Não tinha como não ser Maria


Texto e foto: Marina Cavalcante

O que é ser mulher transexual no Brasil e o valor da representatividade na mídia

Virginiana com ascendente em virgem, Maria Medeiros é, segundo ela mesma, uma pessoa complicada e trabalhadora. Nascida em 1994, na cidade de Malta, Paraíba, faz questão de afirmar que é sertaneja e lutadora. Maria é graduanda no curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba desde 2014. Maria tem cabelos cacheados na altura dos ombros e se considera vaidosa. Fã assumida dos filmes de Almodóvar e da sua forma de dialogar sobre gênero, Maria aprecia a literatura de Clarice Lispector, acompanha a série Orange is the New Black e escuta a Banda Uó, de Goiás. Interessada em política e com um discurso cuidadoso e empoderado, Maria é militante no Levante Popular da Juventude, em João Pessoa. Nacionalizado em 2012, o movimento social é organizado por jovens que lutam pela transformação da sociedade brasileira. Dentro do Levante, Maria participa da Frente Feminista e do núcleo de Diversidade Sexual e de Gênero.

Maria é uma mulher. Maria é transexual. Uma mulher transexual. Transexual é o nome usado para referir-se à pessoa que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento. Eu, Marina, entrevistadora e agora fã da protagonista desta matéria, também sou uma mulher. Dentro da terminologia de gênero, sou o que chamam de mulher cisgênero: me identifico, em todos os aspectos, com o gênero no qual eu nasci. Independente de prefixo, eu e Maria somos mulheres. Numa tarde de quarta-feira pós votação do Impeachment na Câmara dos Deputados, nós conversamos sobre ser mulher no Brasil e a representatividade da mulher trans na mídia, como meio de conquistar espaço e respeito na nossa sociedade.

Marias São Todas as Mulheres

A primeira coisa que eu precisava saber sobre nossa entrevistada era a sua história. Desde o primeiro período da universidade, iniciada em 2014, Maria assumiu a identidade trans. Defende que teve o apoio da mãe e do irmão, e que eles agiram com naturalidade e amor. Se ela se apresenta para a sociedade como Maria, então é sobre Maria que eu e você, leitor ou leitora, iremos conhecer.

“Essa questão da identidade de Maria, isso é uma construção, isso é um processo de descoberta e de aceitação também. Parte muito da aceitação. Eu sempre tive muito medo por saber do contexto de violência que as mulheres trans, especialmente, estão inseridas, e por minha família ser muito católica, muito tradicional, ser do Sertão da Paraíba. Conforme eu saí de casa e vim estudar na universidade, conheci a militância LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e fui me empoderando para assumir essa identidade. (…) Cada pessoa tem seu processo e não existem fórmulas ou maneiras de fazer isso melhor ou pior, é você saber o que é minimamente confortável pra você”, relata.

Eu adorei a escolha do nome “Maria”, e quis saber se tinha alguma razão específica para nomeá-la como tal. Pelo que a própria narrou, mais parece que o nome que a escolheu.

Não tinha como não ser Maria. Desde antes da transição os amigos mais próximos já me chamavam assim, e eu não sei porque. Eu acho que escolhi esse nome pela simplicidade, porque nós vivemos em um país de Marias. Maria é comum, e eu sou isso, eu sou só isso: Maria. E me lembro de uma coisa que foi muito decisiva, de uma música de Tiê que é Passarinho, e diz assim “mas passarinho se não bate asa logo pia/eu que tinha um nome diferente, já quis ser Maria”. Eu acho Maria um nome muito místico. (…) Marias são todas as mulheres”.

Morte e Vida das Marias do Brasil

Eu, Marina, sei o que é ser mulher no Brasil. Justamente por isso me dói sequer imaginar o que é ser mulher transexual neste país. Com a palavra, Maria:

