruzar os capítulos, ligar as histórias e, na verdade, a falta de conexão parece só uma forma de engrandecer o autor.

Por fim, encontramos em “Nocilla Dream” um grande exemplo de literatura que me causa uma preguiça enorme. O livro é só uma forma de engrandecer Agustín Fernández Mallo da maneira mais mesquinha: diminuindo seus leitores, que se veem diante de uma repetição da fábula da “Roupa Nova do Rei”, divididos entre o prazer intelectual de se dizer admirador da nova literatura e uma resplandescente cara de ponto de interrogação.

Desculpe-me por todo o hating, mas o ego do Agustín Fernández Mallo passa bem e está sendo bem massageado no momento.

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