Não saber fazer arte


Texto: Lorena Pimentel // Arte: Gabriela Schirmer

A primeira – e única – vez em que a escola chamou meus pais para conversar sobre minhas notas foi na aula de artes. Eu devia ter dez ou onze anos e, naquele semestre, tínhamos que usar réguas e esquadros para desenhar perspectivas. Não que isso fosse surpreendente. Afinal, nem geometria nem arte jamais foram meu forte.

Então não era algo tão inusitado que na hora que a escola resolveu juntar ambos seria a hora em que eu, a criança nerd, quase ficaria de recuperação. Irônico, considerando que artes era a matéria fácil que todas as minhas amigas adoravam. Até aquele semestre, todo mundo se divertia pintando e desenhando uma vez na semana enquanto eu pensava que preferia estar na aula normal, ouvindo professores falarem e não tendo que tentar ser criativa. Como boa criança nerd, eu era bem melhor em ficar quietinha no meu canto fazendo obrigações escolares do que interagindo com os outros.

As aulas de artes, desde a pré-escola, não foram feitas para crianças ansiosas e quietinhas. Pelo contrário, as mesas largas em que a professora nos colocava com mais 5 ou 6 colegas ajudavam todo mundo a conversar enquanto mexia com tinta guache e riscava papéis. Se nas salas de aula eu podia me sentar na frente e ser uma aluna modelo por tabela, nas aulas de artes eu era obrigada a socializar. E esse nunca foi meu forte. Passei a infância ficando nervosa toda vez que a aula da semana se aproximava.

Não é que eu não gostasse de artes. Nas aulas de teoria, eu sentava e ouvia a professora falar sobre grandes pintores e movimentos artísticos. Mesmo depois, em aulas de História ou Literatura, os assuntos de arte sempre foram meus favoritos. Mas era só me pedirem para fazer algo que eu me sentia incapaz. Ao contrário das outras matérias, eu não ia ficar melhor se chegasse em casa e fizesse tarefas. Muito menos se sentasse em silêncio e ouvisse. Ao invés disso, eu passava a hora e meia insegura achando que jamais conseguiria fazer algo tão legal quanto o resto da sala.

Então misturou com matemática e foi a desgraça da minha quinta série. Meus pais falaram com a professora, que me ajudou a entender o mínimo que fosse de perspectiva. Eu fiz todos os exercícios que ela me deu e acabei passando na prova com um seis, a menor nota que havia tido até então. Além de falta de habilidade artística, fazer linhas retas nunca foi meu forte.

Gostaria de dizer que essa história teve uma boa continuação. Mas, no semestre seguinte, a atividade era pintar uma tela temática de final de ano. Depois de mais ou menos um mês tentando ao máximo fazer com que a minha fosse apresentável – cheguei até a cobrir a arte com tinta de outra cor e começar tudo de novo – ele acabou comigo jogando a tela no lixo na última aula. Acho que no final das contas tive que aceitar que podia ser uma boa aluna, mas a aula de artes sempre seria minha ruína.

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.