“Ser mulher trans, especialmente no Brasil, é muito difícil. É assustador porque eu acordo e o país que eu amo é o país que mais assassina pessoas trans no mundo. Nós carregamos essa chaga social. A realidade trans aqui é muito complicada porque nós vemos um ódio institucional contra pessoas trans muito grande, por isso que eu acho que nós, mulheres trans, temos que ser cada vez mais combativas. A morte tá aí batendo na nossa porta todo dia, a expectativa de vida de uma mulher trans é de 35 anos no Brasil. Isso é uma coisa muito feia, uma coisa muito triste, isso é uma realidade que nós temos que lutar, que procurar representação política. O cenário político que está posto pra gente é um cenário de horror. Você não vê travesti. No Congresso inteiro você só vê um homem LGBT representando. Nós não somos minoria, essa ideia é errada, isso é um discurso conservador, o Brasil é um país trans também, embora as identidades sejam sufocadas. (…) Sem contar no mercado de trabalho, em que 99% das mulheres trans estão na prostituição porque a evasão escolar é altíssima por causa da transfobia institucional. É triste ser trans no Brasil, mas é muito bonito ser trans, e eu faço da realidade dura, resistência“.

O Espaço Ocupado pelas Marias na Educação Brasileira 

Tinha curiosidade em saber como havia sido a experiência de Maria na época da escola. Será que ela tem percebido, dentro da educação brasileira, mudanças no tratamento às pessoas trans? Com sua resposta, ela iluminou minha concepção um tanto nebulosa acerca da militância LGBT. Confesso que apesar de também levantar essa bandeira colorida na vida, considero alguns discursos militantes bastante rígidos, que acabam por alimentar o pessimismo. Mas Maria fez sua mágica e foi logo dizendo que, apesar da situação difícil que viveu na escola, é por causa da militância que se mantém otimista e percebe mudanças.

“Nunca tive contato, nas minhas escolas (católicas, geralmente elitizadas), com travesti e com trans de forma alguma. Essa realidade não existia. A escola, pra mim, sempre foi um lugar de coerção. Nunca foi um lugar que eu pude ser qualquer coisa lá dentro, que eu pude ser eu. Graças à militância, eu sou uma pessoa otimista, eu vejo mudanças, sabe. Já fui em algumas escolas hoje, de ensino médio e fundamental, e vi que a coisa tá diferente. A gente tem um diálogo mínimo, bem mínimo, mas eu vejo que as pessoas respeitam mais”, declara.

A experiência negativa durante a época da escola de certa forma preparou Maria para enfrentar barreiras ao longo da vida. O que ela não esperava era ter que lidar com o preconceito e discriminação vindos de um professor do setor de Educação de sua universidade.

“Ainda tem coisa que me surpreende. Eu já tive que trancar disciplina porque um professor de Educação, que estuda a forma como nós transmitimos conhecimento para os sujeitos, se recusou a usar o meu nome social (Maria), disse que eu tinha que cumprir o meu papel que a sociedade escolheu pra mim dentro da sala de aula. Eu não me vi defendida. Tive que trancar essa disciplina, o que foi uma coisa muito difícil”, relata.

O episódio vivenciado por Maria em sala de aula tem nome e causa: transfobia. Quando terminei de escutá-la, perguntei se a disciplina em questão era obrigatória ou optativa. Ela respondeu dizendo que não só era obrigatória, como hoje está pagando uma disciplina extra ao seu currículo por causa do ocorrido, o que acabou atrasando o seu curso. Ainda sem acreditar no absurdo que havia acontecido dentro da instituição a qual eu também faço parte, quis saber se a atitude do professor era denunciável dentro das leis que temos hoje no país.

“Tem uma portaria que legitima o uso do nome social. Só que na UFPB, especialmente, é muito burocrática a coisa. E você fica dependendo da bondade desses caras mesmo. Mas você pode denunciar, por exemplo, na avaliação dos professores. Aí especifiquei que eu tinha trancado a carteira e eles perguntam “por que?”, aí eu disse. (…) Outros colegas avisaram que ele tinha me constrangido e tal. E também tem a Ouvidoria, mas eu não sei como isso funciona bem. Não tive nenhum retorno na minha denúncia, não sei o que aconteceu com esse professor, também não procurei saber”, confessa uma Maria bastante irritada e esgotada com a situação.

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O Feminismo é para Todas as Marias do Brasil?

Eu sabia que o feminismo ia surgir na conversa de um jeito ou de outro. Duas mulheres – empoderadas, conversando sobre espaço, sobre voz, sobre militância, sobre a história de mulheres – parecia o cenário perfeito para desenvolver o assunto. E foi. Através de sua fala, Maria ilustrou os obstáculos da mulher transexual dentro do feminismo, reforçou sua luta, reafirmou seu papel de militante e se mostrou disposta a continuar caminhando ao lado das mulheres, independente de suas peculiaridades.

