Nem tudo são flores – Editorial #4


Ah, 8 de março, dia de receber um “feliz Dia da Mulher” daquele conhecido que faz piada com mulheres gordas, que diz que tem lugar de homem e lugar de mulher, que diz que mulher dele (ênfase na possessividade) não bebe, que feministas são mal comidas. E aí ele te entrega uma flor.

A maneira mais fácil de diminuir um símbolo de algum grupo social é transformá-lo em algo banal, risível ou sem significado. O que acontece com o Dia Internacional da Mulher é uma tentativa repetida de torná-lo um dia vazio de sua história de luta, um dia em que homens de todas as partes se sentem bem consigo mesmo por serem, no máximo, cavalheiros. E todas sabemos que o cavalheirismo é só mais uma forma de machismo, certo?

E enquanto seu tio/colega de trabalho/caixa do supermercado te oferece uma flor, eis o que acontece: mulheres têm menos chances que homens de ocupar cargos de liderança, mulheres sofrem preconceito em seus ramos de trabalho, mulheres são assediadas na rua, mulheres são silenciadas em relacionamentos abusivos, mulheres sofrem slutshaming, mulheres são estupradas, mulheres são obrigadas a ter dupla jornada, mulheres são agredidas por médicos, mulheres são ensinadas a acreditar que devem tudo aos homens, que devem ter a aparência perfeita segundo ideias machistas, que devem seduzir os homens mas não podem usar roupas curtas porque isso não é coisa de moça de família, que devem ser submissas, quietas e jamais questionar a injustiça. Porque quem questiona é feminista mal comida, é mulher que quer privilégios, porque como assim ela é mãe e trabalha o dia todo? Como assim ela é engenheira? Como assim ela quer que o marido ajude nas tarefas da casa? Isso é coisa de mulher, diz seu tio/colega de trabalho/caixa do supermercado.

Vamos conversar sobre a representação das mulheres na mídia. Quando elas não estão sendo incentivadas a emagrecer! ser linda! atrair os homens! por alguma revista feminina, estão sendo reduzidas a objetos por agências de publicidade. E na ficção não é muito diferente. A desigualdade de gênero e o machismo ainda existem em peso na literatura. E é por isso que a Pólen desse mês é dedicada a nós, as mulheres.

Pense em como a literatura “para mulheres” é taxada de fútil, enquanto aquele escritor famoso é o grande gênio do século XXI. Pense em como o cânone literário não tem muita diversidade, em como os Grandes Autores™ que nos ensinam na escola são em sua maioria homens cis, pense em como escritoras têm que disfarçar seus nomes nas lombadas de suas obras porque se não, nenhum homem vai comprar. Pense em como quando uma escritora é elogiada, dizem que sua escrita “não é feminina”, porque se é bom, não pode ter nada a ver com mulheres. Pense em como qualquer coisa que meninas adolescentes gostam é taxada de “modinha” e “sem profundidade”. Pense em como personagens femininas complexas são raras, sendo facilmente transformadas em objetos de fetiche do escritor (sabe, aquela lutadora badass que deixa os peitos à mostra mesmo quando isso não faz o menor sentido? ou quem sabe a mulher que existe na história pra satisfazer o protagonista?) e seres sem nenhuma personalidade, nenhum traço aparente, nenhuma característica própria.

Vocês veem onde estamos chegando, certo? É por isso que nesse mês de março, nós dedicamos a edição às mulheres. Autoras e personagens. Porque mulheres escrevem e leem todos os gêneros literários, porque mulheres são complexas e diversas.

Nós, da Pólen, acreditamos que mais vozes precisam ser ouvidas. Vozes de mulheres negras, vozes de mulheres trans, vozes de mulheres da periferia. Nossas histórias importam tanto quanto as que vêm sendo contadas há tanto tempo. Aquilo que escrevemos, narramos ou simplesmente desabafamos merece ter espaço e merece ser levado a sério. Podemos falar e podemos também criar novas regras. Podemos inventar e ignorar o que nos dizem para fazer. Porque nossas histórias podem e devem ser contadas do nosso jeito.

 

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  • Louise

    Adorei o texto Rovs! Me deixou com muita vontade de ler o livro!

  • Marina

    Eeeita tema bom!