Não é Austen, é Joe Wright: considerações sobre “Orgulho & Preconceito”


Não sei dizer qual foi o momento exato em que a minha história de amor pelo Joe Wright começou, mas talvez tenha sido aquele em que Lizzy Bennet contempla todos os seus sentimentos confusos quanto ao Darcy, ao Wickham e quanto a si mesma, pouco antes de visitar Pemberley. Ela também contempla, no plano físico, a imensidão da natureza a partir do topo de uma montanha. Não é que eu não estivesse gostando daquela adaptação de Orgulho e Preconceito antes, mas acho que foi esse o momento em que eu percebi que aquele cara fazia os filmes mais bonitos do mundo. Então, aviso: é possível que esse texto seja bastante parcial.

É verdade que falta ao filme a ironia sutil da Jane Austen – o livro também é uma leitura deliciosa porque é divertida -, mas o narrador pertence ao romance. Ainda assim, a adaptação (mais melodramática, admitamos) não deixa de ter sua graça, em muito devido aos próprios personagens que são ridículos – oi, Sr. Collins e Sra. Bennet – ou que fazem graça de tudo – oi, Sr. Bennet. Como adaptação, ela tem praticamente tudo o que precisava. A Elizabeth com uma língua afiada e a confusão que surge dentro dela mais tarde, a Jane boazinha demais, as irmãs mais novas exageradas, a Sra. Bennet desesperada, o Sr. Bennet irônico. Longbourn é uma casa de campo bonita, mas a família Bennet não vive tão confortavelmente (reparem nos vestidos de dia a dia das irmãs) que a situação das cinco filhas mulheres após a morte do pai não é preocupante. Pemberley é tão bonita quanto precisava ser para que Lizzy afirmasse que tinha se apaixonado pelo Darcy no momento em que pôs os pés lá. Darcy é arrogante, mas é também desajeitado nas interações sociais, desajeitado na hora de fazer um pedido de casamento.

Foi uma surpresa descobrir o quanto os estudiosos de Jane Austen e janeites por aí não gostam dessa adaptação. Apesar de ela ter uma nota alta no Rotten Tomatoes (tanto entre a crítica quanto entre o público geral), uma das primeiras críticas que a gente encontra por lá afirma que o filme “não é Orgulho e Preconceito”. É verdade que Joe Wright não tem medo de fazer mudanças: cortar o que não era parte daquilo que ele considerava o foco principal (o romance) ou, conforme os comentários dele no DVD (vale muito a pena), representar a família Bennet como uma “família real” – ninguém fica educadamente esperando sua vez de falar ou sente necessidade de passar o tempo todo conversando. Se o foco da adaptação é o romance (e fica bem claro que é, já que todos os outros conflitos ganham muito menos tempo na tela), é claro que muita coisa acaba simplificada – como a relação entre o Sr. e Sra. Bennet, pouco explorada.

pep_screencaps_2Antes e depois de saber sobre as visitas.

 O que não quer dizer que outros temas são ignorados. Por exemplo o sentimento de presunção de personagens como o Sr. Collins e Lady Catherine de Bourgh (que só é ridículo nele, porque ele não tem realmente nada). A obrigação do casamento, especialmente para as mulheres, na Charlotte Lucas e seu resignado “nem todos nós podemos nos dar ao luxo de sermos românticos”. As diferenças sociais existentes mesmo entre as “boas famílias”, e nisso as imagens ajudam muito: está nas roupas, nas interações, nos olhares. Está lá nas casas (o lugar que apresentamos para o mundo). Em Longbourn e em Pemberley, ganhamos um “tour” e podemos ver que os Bennet não vivem mal – mas tem bagunça, tem galinhas passeando – e Darcy vive num mundo completamente diferente, cheio de arte cara, com aquele lago absurdo na frente.