“Essa coisa do feminismo é uma área muito sensível. A gente sabe que o feminismo, enquanto teoria científica, foi criado por mulheres brancas cisgêneras e burguesas, que tinham o poder, que tinham fôlego para se rebelar contra um sistema extremamente cruel. Sempre tento tensionar as barreiras do feminismo. A gente vê um levante das mulheres negras dentro do feminismo. A gente vê isso representado em Bell Hooks, em Angela Davis, em autoras que se perguntaram “Eu sou o quê, se eu não sou uma mulher? Por que as feministas não lutam por mim?”. E a gente vê uma tendência conservadora dentro do feminismo que diz que mulheres trans querem usurpar o espaço das mulheres cisgêneras, mas quando a gente passa a se questionar: o que é transfobia, se não uma violência de gênero, se não um repúdio ao feminino? Eu acho que o feminismo tem que ir às margens, o feminismo tem que ser marginal, tem que ir na calçada da prostituta, tem que ir nas fábricas falar com as mulheres que estão trabalhando. Tenho uma atitude bastante combativa em relação à algumas posturas de feministas conservadoras, porque eu acho que enquanto houver opressão de gênero, nenhuma mulher vai ser livre o suficiente, pois vai respingar em todas. A branca nunca vai ser suficientemente livre enquanto as pretas estiverem em lugares subalternos. Eu acho que as opressões estão interligadas e ser mulher é múltiplo. Não existe um modelo único de mulher, eu acho que cada uma vive isso de forma diferente e que o feminismo tem que procurar dar voz à essas pessoas”.

Representatividade Importa

Maria se entusiasma quando pergunto se representatividade importa. “Importa muito, muito!”, responde. Eu bem sei disso. Representatividade é um assunto que sempre me emociona e mexe com minha história enquanto mulher. Quando eu era pequena minha mãe não me deixava alisar o cabelo como o das minhas amigas, lisas naturais ou não, então eu ia na prateleira do supermercado atrás de produtos específicos para os meus cachinhos e não encontrava. Na Revista Capricho que eu comprava de vez em quando, as meninas eram todas lisas, alisadas, sem volume, e eu com uma juba indomável e sem esse status todo que um cabelo cacheado tem hoje em dia.

Meu primeiro ícone claro de representatividade física foi nada mais nada menos que Beyoncé. Cachos, juba, lábios grossos, bunda, peito, tamanho maior que o P. Beyoncé requebrava, no clipe de Check on It, toda a carne e identidade que eu tinha desde os 14 anos. Ver o mundo vendo Beyoncé como uma mulher bela e poderosa me empoderava. No meu grupo de amigas, todas magras ou querendo ser magras, mais afiladas, mais delicadas. Eu também deveria querer ser retinha, mais menina, mais modelo, mas minha herança genética não deixava. Beyoncé até hoje me representa e me deixa viver minha beleza real, apesar de uns tempos pra cá ela ter diminuído e eu ter aumentado. Se eu, com todo o esteriótipo físico de uma típica brasileira que carrego, encontrei numa gringa um sinal de representatividade, imagina, minha gente, na pele de Maria e de outras mulheres trans por aí, como isso não deve ser complicado.

Eu estudo Letras, estudo Literatura. Eu queria estudar escritoras trans. Acho que essa exclusão de representatividade cria uma coisa muito dolorosa nas pessoas trans que é o sentimento de não pertencer. Como se a sociedade, o mercado de trabalho, a igreja – para as trans que são religiosas -, como se a saúde não fosse nossa, como se nós fôssemos o outro. Acho que essa sensação de não pertencimento é muito dolorosa, e a comunidade trans vive com ela, infelizmente”, lamenta Maria.

O horizonte da representatividade trans pode parecer cinza, mas para cada mulher perdida, existe uma Beyoncé para nos inspirar e empoderar. Ainda menina e antes da transição, Maria conheceu a história de Lea T, mulher trans e modelo brasileira de sucesso.

“Quando eu era uma menina ainda e não tinha começado a minha transição, vi a história de Lea T e de como ela tava conseguindo fazer isso (processo de transição de gênero). Eu pensei ‘Meu Deus, eu posso fazer isso minimamente de forma humanizada!’ “, relembra e celebra.

No desenrolar da nossa conversa sobre representatividade, Maria abriu os meus olhos para algo que eu ainda não havia parado para pensar: o opressor padrão de beleza da mulher cisgênero também oprime a mulher trans.

“A indústria de beleza vende às custas da baixa auto-estima de mulheres. As trans estão se mutilando, estão nas clínicas de cirurgia, estão colocando silicone industrial em seus corpos pra parecer cada vez mais com o ideal de beleza cisgênero, que não é o nosso”, desabafa.

Vaidosa e militante que é, Maria fica com brilho nos olhos quando relembra a campanha de 2015 do Outubro Rosa da Avon, estrelada por Candy Mel, mulher trans e vocalista da Banda Uó, de Goiânia.

“Fiquei desesperada em casa gritando porque eu vi que eu também iria me sentir representada, e isso é mínimo. Eu me lembro, gente, porque eu sou uma mulher vaidosa, eu gosto de cuidar do meu cabelo, eu gosto de me maquiar, e eu não vejo na capa de uma publicação de beleza, mulheres como eu, (…) mas quando você vê uma mulher que representa o que você é, tida como bonita, pode perceber o que há de bonito em você também. É uma coisa que lhe dá fôlego”.

As Marias na Mídia Tradicional

Quando você, caro leitor ou leitora, entra em contato com alguma notícia sobre transexuais, qual é o assunto abordado? Como o jornalismo brasileiro tem lidado com a realidade trans no país, e o que vira manchete? Vai aí no Google e pesquisa “transexual brasil” ou “transexual notícia”. Na primeira página, já se percebe que a mídia reflete a questão da subalternização das pessoas trans. Maria levanta críticas à mídia conservadora e tradicional, e aponta que a saída está no jornalismo independente.

“É muito insatisfatória a realidade das pessoas trans que a mídia coloca. Eu não me sinto representada. (…) A falta de cuidado que a mídia tem, a naturalização das mortes e a exposição das pessoas trans, isso é muito absurdo. A falta de respeito à identidade das pessoas trans, ao nome social: nomeiam ‘o’ travesti, ‘o’ homossexual, para aquela prostituta que foi assassinada. Quando nós vemos algo que foge disso, é mais complicado ainda, porque é a sexualização das mulheres trans. Dos veículos de mídia hegemônicos eu já desisti, sempre estou procurando jornais e páginas na internet que são independentes, porque eu sei que nossa cara em grandes publicações já está pintada com as cores das pessoas que querem nos pintar como palhaças, (…) como criaturas noturnas, como pessoas degeneradas, como monstros”.

A forma como as mulheres transexuais vem sido representadas na mídia tradicional atrapalha o diálogo com a sociedade e incentiva o preconceito. Maria ilustra o perfil da transexual pautado pela mídia, e demonstra os novos lugares ocupados por elas na vida real, que nem sempre viram notícia.

“Quando você vê uma trans na mídia, é aquela ex-BBB, ou é aquela que saiu com o ex-jogador de futebol… Nós já temos mulheres trans guerreiras ocupando minimamente lugares importantes no mercado de trabalho, temos artistas talentosíssimas que são transexuais. Mas a figura que a mídia criou da travesti, da transexual, é o outro, é aquela criatura abjeta que não faz parte da realidade brasileira. Em parte isso é real, mas a mídia poderia estar do nosso lado, e não deturpando as coisas“, reflete.

Para toda situação de preconceito e discriminação, o poder da conscientização é transformador. Informar sensibiliza, e aprender a conviver com as diferenças constrói novas realidades.

“O que precisa é conscientização, trabalho de formiguinha. Nós temos que procurar ir às instituições de ensino, isso é o primordial. Nossa sociedade está estruturada em transfobia, então não tem como uma trans chegar à universidade se você não tem uma casa, se você não tem escolaridade. Sou uma exceção, sei disso. Eu estudo em universidade de quase 40 mil alunos e não vejo pessoas trans circulando pelos corredores como eu queria ver, vejo raramente uma ou duas. Então eu acho que é um problema estrutural, a gente tem que ir na educação com as famílias e, conforme isso vá mudando, as pessoas vão ver esse tema com mais naturalidade”, conclui.

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Elas por Ela: Mulheres que Inspiram Maria

Ao longo da nossa conversa, Maria já havia se tornado uma inspiração para mim enquanto mulher e enquanto pessoa. Quis saber, então, quem seriam as musas dela, em quem ela se inspirava.

