Não confie: um passeio pelos narradores mais suspeitos da ficção


Enquanto Paula esperava no ponto de ônibus, a conversa de um grupo de amigos sentados no bar em frente chegava até ela sem que pudesse evitar. “É claro que traiu”, dizia um dos amigos, um rapaz de não mais que trinta anos. “Como você sabe?”, perguntou a moça que estava a seu lado, “Ele nunca descobriu”. “Claro que descobriu”, continuou o rapaz, “o menino lá era a cara do Escobar”.

Percebendo finalmente do que se tratava, Paula chegou a cogitar por um segundo a possibilidade de atravessar a rua e se juntar à conversa, dizendo que o rapaz estava pelo menos uns cinquenta anos atrasado em sua suposição. Descartou a hipótese ao ver que seu ônibus se aproximava, recordando que por mais urgentes e sedimentadas que sejam algumas questões literárias, a situação não seria menos estranha. Foi para casa pensando que Bentinho fez um bom trabalho ao conseguir enganar tanta gente.

Paula, assim como Capitu e Bentinho, não existe e nem nunca existiu. Mas a questão da suposta traição no livro de Machado de Assis é tão presente e básica quando o assunto é literatura brasileira, que a cena narrada no começo do texto poderia acontecer em qualquer mesa de bar que reunisse algumas das várias crianças obrigadas a ler Dom Casmurro cedo demais.

Hoje a questão abre espaço para análises baseadas em diferentes teorias, entre elas a feminista, que por diversas vezes se pergunta se o livro carrega uma forte carga machista em sua concepção ou foram as leituras de época que nos ofereceram isso como herança. Todas essas discussões, no entanto, só são possíveis graças à um elemento narrativo básico: o narrador.

O narrador em primeira pessoa é o mais conhecido entre os narradores não-confiáveis. Ouvimos nas aulas de literatura que não se pode acreditar em tudo que nenhum narrador diz, mesmo em terceira pessoa. Mas às vezes a voz parece tão sincera ou onisciente e tudo faz tanto sentido que acaba parecendo natural acreditar que o dia estava mesmo nublado e que nos olhos do personagem havia realmente sinais de sadismo antes que a frase decisiva fosse dita.

A primeira pessoa, no entanto, impossibilita até mesmo o mais ingênuo ou distraído dos leitores de crer plenamente no que lhe é contado. O ciúme de Bentinho se tornou tão claro que o rapaz fictício na também fictícia mesa de bar certamente sofreria retaliação ao não questionar o julgamento de nosso Dom Casmurro.

Basta se tratar de um personagem para que a credibilidade de um narrador seja posta em cheque, mas a parcialidade dele vem em diferentes formas. Ele pode estar tentando se defender de uma acusação, estar em um tempo diferente daquele em que a história se passa ou pode apenas ser um personagem especialmente repleto de falhas de caráter. Alguns autores exploram ainda a loucura como fator de distorção de fatos na narrativa. Seja como for, a escolha desse foco narrativo, por criar uma proximidade muito maior com as partes envolvidas, é sempre passível da interpretação ou alteração consciente do personagem, levando o leitor a um permanente estado de atenção e desconfiança.

O século XX presenciou uma espécie de febre de narradores não-confiáveis. Apesar de ter sido utilizado antes, foi este período que tornou-o um recurso versátil do escritor. Aplicando-o, tornou-se possível não somente aproximar o leitor das reflexões mais profundas de pelo menos um dos personagens, mas criar questionamentos sobre toda a estrutura narrativa.

“Sou o maior mentiroso que você já viu na vida. É terrível. Se vou até a esquina comprar uma revista e alguém me pergunta onde estou indo, sou capaz de dizer que vou a ópera.” – Holden Caufield

Holden Caulfield ganha uma menção como exemplo de narrador não confiável. Assim como Bentinho, o personagem de J. D. Salinger está tão centrado em seus próprios pensamentos e suas próprias questões existenciais que o relato sobre o mundo ao seu redor é, no mínimo, discutível. No contexto do livro, a interpretação é clara: Holden é um adolescente em meio a crises emocionais. A narrativa desconexa, emocionada e tendenciosa de O Apanhador no Campo de Centeio vai além de combinar com o momento na vida do personagem: ela traz a angústia também ao leitor.

