Não há espaço para otários


Texto: Sandra de Cássia // Arte: Bianca Albino

 

Finalmente concluí a leitura de um livro que há muito estava encalhado na minha lista de metas de leitura. O livro se chama Literatura e Marginalidade – Um estudo sobre João Antônio e Luandino Vieira, da Vima Lia Martin, inicialmente apresentado como a tese de doutorado da autora. Ao terminar esse processo de leitura e reflexão, percebi o motivo de ter adiado tanto esse momento: minha mente cansada não queria pensar sobre a literatura da qual me afastei. A que retrata a marginalidade e sua realidade contundente, que critica as injustiças sociais, que faz pensar sobre a sociedade na qual estamos inseridos. Mas algo dentro de mim não me permitiu adormecer por completo, provavelmente essa reação é um dos frutos dos antigos estudos sobre as literaturas brasileira e africana e a marginalidade.

Vima analisa os livros Malagueta, Perus e Bacanaço, do brasileiro João Antônio, e Luuanda, do angolano nascido em Portugal Luandino Vieira. Essa análise me lembrou de muitas coisas, aprofundou as minhas ideias sobre esses livros, sobre a realidade brasileira, o que nos constitui enquanto brasileiros, e muito mais.

A autora apresenta Luuanda como um romance de aprendizagem, escrito em um momento histórico e revolucionário de Angola, no qual as personagens desenvolvem sua consciência política e social, por vezes através da transgressão das normas sociais, para sobreviver às opressões do colonialismo português e para lutar pela liberdade e restauração de seu país. Luuanda traz em suas entrelinhas o retrato dos países africanos assolados pela exploração da colonização, a necessidade de conscientização social e política, a necessidade da resignificação de valores tradicionais para os angolanos.

Malagueta, Perus e Bacanaço é definido como um romance de desilusão. O livro mostra como se desenvolve a malandragem pelas ruas de São Paulo, e como ela é usada não por diversão, mas para a sobrevivência de diversos indivíduos socialmente excluídos. Sem consciência política e social, eles não conseguem mudar suas vidas e nem o meio em que vivem, sendo constantemente tragados pela dura realidade da exclusão, da violência, da opressão, da inércia.

Se em Luuanda temos a presença da utopia política, em Malagueta, Perus e Bacanaço nos deparamos com uma melancolia profunda diante dos problemas sociais. Muito além da análise dos contos de cada livro, foi extremamente importante reler sobre a dialética da norma e conduta. Esse conceito já foi abordado por Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Antonio Candido. E Candido explica que “toda sociedade jovem, que procura disciplinar a irregularidade da sua seiva para se equiparar às velhas sociedades que lhe servem de modelo, desenvolve normalmente certos mecanismos ideais de contensão, que aparecem em todos os setores”.[1] Isso cria a ilusão de uma ordem constante que sequer existe, e que claramente se torna completamente destoante da realidade.

Após a independência de alguns países como o Brasil, surge um sistema de regras sociais a parte, como os livros analisados por Vima nos mostram. As regras das periferias e dos marginalizados não necessariamente serão compatíveis com as regras oficiais preestabelecidas, já que essas pessoas “não sendo escravos nem senhores, viviam num espaço social intermediário e anômico, em que não era possível prescindir da ordem nem viver dentro dela”[2]. É nesse cenário que essa dialética da ordem e da desordem se consolida como uma característica estrutural da sociedade brasileira e como uma constante cultural. A partir da consolidação e do enraizamento da transgressão social é que surge a figura do malandro, tão presente no cotidiano brasileiro, que simboliza a resistência contra a repressão e exclusão dos marginalizados, é aquele que percorre os vários polos da sociedade sem necessariamente sair da sua situação periférica.

A autora explica que a formação social brasileira sempre pendeu para o lado do acordo e da conciliação, assim como ocorreu na Independência do Brasil, ao invés da ruptura e do conflito. O resultado disso foi a criação de regras sociais que sempre beneficiaram muito mais as elites do que os marginalizados.

A consolidação das elites se deu através do uso da violência, da exclusão social e da exploração dos que eram e ainda são considerados indivíduos inferiores, tanto em Angola quanto no Brasil. Tudo isso gerou e fortaleceu a existência da marginalidade social, dando até legitimidade a essa existência[3] duramente oprimida, reprimida sem qualquer perspectiva real de mudança. Tudo isso contribuiu para esse cenário destoante e desconexo que é apresentado principalmente na obra de João Antonio, já que a exclusão se apresenta para o autor como uma característica cultural e estrutural da realidade brasileira – por isso parece tão difícil ser vencida. Ele identifica no Brasil um espaço em que os interesses pessoais prevalecem e não parece acreditar na possibilidade de transformação social.

Em Angola o resultado da exclusão e exploração gerou o musseque (“areia vermelha”): “espaço dos marginalizados que servem de reserva de mão-de-obra barata ao crescimento colonial (…) deserdados da sociedade, com uma percentagem importante de gente vinda do campo recentemente, desempregados ou vivendo de salários baixíssimos, a maior parte subsistindo graças a biscates ou subocupações do terciário.”[4] No Brasil, o resultado foram as favelas, que possuem uma descrição muito próxima do musseque. E são nesses espaços que se consolidam a dialética da norma e conduta, a efervescência da transgressão e a criação de normas próprias.

A análise das personagens – que estão sempre vivendo na tensão entre norma e conduta, sempre diante de profundos dilemas cotidianos – nos mostra como as normas sociais são impostas, geralmente em desacordo com a realidade, e como muitas delas simplesmente impedem a criação de oportunidades e de transformação social. Ou seja, não há plenitude na cidadania dos indivíduos marginalizados. Não há espaço para otários[5], soldados ou malandros, e isso afeta diretamente a constituição da humanidade desses indivíduos.

Apesar das diferenças dos países e do objetivo dos autores, Luandino e João Antonio dão voz aos marginalizados, expõem a realidade daqueles que vivem no meio-fio entre norma e conduta, entre a elite e os excluídos. As duas obras apresentam de forma contundente a sociedade segregadora e preconceituosa na qual estamos inseridos, essa herança negativa do colonialismo e do projeto civilizatório que foi e é presente todos os dias, a denúncia das falsas possibilidades de inserção social baseados na aparência e o desejo de enquadramento nas estruturas coloniais, como uma forma de se reconhecer parte da sociedade, mesmo que isso aconteça através de trabalhos burocráticos ou repressores, que geralmente resultam na desilusão, na passividade, no conformismo.

A literatura marginal me mostrou (novamente) de uma forma intensa a sua necessidade e importância. A literatura cumpriu e cumpre o seu papel, de além de tudo, trazer esclarecimento e mexer com as nossas estruturas.

 

[1] Dialética da Malandragem: caracterização das Memórias de um sargento de milícias. In: Revista do Instituto de estudos brasileiros, nº 8, São Paulo, USP, 1970, pp. 67-89.

[2] Literatura e Marginalidade – Um estudo sobre João Antônio e Luandino Vieira, 2008, p. 35

[3] Literatura e Marginalidade – Um estudo sobre João Antônio e Luandino Vieira, 2008, p. 14

[4] Pepetela apud Martin, 2008, p. 61

[5] Personagem geralmente proletário, que aspira alcançar a burguesia apesar da baixa remuneração e tenta seguir as normas institucionalizadas.

 

Sandra de Cássia é formada em Letras, nascida em São Paulo, amante de literatura, filmes e séries. Se sente mais viva quando escreve.

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