Minha mãe é minha maior musa. Pode parecer clichê, mas é verdade, não tem como fugir disso. Minha mãe é uma sertaneja arretada, uma mulher super católica e é uma mulher que compra o vestido pra mim, que a gente fala sobre beleza, que ela fala sobre namorado comigo. Eu vi que o amor dela perpassou qualquer norma social e ela foi super transgressora, tipo, num quero nem falar muito se não eu vou começar a chorar aqui, mas ela é maravilhosa e é um exemplo… Isso é o feminismo real que eu luto, das mulheres de verdade, que estão sustentando esse país. O Brasil é um país de Marias, mas não é para as Marias“.

Sobre inspirações na política, na militância, nas artes e na literatura, Maria dá nome e sobrenome para suas musas, que vão de Maria Bonita a Sylvia Rivera.

“Sylvia Rivera é uma inspiração pra mim. Ela é uma ativista trans norte-americana, lutou contra a Guerra do Vietnã. Ela foi uma feminista nos anos 70 que impulsionou a revolta de Stonewall, que foi quando os policiais queriam expulsar a comunidade LGBT dos bares, e a partir daí surgiu a questão da parada LGBT. A Revolta de Stonewall foi liderada por uma mulher trans, de traços negros e indígenas, e Hollywood coloca como se fosse um homem branco, e ela é apagada. Mulheres que botaram a mão na massa são minha inspiração, como por exemplo Frida Kahlo que teve uma vida de dor e que fez da dor, luta. Maria Bonita eu acho ela arretada e sertaneja igual a mim, gosto muito das cangaceiras. Clarice Lispector, que sempre foi inquietante, falou muito do sentimento de não pertencer, essa coisa da existência humana. Transexualidade é isso, uma questão existencial que a gente não tem que tá procurando definir, a gente tem que respeitar. Então eu acho que essas mulheres e minhas amigas, companheiras de militância todas, são minha grande inspiração, minha inspiração diária”.

O Futuro das Marias do Brasil

Para finalizar a nossa conversa – sincera, conscientizadora e emocionante – perguntei à Maria como ela sonha e projeta um futuro digno para as mulheres do nosso país, transexuais ou não.

“O Brasil tem uma dívida histórica gigantesca com as mulheres, né. Eu sonho e luto por representação política, eu acho que é a partir daí que a gente vai ver. O sonho de país, pra mim, é um país em que as mulheres possam ser o que elas queiram ser, e que não sejam julgadas por isso. Nós temos uma presidente que, independente das críticas que eu tenho ao governo, é julgada pela roupa que usa, pelo namorado que não tem… Eu sou trans, mas eu nunca precisei me prostituir, felizmente, e eu sou julgada a todo momento pela roupa que eu uso ou pela forma como eu me coloco. Eu sou uma pessoa sexual, quero viver minha sexualidade de forma plena, mas não quero ser hiperssexualizada. Eu quero viver o amor e eu quero ser amada, eu quero ser respeitada. Eu quero que as mulheres, no geral, não sejam mais vistas como objeto, nós não somos propriedade de ninguém! Eu estou muito confiante porque eu acho que elas todas estão muito empoderadas, botando a cara na luta”, finaliza e convoca.

O que era para ser uma reportagem mais formal, tornou-se um relato de uma conversa que tive com uma mulher que tinha mais a me ensinar do que eu imaginava. À Maria, meu muito obrigada pelo tempo, pelo papo, pela voz e pela luta. Que a história dela sirva de inspiração para outras Marias, e que nossa conversa faça com que outros passarinhos apaguem o medo e voem para fora da gaiola, assim como Maria voou.

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Sobre Marina Cavalcante

Também conhecida como Marina Brazil, a escritora de 25 anos é nascida e criada em Recife, Pernambuco. Formada em Jornalismo pela UFPB, Marina realiza a Feira Cria (@feiracria), uma feira de arte impressa e publicação independente originada em João Pessoa – Paraíba, seu atual endereço. Já morou em Campinas (SP) e em Melbourne (VIC), na Austrália. Planeja chamar de lar uma nova cidade no mundo em que lhe faça sentido aprender, rir, chorar e amar. Brasil e Nordeste, além de origem, são identidades mas não necessariamente destinos. Escrever é verbo presente. Para mais de Marina, visita o blog dela: marinabrazil.com.br.