Salinger também é famoso por desenvolver diferentes histórias e enredos dentro de um mesmo universo ficcional, já que os personagens de seus diversos contos e novelas são todos membros da família Glass. Dessa forma, suas histórias se encontram e sobrepõem, contadas quase sempre sob a ótica de um irmão Glass diferente. Essa se aproxima da proposta de Junot Díaz. O escritor dominicano, no entanto, sempre dá voz a um mesmo personagem, o confuso e canalha Yunior. Ele apareceu primeiro no romance A fantástica vida breve de Oscar Wao, em que tenta reconstruir a história de Oscar e sua família ao mesmo tempo que reconstrói a história da República Dominicana. Mas Yunior só aparece realmente como personagem já no meio da história e é aí que o leitor percebe os juízos de valor feitos até então.

Yunior reaparece na coleção de contos É assim que você a perde, que justamente por compartilhar a voz narrativa do primeiro livro de Díaz e alguns de seus personagens, pode ser lido como um romance. Aqui Yunior é ainda mais parcial, pois narra a própria história. Ou melhor, o próprio histórico amoroso. É então que vemos sua face canalha e machista plenamente, ao mesmo tempo em que Díaz questiona a construção da masculinidade dominicana e o mito do macho viril e infiel que sobrevoa a cultura do lugar. “Até que não sou um mau sujeito”, ele começa, e segue se contradizendo até o fim.

Podemos falar sobre Lolita? O polêmico livro de Vladimir Nabokov têm, entre suas maiores conquistas, um dos melhores casos de narrador não-confiável da literatura. Que atire a primeira pedra aquele que nunca se deixou levar pela narrativa de Humbert Humbert e seu “caso de amor” pela moça mais nova. É talvez isso que transforma a leitura em algo tão instigante: quando você percebe, já comprou o que ele diz, por mais absurdo que seja.

Em O sentido de um fim, Julian Barnes explora a falta de credibilidade de seu protagonista, Tony Webster, para criar uma reflexão acerca da memória. A história chega ao leitor por meio das lembranças de Tony, o que já nas primeiras linhas é desmascarado como algo fragmentário e incerto. Já no começo fica claro que Tony não é a melhor pessoa para contar aquilo e todo o livro se desenvolve sob a dúvida de quanta verdade se pode tirar da versão editada e excessivamente moldada que Tony emite.

“Quantas vezes nós contamos a história da nossa vida? Quantas vezes nós ajustamos, embelezamos, editamos espertamente? E quanto mais longa a vida, menos são os que ainda estão por perto para nos contradizer, para nos lembrar que nossa vida não é a nossa vida, mas apenas a história que nós contamos a respeito da nossa vida. Contamos para outros, mas – principalmente – para nós mesmos.” – Julian Barnes, O sentido de um fim

Ian McEwan, por outro lado, brinca com a confiança do leitor em seu aclamado Reparação. Trata-se do típico ponto de vista narrativo onisciente, em terceira pessoa e com um privilegiado acesso ao interior dos personagens. Até que em determinado momento descobre-se que não é exatamente assim. Dessa forma, o leitor é questionado sobre a própria ação narrativa e passa a duvidar de tudo o que acontecera até então.

Reparação – Ian McEwan

Outra obra em que o recurso do narrador suspeito é utilizado de maneira interessante é As Virgens Suicidas. O narrador não está contando a própria história, mas a de outras personagens. Nessa construção, é impossível que ele tenha conhecimento total dos acontecimentos. O que é de extrema importância para a obra: todos sabem quem são as garotas Lisbon, mas ninguém de fato as conhece e sabe pelo que passam. Elas são uma incógnita jamais decifrada.

Às vezes o recurso vai mais longe. É o caso de Clube da Luta. Esse é, talvez, o melhor exemplo de um narrador não confiável. Mas estaríamos mentindo se disséssemos que iríamos explicar o porquê. Afinal de contas, essa é a regra número um.

Compartilhe: