Não leia livros sobre animais


Tipo nunca. Mesmo.

É uma verdade universalmente reconhecida de que livros sobre animais vão fazer você chorar. E muito. Mas, é impossível não admitir que há algo estranhamente atraente sobre ler as aventuras de um cachorro ou sobre a vida de um gato morador de rua.

Marley, Dewey, Bob e, o mais recente, Enzo são os animais que protagonizaram alguns dos livros (todos de não ficção) que li sobre animais e, com uma única exceção na lista, já estão todos mortinhos.

Era de se esperar que quando eu estivesse com uma gata doente, se alimentando só através de seringa e vomitando pra caramba em cima de mim (à la O exorcista, gente, já me sinto preparada para ser mãe de tanto ter recebido batismo de vômito) eu fosse ser bem mais esperta ao escolher minhas leituras. Mas não, né, deu um lapso e acabei escolhendo “The Art of Racing in the Rain”, de Garth Stein, lançado no Brasil em 2008, sem muito fuén, com o título de “A Arte de Correr na Chuva”.

O livro segue a história de Denny, um mecânico cujo sonho é se tornar piloto de fórmula um. Conta sobre o seu casamento, a chegada de sua filha, a doença terminal de sua esposa e sobre todas as tragédias da vida de Denny (e são muitas, mas  Garth Stein não é Mexicano), através do ponto de vista de Enzo, o labrador da família.

A história é deliciosa porque Enzo é obcecado com sua próxima encarnação, quando ele vai poder, finalmente, vir como um humano. Ele conta que evita cheirar o bumbum dos outros cachorros para parecer mais maduro. Está convencido de que vê TV demais e seus pensamentos e falas se repetem no livro, fazendo com que fique bem realista essa coisa de “cachorro escrevendo livro”, além de ser obcecado com a velocidade (e com Ayrton Senna), como seu dono.

A história é maravilhosa e você vai sentir a angústia de Enzo, que tenta, mas  não pode ajudar o seu dono, a não ser que você considere ajudar “deitar sobre os seus pés e proporcionar algum conforto”. O final desse livro é arrebatador e me fez chorar tanto que eu não conseguia enxergar as páginas.

Minha grande sorte foi que minha gata ainda estava viva quando eu acabei de ler o epílogo. Ela estava deitada na minha barriga, como sempre costumava fazer e estava um bocado incomodada com as minhas lágrimas (eca, água!). Me sentei na cama, tirei os óculos, limpei as lágrimas e fiz carinho nela até que ela ronronasse e nós duas dormíssemos uma em cima da outra, como era o costume. Ela não morreu nesse dia, na verdade, levou mais ou menos uns dez dias depois disso para morrer.

De certa forma, eu dou graças que li esse livro antes que ela morresse. Hoje, só de ler a sinopse, eu passaria longe, bem longe dele. É incrível o apego que nós temos a esses bichinhos e  como eles nos marcam e ao ler a forma criativa como Garth Stein escolheu para retratar essa história (esqueçam o Marley, gente, EnzoRocks!), não pude deixar de me sentir grata por ter tido uma companhia tão incrível por dez anos. É difícil não ficar encantada com a inversão de perspectiva que esse livro proporciona.

Espero que em algum momento, minha gata, a Jujuba, tenha sentido por mim toda a admiração, o orgulho e o amor que Enzo sentia por Denny.

Mas é uma verdade universalmente reconhecida que não lerei, nunca mais, livros com animais como protagonistas e com esse livro, acredito que tenha encontrado um grand finale para essa categoria de leitura. Sinto imensas saudades da Jujuba, mas espero que ela (nãovoudarspoilers) esteja em um lugar melhor.

Se você ver uma menina parando na rua para fazer carinho em tudo quanto é gato ou cachorro, diz oi para mim…

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