‘My Salinger year’, Joanna Rakoff


Fã de literatura, pessoa que sempre lê fichas catalográficas, que diz que talvez tenha nascido para ler e não para escrever – mas que no fundo quer escrever, claro –, eu sempre quis trabalhar com eles, os livros. Ajudar a trazer livros à vida sempre me pareceu uma das atividades mais bonitas desse mundo. Em seu memoir, Joanna Rakoff relembra o ano em que fez parte desse processo, trabalhando como assistente (ou: secretária, diria seu pai) da agente de J. D. Salinger – dentro do livro também conhecido simplesmente como “Jerry”. Assim, fui conquistada pela premissa mesmo não sendo particularmente fã de Salinger.

O “Salinger” do título funciona como um chamariz óbvio, mas – é claro – esse livro não é sobre ele. Salinger faz algumas aparições, quase sempre sendo só uma voz alta demais do outro lado da linha de telefone. Sua presença se dá através das constantes discussões a seu respeito que acontecem dentro da Agência. Estamos na década de noventa, Salinger já vivia recluso há muito tempo e também não publicava mais nada – até que um editor desconhecido consegue contatá-lo e o convence a transformar seu conto “Hapworth 16, 1924” em uma novela. A decisão coloca toda a agência em movimento, mas é especialmente significativa para a chefe de Joanna. Consequentemente, é importante também para ela.

Ser assistente da agente de J. D. Salinger é o primeiro emprego real de Joanna, recém-saída do ambiente acadêmico. O trabalho é monótono, não paga muito bem e parece desagradar seu pai. Joanna vive em Nova York e, aos vinte e três anos, está tomando algumas decisões questionáveis na vida pessoal (uma palavra: Don – confesso que amei odiar) e passando trabalho. Ela sempre tivera uma rede de segurança sustentada sem muitas exigências pelos pais, mas é nesse momento em que passa a ser vista por eles como uma Adulta. Ela está por conta própria pela primeira vez e finalmente precisa encarar todas as dificuldades financeiras que vêm junto. E as desilusões. E as amizades que ela tenta, mas parece não conseguir mais manter vivas. E o namorado que daria uma linda descrição no papel, bem novelesco.

My Salinger Year é, de certa forma, um coming of age. Li outros dois livros de memórias esses ano (já falei de ambos por aqui) e esse, em comparação, é o menos extraordinário. As memórias que ele carrega são mais sossegadas. E talvez seja isso o que o torna mais interessante. É verdade que não vamos conversar com o Salinger pelo telefone, mas muito da narrativa de Rakoff poderia ser parte da nossa própria narrativa. Nós, que amamos literatura, que percebemos o quanto ela pode influenciar nossas vidas (e nós que tivemos sorte de nascer com tantos privilégios, vale dizer). O livro começa com um prólogo chamado “All of Us Girls”, em que a narradora não fala em “eu”, como no restante das memórias, mas em “nós” – por nós, ela quer dizer todas as garotas mal remuneradas, vestidas de tal jeito que lembra as fotografias de Sylvia Plath na faculdade, sem dinheiro para almoçar perto do trabalho, tentando ler em cada pausa do dia e sonhando com o dia em que seriam parte indispensável do processo de colocar livros no mundo. O livro é sobre Joanna, e não sobre Salinger, mas também é muito sobre “nós”.

Uma das funções de Joanna ao longo de seu ano na Agência é responder ao volume enorme de correspondência que é enviada pelos fãs de Salinger, que há anos não recebia mais as cartas de leitores. O trabalho de Rakoff é ler (depois de Mark Chapman, é muito importante que alguém realmente leia o conteúdo) e mandar uma resposta padrão informando que o autor não deseja receber correspondência. Mas ela nem sempre consegue. As cartas atestam o poder que as obras que nos marcam têm e a importância delas para nossas vidas, e Joanna não consegue ficar indiferente diante disso. Esse provavelmente é meu aspecto favorito do livro.

As memórias de Joanna Rakoff são sobre seu ano de Salinger, mas são principalmente sobre estar por conta própria no mundo pela primeira vez e, assim, precisar crescer. O que é, nas palavras da minha pensadora contemporânea favorita, miserable and magical. É em meio às escolhas erradas e às melhores escolhas possíveis, em meio aos fins de semana solitários e às noites de quarta-feira cercada de gente interessante, que Joanna descobre um pouco melhor quem ela é e o que ela quer fazer com a própria vida. O que, no fim das contas, é bem extraordinário. Aprender a seguir em frente todos os dias é sempre bem extraordinário.

Talvez você, como eu, tenha se visto soluçando com a identificação, o alívio de saber que tinha mais alguém sentindo tanta exaustão, tanto desespero, tanta frustração com tudo e todos, inclusive consigo mesma, com a sua inabilidade de ser devidamente agradável com o seu pai cheio de boas intenções ou com sua inexplicável habilidade para retalhar o coração do homem que mais a ama. Mais alguém que estava tentando descobrir como viver nesse mundo.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura – ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.