Nasce uma escritora


Texto: Anna Vitória

Na festa de ano novo perguntaram pra mim, afinal, Anna Vitória, qual é o seu hobby, o que você gosta de fazer? Com uma rapidez e clareza que me são raras nesses momentos de pressão social que me confrontam com uma pergunta pessoal, que provavelmente vai ajudar a moldar a concepção que aquela pessoa tem de mim, pensei: eu escrevo.

Porque eu sou jornalista, foi nisso que me formei, é nisso que eu trabalho, mas antes, acima, além de qualquer coisa, eu escrevo. Quero ser escritora e como todo mundo também estou com uns projetos aí, mas é mais que isso. Eu escrevo. Eu escrevo porque antes de aprender a escrever já imaginava finais diferentes para os meus livros preferidos, e depois que aprendi a escrever usava as páginas no fim do caderno para formular uma versão diferente da minha novela favorita (Mulheres Apaixonadas). Eu tinha nove anos. Não era uma atividade consciente, naquele momento eu não estava escrevendo, estava simplesmente transferindo pro papel aquilo que estava dentro da minha cabeça, porque era a única coisa que eu conseguia fazer. E é assim até hoje, eu escrevo porque em última instância as palavras são a coisa mais minha que eu consigo colocar no mundo.

Posso fazer pudim, passar um café, te chamar pro cinema, rolar no chão com cachorros, amar boybands e querer morrer na praia, mas o principal é que eu escrevo. Sei disso porque cozinho pensando nas palavras pra descrever a física necessária para um pudim sem furinhos e qualquer coisa que traduza o cheiro do café me acordando pela manhã. Escrevo porque saio com alguém e preciso decorar aqueles olhos, observar os gestos e vou gostar mais de qualquer pessoa que me ofereça, de graça, um diálogo perfeito, como o semblante do meu cachorro que comporta o sentimento do mundo, que é o mesmo do coração explodindo pelos meus magrelos tatuados e como eu jamais descobriria a real filosofia do fangirling se nunca tivesse parado pra escrever sobre isso, tentando entender, de fato, o efeito de Kiss You sobre mim ou o que realmente significa boiar no mar olhando pro céu.

Eu escrevo porque no fim tudo se resume a isso: uma letra depois da outra. E assim eu vou vivendo.

Mesmo assim, naquela festa de ano novo, quando me perguntaram, afinal, Anna Vitória, o que você gosta de fazer?, eu gaguejei e respondi: aahh… eu leio… eu acho… não sei… desculpa? A resposta perfeita e mais sincera ficou travada na minha garganta, um misto de vergonha e insegurança, quem sou pra dizer que escrevo? Curiosamente meu interlocutor era um estudante de Psicologia e músico nas horas vagas, e ele não hesitou um segundo em falar que antes de qualquer coisa ele era da música, fazia música, respirava música, amava música. Era seu hobby, o que ele gostava de fazer e eu não achei ele ridículo por dizer isso com convicção, achei lindo, queria ser igual. Mas eu, ai meu Deus, quem sou eu pra falar que eu escrevo?

Meu conflito interno me lembrou da Jane, personagem central em Jane, The Virgin. Quando questionada sobre o que faz, ela diz que tem duas respostas, uma prática e outra corajosa. A corajosa é que ela é escritora. Aí fica a pergunta: por que a gente precisa de coragem para se assumir escritora? Ou, mais importante ainda, de onde vem a falta dela na hora de afirmar algo que deveria ser só mais um dos traços que compõem aquilo que a gente é?

Ainda não tenho essas respostas, mas depois de puxar essa conversa com as amigas do Twitter, tive uma epifania. É ilusão pensar que precisamos de uma validação externa, qualquer que seja ela (uma publicação, um livro com seu nome na capa, um diploma, um tapinha nas costas ou uma estrela dourada do lado do nome), para acreditarmos em algo que, antes de qualquer coisa, vem de nós. Porque a chancela externa não significa absolutamente nada se por dentro não acreditarmos naquilo, não sentirmos aquela verdade até nos ossos.

Minha música favorita diz que nós somos aquilo que amamos, e não o que nos ama de volta. O amor aqui pode ser realmente qualquer coisa que faça você aquilo que você é. Para sermos o que quer que seja, basta que aquilo seja verdade (realmente verdade) dentro de nós. Até os ossos. E os outros que se virem com isso.

Uma resposta ótima que tive de algumas garotas maravilhosas quando propus essa reflexão foi que elas tinham tomado a decisão consciente de se afirmarem como aquilo que são, um gesto de vejo como coragem e confiança em nome daquilo que lhes é mais caro. Em setembro, a Brenda declarou nesse mesmo espaço a Independência da República Democrática dos Escritores de Internet e nos convidou a reivindicar esse espaço que é nosso, e só pode ser verdadeiramente nosso quando dissermos em voz alta ou fonte tamanho 12 quem somos e ao que viemos.

Sabe, não é porque eu escrevi tudo isso que de repente criei coragem para me auto-afirmar. Eu ainda estou morrendo de medo e pensando que vai ter alguém (sempre tem alguém) que vai ler tudo isso e me achar ridícula. Mas tudo bem (eu disse que tá tudo bem então vai ficar tudo bem, certo? O Segredo é real), porque eu sou a única pessoa que pode fazer isso e é ilusão acreditar que outra pessoa – ou, pior ainda, uma instituição impessoal – possui mais direitos sobre mim do que eu mesma.

Então vamos lá:

– Afinal, Anna Vitória, qual é seu hobby, o que você gosta de fazer?

Eu sou escritora.

E você?

I took a deep breath and listened to the old brag of my heart: I am, I am, I am.

A Redoma de Vidro (Sylvia Plath)

Compartilhe:

rocha.annavitoria@gmail.com'

Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida – e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.

  • Pingback: Linkagem de Segunda #44 – Sem Formol Não Alisa()

  • Marina Matos

    Incrível como a gente espera mesmo por uma validação externa para se afirmar escritora.
    Eu também escrevo principalmente porque preciso. É a única coisa que sei fazer, na verdade. E mesmo assim tenho uma dificuldade grande de assumir esse meu lado – coisa que tenho tentado mudar aos poucos.

    Adorei seu texto, me senti abraçada e vou seguir com mais coragem a partir de agora. Obrigada!

    Sigamos juntas.

    Beijo,
    Marina

  • Douglas Vasquez

    É engraçado a forma diferente que lidamos com essa perguntinha e o medo em dar “resposta corajosa” e a cara à tapa. Eu também escrevo, como você deve saber, mas o medo de me auto-afirmar como escritor e ser julgado como alguém “que vai passar fome ou viver com os pais pelo resto da vida” me fez me tornar mais recluso e escrever cada vez menos. Tão menos que as palavras fazem questão de não aparecerem mais quando eu mais do que preciso posicioná-las em um texto, um capítulo ou um artigo; é como se elas dissessem “não apareceremos enquanto você tiver vergonha de nos mostrar para o mundo”. Enfim, ótimo artigo, como sempre! E muito obrigado por dar um empurrãozinho inconsciente em mim. Beijo!