Um artigo fantástico com o qual eu tive a sorte de topar por aí analisa as locações de certas cenas, e as cores, e como elas representam o neoclassicismo e o romantismo, duas correntes em voga (uma decadente, a outra ascendente) lá no começo do século XIX. Ele demonstra a importância da imagem, do som, para reconstruir o contexto em um meio de expressão diferente.

pep_screencapsSegundo o artigo, a chuva representa as emoções conflituosas, a ponte representa as mudanças que vem pela frente, e as colunas gregas representam o classicismo em Darcy (que é, vale lembrar, rejeitado ali).

Não acho que qualquer adaptação é boa – e que vale qualquer coisa. Adaptar, afinal, não é um ato de criação isolado – está diretamente conectado a um primeiro trabalho. Mas “adaptar”, diz o dicionário, é “fazer ficar ou ficar, tornar(-se) apto ou adequado a uma situação ou função” ou “alterar as características de (algo ou alguém) para que cumpra nova função”. A preocupação de Joe Wright era ser honesto com a obra (mas ele só pode fazer isso através da própria leitura) e ser o mais original possível. Quando uma obra já foi adaptada tantas vezes, ser original não parece essencial? Talvez a adaptação fosse mais bem vista se tentasse ser a (adorada) minissérie de 1995 – mas se o público quiser ver a minissérie de 1995… bom, ela está lá.

O filme não é Austen – Jane Austen viveu  duzentos anos atrás e escreveu um romance, não um roteiro para o cinema. Tem um ensaio que diz que a Elizabeth e o Darcy de 2005 parecem muito mais dois jovens que ainda não aprenderam a lidar com as incumbências e responsabilidades da vida adulta do que seriam naquela época (eles já eram bem adultos, Darcy era o homem da casa, etc). Segundo a autora, talvez essa leitura diga muito mais sobre nós do que sobre Jane Austen, e ela não deixa de ter razão. Mas talvez esse seja exatamente o que fez do filme tão popular, o que permitiu o envolvimento do público. Talvez ele apenas ofereça uma nova leitura, uma nova perspectiva que só é possível porque está diretamente ligada ao nosso próprio tempo – e não acho que isso seja desonesto com Austen. É apenas uma leitura. O texto dela (e os estudos históricos sobre o contexto em que ele foi escrito) estão lá para quem quiser ler Austen e descobrir tudo o que um filme de duas horas não conseguiu (ou não tentou) oferecer.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Sinceramente, não entendo o motivo das fãs de Jane Austen não gostarem desse filme. Tá, eu entendo e aceito tudo o que você disse sobre elas não gostarem (1995, claro), mas eu adoro os livros, adoro a minissérie de 1995 e isso não me impede em nada de adorar, também, o filme do Joe Wright. O filme não é adaptação tal e qual o livro, mas nesse caso eu não me importei. É tudo tão singelo, delicado e bem encaixado que não tem como morrer de suspirar ao assisti-lo. E é a mesma coisa que sinto com relação Anna Karenina, também do Wright. O livro é super denso e o filme é uma coisa teatral e diferente, mas eu gostei mesmo assim. E nem é que eu seja fácil de agradar não, haha, só que gosto bastante do jeito Joe Wright de fazer filmes.

    Sem mais, texto perfeito, Fer! Um beijo! =)

  • Sabe que eu adoro narrativa em off? Me acostumei com isso na TV (oi, Veronica Mars/Gossip Girl) há muito tempo, então acho super normal haha. Mas entendo o que você quer dizer com os longa-metragens.

  • Marina

    SIM! MIL VEZES SIM! Eu AMO esse filme. Toda o drama visual é necessário pra transmitir o que a Lizzie pensa. Hoje muitas adaptações recorrem à narrativa em off da personagem principal (oi adaptações de John Green), e isso me cansa um pouco. A galera tem que pensar também no desafio de fazer uma narrativa audiovisual de algumas – poucas – horas. O formato de longa-metragem tem que ser levado em conta, não dá pra fazer no cinema o que se faz numa série de TV. E nem precisa! Ainda bem que temos os dois! (e Lizzie Bennet Diaries!) 😀