Não é falta de rumo, é só (uma boa forma de) errância


Texto: Lidyanne Aquino // Arte: Marília Pagotto

O mundo manifestou cedo o seu desejo de nascer em mim. Na oitava série me perdia para memorizar densidade demográfica e nomes de capitais, quando só pensava em perambular pelas ruas desses lugares (de preferência ignorando os números). Era obcecada pela Inglaterra e ao inventar de fazer intercâmbio logo tive as asinhas cortadas pois era “perigoso demais” para uma menina de 14 anos. A coordenadora de intercâmbios sugeriu Toronto, no Canadá, e me pareceu um bom ponto de partida. Quando a gente ama o desconhecido fica fácil anular o medo. A perspectiva de sair de uma cidade com 863.982 habitantes (é um dado atual, havia menos ainda em 2006) para uma com, hoje, 6 milhões, nem parecia tão assustadora. Sair de um aeroporto que desconhece voos internacionais para outro onde nem falavam a minha língua, muito menos.

Fui sozinha e só com o frio na barriga, com uma confiança surreal para alguém da minha idade. Dar aquele passo com tanta segurança me mostrou que o mundo não tinha nada de aterrorizante e era tão lindo e interessante quanto eu imaginava nas aulas de geografia e história. Não virei criatura de humanas por acaso, é verdade. Nesta época encarei uma viagem de três dias para Nova Iorque – também sozinha, e dividindo o quarto de hotel com desconhecidos (na época nem sabia o que era hostel, vejam bem). A doença do viajante solitário não tem cura, sentimos necessidade de dar sequência a essa brincadeira em outros lugares.

Oito anos depois me peguei montando um novo roteiro para viajar sozinha e, veja bem, estava apavorada. Meu eu destemido de 14 anos desapareceu na adulta insegura e temerosa de 23. Desta vez era tudo bem diferente. As palavras ‘adulta’, ‘dona de mim’, ‘responsável pelos meus atos’ ressoavam o tempo todo, com mais impacto do que naquele 2006. Estava tudo em minhas mãos e não tinha ideia do que seria passar tanto tempo conversando comigo mesma. Dividir foi uma construção, levei tanto tempo para encarar vivências compartilhadas… gostava de fazer tudo sozinha, inclusive ir a shows (poisé), até começar a trabalhar esse aspecto e começar a chamar as pessoas para tudo. E estava em um intercâmbio com muita gente querida – e acessível! – por perto. Ia romper essa rotina para viver uma longa viagem sozinha. É estranho passar a ver a solidão como um sinal de perigo. Ainda mais para alguém que sempre esteve isolada e, embora não visse nisso novidade, tinha medo de estragar a viagem com o próprio silêncio.

Descobri então a melhor forma de viajar. Era difícil tomar chopes e correr o risco de perder o lugar quando fosse o banheiro? Sim. Mas acho que essa era uma das poucas dificuldades de só contar com a própria companhia. Ter atenção redobrada pode ser um porre também, mas bem, quem vive em uma cidade como São Paulo precisa fazer isso o tempo inteiro mesmo. Não quero idealizar a experiência e dizer que é a coisa mais tranquila deste mundo, mas quero reforçar o quão revelador pode ser.

Começo pelos aspectos mais práticos. Roteiro e horários ficam por sua conta. Se você perder o sono ou a hora, tudo bem, basta refazer o roteiro de acordo com as suas necessidades. Chegou a um ponto turístico e não achou tudo isso? Ande nos arredores e veja o que a região tem a te oferecer. Quer fazer uma viagem de ida e volta no mesmo dia? Vá sem medo. Essa liberdade é uma delícia pois não fere ninguém e cabe apenas a você. Não é necessário suportar um programa chato só porque a outra pessoa gostou, muito menos seguir um planejamento prévio feito pelo grupo. Difícil encontrar um lugar para comer que agrade a todos? Sozinha você pode optar por um lanche rápido ou se presentear com um almoço refinado.

A parte mais interessante é descobrir o quanto podemos aprender a nos gostar nesse processo – e isso aparece não só em forma de “epifanias”, mas também nas coisas mais banais. Aprendemos a tirar boas fotos de nós mesmos – não só selfies, mas ângulos legais e possíveis com o timer, otimizar o tempo, agilizar a montagem da agenda de cada dia. Com isso aprendemos muito sobre nossa capacidade de organização e de curtirmos mais da nossa própria companhia. Isso te causa uma enorme gama de sensações. Chorei muito, por exemplo, ao parar na frente do Portão de Brandemburgo; não me fez falta compartilhar com alguém, pelo contrário. É uma das memórias mais queridas da viagem! Da mesma forma eu morria de rir ao me lembrar de amigos no meio das caminhadas, sem me constranger com o risco de parecer ridícula. Passava muitas horas andando sem rumo ao sair dos museus. Quando cansava, sentava em um café ou restaurante e escrevia, ou simplesmente colocava os fones e montava uma playlist. Usava e abusava do shazam, criando novas playlists esponâneas – a trilha sonora dos lugares era sempre muito boa. Aproveitava para tomar um café ou uma cerveja (pois sim). Se estivesse disposta, puxava papo com alguém próximo. Até hoje tenho contato com algumas pessoas que conheci no meio dessas conversas despretensiosas.

A melhor parte de estar só, ao menos neste contexto, é tornar-se mais atento aos arredores. As coisas ganham uma roupagem mais interessante, você percebe lugares que talvez passariam despercebidos caso você estivesse concentrado na história de um amigo. Sou muito tímida, então também houve isso – ou pedia informações a desconhecidos ou seguiria perdida. Claro que primeiro me permitia ficar perdida por um tempo para ver se encontrava algo interessante, mas se estivesse muito cansada ou com horário marcado apelava para desconhecidos e olha, teve até um moço que me acompanhou até a porta do hostel ante meu desespero por não encontrar a rua. E não, ele não pediu nada em troca.

Por isso sempre digo: não hesite nem adie aquela viagem dos sonhos, muito menos espere por companhia para isso. Vale juntar as economias e se enfiar num avião para descobrir mais sobre a melhor companhia para se perder por aí. Nunca pense que é falta de rumo, é só uma boa forma de errância.

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Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.