Não desliga a TV!


Texto: Amanda Tracera // Arte: Gabriela Amorim

No mês em que a Pólen está completamente focada em contar e ouvir histórias de mulheres de todos os tipos, pensei muito, como era de se esperar, em feminismo e em como eu, que até pouco tempo atrás não me via tão veementemente envolvida em um movimento, acabei vindo parar aqui: dentro de uma série de coletivos, lendo e me interessando tanto sobre o assunto, concordando com tantos pontos dessa luta que só me beneficia e abre os olhos. Quando foi que pareceu certo apoiar com essas mulheres “loucas” que gritavam por direitos iguais? Quando foi que eu percebi que precisava levantar a minha voz para me fazer ouvir?

Cresci em um ambiente terrivelmente privilegiado, de forma que as minhas grandes preocupações durante a infância giravam em torno de Barbies e filmes que passariam na televisão por assinatura. Essa realidade, muito distante da de diversas outras meninas, serviu pra me deixar cega por um tempo consideravelmente grande, mas o constante contato que tive com personagens femininas de grande força colaborou, sem dúvidas, para que eu me tornasse uma criança que não se contentava com meias respostas e, mais tarde, uma feminista orgulhosa.

Estou falando de desenhos, bonecas, filmes e pequenos seriados que me ensinaram, desde muito jovem, que eu precisava ir atrás dos meus sonhos, e que deixar outras pessoas me atrapalharem era, antes de qualquer coisa, bobagem minha. Aprendi com personagens da Disney e da TV Globinho que eu era forte, que eu era bonita do meu jeitinho, que eu merecia ser reconhecida pelos meus talentos e que, mais importante, eu importava. Minha voz importava. Minha presença não era, não deveria jamais ser, diminuída. E acreditei nisso.

(Um parênteses, porém: eu sou uma menina que está dentro do padrão e que, desde pequena, sempre esteve dentro do padrão. Esse texto é, portanto, claramente pessoal, e as personagens que me ajudaram não necessariamente ofereceram a outras meninas, com vivências diferentes, a mesma ajuda. É por isso que a gente precisa, urgentemente, de todo tipo de representação feminina. Mas isso é tema para outro texto.)

Vendo Três Espiãs Demais, Kim Possible e As Meninas Superpoderosas, eu tive modelos de mulheres que lutavam contra bandidos, colocavam ordem nas situações mais caóticas e conseguiam dar conta de trabalhos pesados sem precisar da ajuda de ninguém. Com Bratz e The Cheetah Girls nasceram os meus conceitos de squad e de que mulheres, apesar dos dizeres populares, podem ser (e são!) melhores amigas. Com as princesas da Disney da minha época, aprendi a correr atrás dos meus sonhos, a não julgar ninguém pelas aparências, a fazer o que for preciso para lutar pelo que eu acredito (inclusive entrar no exército). Com figuras como Lizzie McGuire, Raven Baxter, Miley Stuart/Hannah Montana e Alex Russo, aprendi a lidar com problemas da adolescência, embora nem sempre eles envolvessem visões do futuro, duplas identidades ou feitiços. Hermione Granger e Rory Gilmore me serviram de modelos de cérebro e de trabalho duro. E por aí vai.

24 Times Alex Russo From "Wizards Of Waverly Place" Proved She Was Your Soul Sister

O que quero dizer é que essas meninas me diziam alguma coisa, me ensinavam lições importantes que eu traria até o final da adolescência (às vezes, início da vida adulta). Vi mulheres conquistando espaços e sendo ouvidas. As vi lutando contra problemas com os quais também tive que lidar – decepções, notas ruins, desconfiança, insegurança, paixões não correspondidas, etc. Recebi conselhos e enxerguei melhor o mundo (e a mim mesma) a partir de programas que estavam lá justamente para me mostrar que eu não estava nadando sozinha nesse marzão que é a vida, tampouco sendo a única a experimentar tudo aquilo. Existia mais gente. E eu podia ser (forte, inteligente, importante, decidida) como aquelas pessoas.

Não estou dizendo que não existiram problemas. Hollywood e a Disney fizeram um grande estrago também, mas preciso considerar o impacto positivo que eles tiveram em mim. Que eles ainda têm em meninas dos seis aos dezesseis anos, principalmente, que estão começando a descobrir quem são, e que estão vivendo as primeiras grandes emoções.

É preciso enxergar que, além de filmes que reforçam os padrões estéticos e que passam a ideia de que um grande amor é maior do que todo o resto, essas grandes produtoras estão fazendo algo que importa e que influencia. É preciso notar a existência de princesas que não precisam que os príncipes as salvem, ou cujos príncipes nem sequer existem; de meninas que andam de skate, tocam instrumentos musicais, praticam esportes e se tornam grandes cientistas; de figuras femininas jovens que influenciam positivamente outras meninas ainda mais jovens a serem mais do que aquilo que elas ouvem que tem que ser. Faz-se isso na televisão, hoje. Fazia-se isso na televisão na minha época, e, eu espero, essa prática não há de morrer.

Apesar de ter passado muito tempo até que eu finalmente me enxergasse como feminista, a faísca sempre esteve lá graças a essas representações. O senso de igualdade nasceu e sobreviveu em mim, e, acredito, em tantas outras meninas, porque a gente teve em quem se inspirar nos veículos de grande massa. E ainda que hoje sejamos mais mulheres, mais desconstruídas, mais decididas a passar em frente e para os lados tudo o que aprendemos e todas as nossas noções de um mundo mais justo, é necessário que esses veículos sigam mostrando mulheres reais, de todas as formas, de todos os jeitos, com todas as nuances e todos os altos e baixos de ser e existir nesse mundo. Afinal, é assim que se (des)constrói.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.